Para manter sua participação na matriz energética brasileira nos atuais 17,5%, o etanol precisará ter produção elevada anualmente de 3,5% a 4% em média na próxima década. A informação parte da diretora geral da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Magda Chambriard, durante o primeiro painel do Ethanol Summit, em São Paulo.
Estudos da ANP apontam que o país pode ter em 2025 uma demanda por derivados de petróleo que exigirá a importação de 188 mil barris por dia, na melhor das hipóteses, até 585 mil barris equivalentes por dia. A agência trabalha com um cenário intermediário de 400 mil barris. "Isso significa um nicho de oportunidade para o etanol hidratado", afirmou Magda nesta segunda-feira. Para amenizar o défict o etanol precisa voltar a ser competitivo e aumentar a produção, disse a diretora-geral.
"No começo da década 80, esse problema estava resolvido e hoje não está mais. O etanol hidratado vem ocupando o espaço da gasolina e tem uma importância estratégica para o Brasil muito grande. Se não aparecer mais etanol, vamos importar 400 mil barris de gasolina (e derivados)", afirmou Magda Chambriard.
A diretora da ANP estimou que a produção de etanol representou nos últimos 15 anos 80 bilhões de dólares para país, entre exportação e substituição de importações de gasolina.
Se não aparecer mais etanol, vamos importar 400 mil barris de gasolina
"Qual o país do mundo abre mão de uma coisa dessas", questionou Chambriard, que disse que a autarquia vem discutido o futuro do etanol no Brasil com todos os agentes do setor.
"O país tem déficit de gasolina e vocação para o etanol. O espaço, se o etanol puder avançar na direção da substituição da gasolina, é vantagem para a balança comercial brasileira e ainda para o ambiente."
A falta de uma política governamental de longo prazo e de rentabilidade ao setor impede que os produtores garantam esse aumento da oferta até 2025. A saída, segundo Magda, está na inserção de tecnologias em toda a cadeia.
"É preciso que o etanol se aprimore no sentindo de mais efetividade na colheita, adequação das terras, do tipo de planta para a terra correta, maior aproveitamento de biomassa... uma série de ações inclusive de aperfeiçoamento de motores, para que o etanol ganhe a perenidade que ele merece no Brasil", frisou.
Sobre a indústria automotiva sugeriu que a eficiência precisa ser melhorada.
"Hoje cada litro de etanol gera 70% da energia do combustível fóssil. Isso tornou o biocombustível competitivo em somente seis estados brasileiros, com base nos preços de maio. Se tivéssemos motores capazes de gerar 80% da energia do fóssil, o etanol seria competitivo em outras 16 unidades da federação", exemplificou em sua apresentação.
Será que se houver um recrudescimento da inflação, o governo não vai baixar pra zero de novo a Cide?
Além da indústria automotiva, ressaltou, os canaviais e as usinas moageiras também precisam fazer a sua parte.
Mais cedo, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, afirmou que a petroleira brasileira quer evitar uma dependência excessiva das importações de gasolina, e a produção de etanol será fundamental para isso.
A retomada dos investimentos no campo, porém, está condicionada à rentabilidade positiva, afirmou a presidente da Unica, Elizabeth Farina.
"Se quisermos mais etanol em 2025 ou 2030 dentro da matriz energética, temos de encontrar formar de rentabilizá-lo rapidamente. O retorno da Cide foi uma sinalização positiva, embora bem aquém do que ela representou do preço de bomba da gasolina no passado. O aumento da mistura representou aumento de demanda importante, mas tudo isso depende de estabilidade e de confiança nas regras. Será que se houver um recrudescimento da inflação, o governo não vai baixar pra zero de novo a Cide ou não vai impedir que o Bendine [presidente da Petrobras] faça politica de preços que melhor se ajustar à Petrobras, abrindo espaço também para rentabilizar o etanol? Quem passou pela crise recente, precisa ter essas respostas para retomar o investimento", disse.
Uma das medidas estudadas pela Unica é o diferencial da alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) entre os estados, o que segundo Elizabeth, poderia estimular especialmente o consumo do hidratado.
"Esse é um caminho, mas é urgente. As usinas enfrentam situação muito diferentes em termos de produtividade, custo, capacidade de inovação e investimento na própria atividade, como renovação do canavial e plantio. Isso faz com que não tenha uma solução para todas. As que estão mais endividadas terão de algo a mais para equacionar suas contas", afirmou a presidente da Unica.
Luciano Costa e Marcelo Teixeira
com texto suplementar da Agência Estado e Globo Rural
edição adicional do novaCana.com