Por Luciane Chiodi Bachion* e Sofia Marques Arantes**
Dentro do contexto das mudanças climáticas e redução das emissões de gases do efeito estufa (GEE), os biocombustíveis desempenham um papel central na transição energética. Apesar dos diversos caminhos para alcançar a neutralidade climática, é extremamente importante adequar as estratégias à especificidade e potencial local.
Nesse cenário, as emissões de GEE e a pegada de carbono são métricas essenciais para avaliar o impacto ambiental da produção de biocombustíveis.
No caso do etanol de milho produzido no Brasil, os principais fatores que contribuem para suas baixas emissões de GEE e pegada de carbono incluem o uso de milho de segunda safra e de biomassa.
O milho utilizado como insumo para a produção de etanol é cultivado como segunda safra em terras que anteriormente cultivavam uma única safra de soja ou que plantavam uma segunda safra com a finalidade de cobertura do solo.
Com isso, não gera emissões diretas de GEE associadas à mudança de uso da terra (MUT), otimizando o ciclo produtivo e os recursos no processo de produção agrícola com a diminuição do uso de fertilizantes a partir da técnica de plantio direto.
Vale mencionar que a cultura do milho de segunda safra no Brasil ganhou representatividade no passado, principalmente em função dos benefícios agronômicos decorrentes da proteção física que a palhada pós-colheita tanto da soja como do milho confere ao solo, permitindo a proteção e manutenção dos nutrientes no solo no período pós-colheita, proporcionando uma melhor produtividade da safra principal, no caso a soja.
O plantio direto diminui significativamente a exposição do solo agrícola ao risco de erosão e contribui para a fixação de nutrientes no solo.
O etanol de milho de segunda safra utiliza como fonte de energia em seu processo a biomassa, principalmente cavaco de eucalipto, bambu, resíduos agroindustriais e agrícolas para a cogeração de energia. O sistema energético é otimizado de maneira que a eletricidade gerada pela termoelétrica é superior que a demanda dos processos de produção, exportando a eletricidade excedente para o grid.
Estas características apresentadas acima impactam a pegada de carbono do etanol de milho de segunda safra brasileiro, que está entre as mais baixas do setor, entre 18,3 e 25,9 gCO2e/MJ, comparável ao etanol de cana-de-açúcar e inferior à do etanol de milho produzido em sistemas tradicionais, como o norte-americano.
Outro fator que contribui consideravelmente para a pegada de carbono dos biocombustíveis é o impacto direto e indireto que a expansão do uso dos biocombustíveis causa sobre a MUT.
Estudo publicado na Nature Sustainability mostra que ao adicionar tais efeitos, a pegada de carbono do etanol de milho de segunda safra poderia ser reduzida para 9,8 gCO2e/MJ ou até mesmo 0,8 gCO2e/MJ, dependendo da taxa de substituição considerada para a composição soja e milho, destinados para nutrição animal, devido à utilização de Dried Distillers Grains (DDG), coproduto gerado no processo produtivo do etanol de milho, utilizado como ração animal.
Com a adição de tecnologias como Bioenergy with carbon capture and storage (BECCS) e a contabilização de MUT, a pegada de carbono do etanol de milho pode reduzir ainda mais, com potencial para alcançar cerca de -19,8 gCO2e/MJ.
No contexto da neutralidade climática é extremamente importante conciliar estratégias com potencial local, além da maior diversificação e complementariedade entre as diferentes fontes para a produção de biocombustíveis, que serão fundamentais para a transição energética, principalmente no longo prazo.
* Luciane Chiodi Bachion é sócia e pesquisadora sênior da Agroicone; participou do desenvolvimento do Modelo de Uso da Terra para a Agropecuária Brasileira (Blum) e do desenvolvimento do “Outlook Brasil 2022: projeções para o agronegócio”, como responsável pela modelagem e análise do setor de grãos
** Sofia Marques Arantes é pesquisadora da Agroicone; tem experiência profissional em bioenergia, biocombustíveis, agricultura, sustentabilidade e mudanças climáticas
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