Por Luciane Chiodi Bachion* e Sofia Marques Arantes**
Aliar metas com o desenvolvimento sustentável para alcançar a neutralidade climática é um dos maiores desafios da atualidade.
O fortalecimento dos sistemas de produção e das estratégias com base em especificidades locais que promovam a transição energética é fundamental para colocar os países no ambicioso caminho de descarbonização, necessário para alcançar os compromissos estabelecidos no Acordo de Paris. O setor de energia é o principal emissor de gases do efeito estufa (GEE) em nível global, responsável por 73% do total emitido em 2020, sendo 22% do setor de transportes.
Nesse cenário, os biocombustíveis têm um papel central, sendo a principal solução para a redução de emissões de GEE em diversos países e setores da economia. O etanol tem um potencial significativo para atender a demanda energética no curto prazo, principalmente devido à sua produção em larga escala, tecnologia madura, infraestruturas física e institucional estabelecidas e viabilidade econômica.
Os Estados Unidos e o Brasil são os maiores produtores mundiais de etanol, sendo responsáveis por 80% da produção mundial em 2022. No entanto, suas produções diferem em muitos aspectos. Nos EUA, o etanol é feito a partir de milho em safra única; no Brasil, é produzido a partir de cana-de-açúcar e de milho, sendo este último majoritariamente de segunda safra.
O Brasil começou a produzir etanol de milho em maior escala em 2017 e o produto brasileiro vem ganhando espaço como uma importante solução para a transição energética devido à capacidade de reduzir em 80% as emissões de CO2 equivalente em comparação à gasolina, podendo alcançar emissões negativas a partir de práticas de manejo e tecnologias mais avançadas.
O etanol de milho produzido no Brasil se diferencia em vários aspectos do etanol produzido em sistemas tradicionais, como o norte-americano. Em nível nacional, o etanol de milho é produzido principalmente a partir de milho de segunda safra, plantado após a colheita de soja, na mesma área e ano agrícola.
Já nos EUA, o milho é produzido em sistema de safra única ao longo do ano-safra e, portanto, compete por área com outras finalidades de produção. Adicionalmente, o sistema produtivo brasileiro utiliza fontes de energia renováveis para cogeração, enquanto o etanol norte-americano utiliza fontes fósseis, como gás natural. Esses diferenciais garantem uma redução significativa da pegada de carbono do etanol de milho de segunda safra em comparação à gasolina.
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Apesar de terem características diferentes, tanto o etanol de cana como de milho são sustentáveis e necessários para a transição energética.
A produção brasileira de etanol de milho tem uma maior capacidade de expansão rápida dentro do pacote tecnológico atual, principalmente porque há muita matéria-prima disponível e altamente escalável e a construção das usinas leva cerca de dezoito meses no Brasil. Por outro lado, a indústria canavieira tende a sustentar novas fases de crescimento com inovações que reduzem custos operacionais.
A produção brasileira de etanol de milho deve aumentar ainda mais nos próximos anos, ocupando um papel importante para a transição energética e o cumprimento dos compromissos climáticos globais. Os vários desafios deste século exigem soluções múltiplas e diversificadas que abordem aspectos específicos dos sistemas de produção, das tecnologias, das geografias e das condições socioeconômicas e institucionais de cada país e região. A diversificação e a complementariedade entre diferentes fontes para a produção de biocombustíveis serão fundamentais.
* Luciane Chiodi Bachion é sócia e pesquisadora sênior da Agroicone; participou do desenvolvimento do Modelo de Uso da Terra para a Agropecuária Brasileira (Blum) e do desenvolvimento do “Outlook Brasil 2022: projeções para o agronegócio”, como responsável pela modelagem e análise do setor de grãos
** Sofia Marques Arantes é pesquisadora da Agroicone; tem experiência profissional em bioenergia, biocombustíveis, agricultura, sustentabilidade e mudanças climáticas
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