Comparativo entre os dois maiores fabricantes de biocombustíveis do mundo mostra os pontos fortes e fracos do setor produtivo em cada um deles
No setor de transportes, o Brasil possui a matriz energética mais limpa do mundo graças ao uso de biocombustíveis. O país, contudo, não é o líder mundial de produção, ficando atrás dos Estados Unidos, que utiliza principalmente soja para a fabricação de biodiesel e milho como matéria-prima do etanol.
A comparação entre os mercados de etanol e biodiesel nos dois países traz à tona vantagens e desvantagens das regulamentações e taxações de cada local, além de apontar a capacidade competitiva da indústria e o funcionamento das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo estudo da Agência Internacional de Energia (IEA), somados, os dois países foram responsáveis por 84% da produção mundial de biocombustíveis em 2017, com 97,8 bilhões de litros. Essa dominância de mercado deve se manter até 2023, quando a agência projeta que a produção de ambos atinja 108,3 bilhões de litros.
“No entanto, como os custos de produção de biocombustíveis, gasolina e diesel variam de país para país, a consequente diferença no preço de equilíbrio do etanol e do biodiesel, assim como medidas políticas, afetam a competitividade dos biocombustíveis nos dois países”, pondera o documento.
Outro estudo que compara os dois países – elaborado por pesquisadores da Texas A&M University a pedido do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) – acrescenta que Estados Unidos e Brasil também compram e vendem etanol no mercado internacional e analisa o impacto da maior produção de etanol de milho no Brasil.
Saiba mais:
- Competitividade em risco nos mercados domésticos
- O impacto do preço do petróleo para etanol e biodiesel
- A influência de políticas públicas: RFS e RenovaBio
- Projeções com o crescimento do etanol de milho brasileiro
- Outros fatores que afetam a competitividade
No setor de transportes, o Brasil possui a matriz energética mais limpa do mundo graças ao uso de biocombustíveis. O país, contudo, não é o líder mundial de produção, ficando atrás dos Estados Unidos, que utiliza principalmente soja para a fabricação de biodiesel e milho como matéria-prima do etanol.
A comparação entre os mercados de etanol e biodiesel nos dois países traz à tona vantagens e desvantagens das regulamentações e taxações de cada local, além de apontar a capacidade competitiva da indústria e o funcionamento das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo estudo da Agência Internacional de Energia (IEA), somados, os dois países foram responsáveis por 84% da produção mundial de biocombustíveis em 2017, com 97,8 bilhões de litros. Essa dominância de mercado deve se manter até 2023, quando a agência projeta que a produção de ambos atinja 108,3 bilhões de litros.

“No entanto, como os custos de produção de biocombustíveis, gasolina e diesel variam de país para país, a consequente diferença no preço de equilíbrio do etanol e do biodiesel, assim como medidas políticas, afetam a competitividade dos biocombustíveis nos dois países”, pondera o documento.
Outro estudo que compara os dois países – elaborado por pesquisadores da Texas A&M University a pedido do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) – acrescenta que Estados Unidos e Brasil também compram e vendem etanol no mercado internacional.
De acordo com os estudiosos, em 2017, o país norte-americano comprou 938,8 milhões de litros de etanol brasileiro por US$ 583,9 milhões, ou US$ 0,62 por litro. Já o Brasil adquiriu 1,62 bilhão de litros por US$ 733,6 milhões (US$ 0,45 por litro). “As importações de etanol dos Estados Unidos permitem que as companhias obedeçam às metas para uso do biocombustível de outras fontes, que não o milho”, comentam.
O preço do produto nacional, no entanto, poderia ser menor. “Devido ao recente crescimento econômico lento do Brasil e a outros fatores, 76 usinas não estão operando, mas podem reabrir se as condições mudarem”, acreditam.
Competitividade em risco
Para analisar a competitividade da produção nos Estados Unidos e no Brasil, a IEA aponta que a maior parte da produção de ambos os países é destinada ao consumo doméstico. O relatório ainda considera que, embora existam mandatos de consumo nos dois casos, a competitividade dos biocombustíveis em relação a suas contrapartes fósseis é importante para assegurar o custo de conformidade dessas políticas. No Brasil também existe a particularidade do mercado de etanol hidratado, que foge ao mandato de mistura e se aproveita de uma grande frota de veículos flex fuel.
“Os custos de produção da gasolina e do diesel são menores nos Estados Unidos que no Brasil, o que é potencialmente explicado pela economia de escala proporcionada pelas refinarias maiores e mais sofisticadas, a utilização de gás natural de baixo custo e a otimização dos quadros da refinaria para produzir maiores volumes de combustíveis”, relata a IEA. Embora a agência considere que o Brasil importa tanto gasolina quanto diesel, a análise é focada nos custos de produção locais.

Conforme o relatório, em 2017, os custos de produção de etanol foram entre 6% e 7% maiores no Brasil, variando entre US$ 0,54 e US$ 0,62 por litro (gasolina equivalente) – diante do intervalo estadunidense de US$ 0,51 a US$ 0,58 por litro. Com o custo de distribuição similar nos dois países, o preço da gasolina se tornou essencial na comparação: e os custos mais altos das refinarias brasileiras tornaram o etanol mais competitivo no país.
Assim, apesar de ser um produto de fabricação mais cara, o etanol nacional recebe uma vantagem com o alto preço da gasolina no país. Uma queda no valor da gasolina, contudo, poderia afetar esse resultado.
O poder do preço do petróleo
Com os dados de 2017, a IEA concluiu que o preço do petróleo – com o barril de óleo cru tendo variado entre US$ 46 e US$ 64 – permitiu uma produção de etanol “geralmente competitiva” no Brasil, mas não nos Estados Unidos. O biodiesel, por sua vez, não foi competitivo em nenhum dos dois países, com o óleo de soja custando, em média, três vezes mais que o petróleo.
De acordo com o documento, o preço do barril de petróleo no primeiro semestre de 2017 foi de aproximadamente US$ 51, aumentando para US$ 57 na segunda metade do ano. Com isso, a competitividade dos biocombustíveis aumentou no Brasil e a diferença de preço entre o diesel e o biodiesel caiu em 30%.

“O efeito nos Estados Unidos, entretanto, foi mínimo porque, embora preços mais altos de petróleo aumentem o custo da gasolina e do diesel, os custos de produção dos biocombustíveis também são levemente impactados”, aponta a IEA, que detalha: “Isso pode ser explicado pelo aumento nos gastos com fertilizantes e energia”.
No Brasil, os custos do setor produtivo de etanol são menos afetados pela alta do petróleo porque o bagaço de cana-de-açúcar é utilizado para geração de eletricidade.
Influência de políticas públicas: RFS e RenovaBio
A IEA também observa que, nos Estados Unidos, o programa de Padrão de Combustível Renovável (RFS) dá apoio governamental ao consumo de biocombustíveis. No ano passado, por exemplo, os créditos de biodiesel movimentaram, em média, US$ 0,27 por litro, valor que era somado à isenção fiscal de US$ 0,26 por litro. Com isso, nas refinarias, o biodiesel ficou abaixo do custo do diesel.
Para o etanol, os créditos do RFS renderam, em média, US$ 0,18 por litro ao longo do ano – nesse caso, entretanto, não há isenções fiscais. Porém, considerando o preço do coproduto DDG (grãos secos por destilação, usados para alimentação animal) e os créditos, a lucratividade do etanol de milho foi calculada pela IEA entre US$ 0,05 e US$ 0,32 por litro. Na Califórnia, esse valor foi maior devido ao programa estadual que visa incentivar a redução de carbono nos combustíveis (LCFS).
No Brasil, o RenovaBio deve gerar créditos para as usinas produtoras. O programa, no entanto, deve entrar em prática apenas em 2020. “Espera-se que isso forneça um estímulo financeiro para a produção de etanol e biodiesel, bem como para o desenvolvimento de biocombustíveis avançados”, afirma a IEA.
Por hora, o maior impacto está na tributação diferenciada dos combustíveis nas bombas e na possibilidade de escolha dos consumidores. “Isso é muito relevante no Brasil, com a gasolina e o etanol competindo diretamente por participação de mercado: em março de 2018, impostos federais e estaduais representavam 46% do preço da gasolina”, relata, citando dados da Petrobras.
Segundo o texto, o etanol atualmente se beneficia de menores taxas a nível federal e em alguns estados. Além disso, em 2017, quando os impostos de ambos os combustíveis foram elevados, o maior aumento foi para a gasolina.
Esse fator, combinado com a alta no preço do petróleo, resultou em uma elevação de 25% no consumo de etanol hidratado durante o segundo semestre.
A chegada do etanol de milho brasileiro
Os pesquisadores da Texas A&M University também observaram que o etanol brasileiro enfrenta uma forte competição com o produto norte-americano na região Nordeste do país. “O etanol dos Estados Unidos corresponde a 98% das importações brasileiras de etanol, com a maior parte entrando nos estados nordestinos pelo Maranhão, que representa 78% das importações brasileiras do biocombustível”, relatam.
Mas dois fatores ameaçam essa relação. O primeiro é a cota anual de 600 milhões de litros de etanol importado, criada pelo governo brasileiro em agosto de 2017. Caso a marca seja ultrapassada, o biocombustível deixa de ser livre de taxas e passa a pagar 20% de impostos. “No entanto, um ano após a imposição da tarifa, as importações de etanol pelo Brasil permaneceram fortes”, complementa.
O segundo ponto é a competição com o etanol de milho nacional, com a construção de três usinas no Mato Grosso e o surgimento de outros 15 projetos pelo país. Com base nisso, os pesquisadores projetam que a produção nacional de etanol saia de 598 milhões de litros para 3 bilhões dentro de cinco anos.
“A maior parte desse aumento produtivo será no Centro-oeste, que é muito mais próximo ao Nordeste do que a produção de etanol de cana-de-açúcar”, relatam e continuam: “Assim, há potencial para que o etanol de milho brasileiro tome o lugar do etanol dos Estados Unidos no Nordeste do país”.
Outro impacto potencial do maior uso de milho como matéria-prima para a produção de etanol, segundo os pesquisadores, é o aumento da demanda. Eles acreditam que, se mais milho for utilizado para a produção do biocombustível, pode acontecer um déficit.
“Embora a Argentina e o Paraguai dominem o mercado brasileiro de importação de milho, a expansão da indústria brasileira de alimentação do gado, juntamente com o aumento do uso de milho para produzir etanol, pode criar uma oportunidade para exportadores de milho dos Estados Unidos embarcarem mais produtos para o Brasil”, complementam.
Fatores que afetam a competitividade
Ainda conforme o relatório da IEA, há múltiplos fatores que podem afetar os custos de produção, os preços e a lucratividade dos produtores de biocombustíveis.
Para a agência, um dos principais aspectos que afetam os custos é o preço das matérias-primas. Ele, por sua vez, é afetado pela área plantada, pela safra, pelas condições da colheita e diversas outras dinâmicas de mercado, todos aspectos que geram flutuações ao longo do ano. Enquanto os Estados Unidos dependem da soja e do milho para a fabricação de biocombustíveis, o Brasil usa, principalmente, cana-de-açúcar para o etanol e soja para o biodiesel.
Além disso, a agência aponta que a sofisticação industrial de uma usina e o preço dos combustíveis usados também impactam nos custos.
A precificação, por sua vez, é frequentemente ajustada de acordo com gasolina e o diesel, buscando maximizar a margem de lucro. Nesse caso, o estudo destaca o Brasil, onde o preço do etanol também varia seguindo o ciclo da cana-de-açúcar, com a expectativa de alta na entressafra, entre janeiro e março.
Outro ponto que impacta no resultado das empresas são os coprodutos. Para o milho e a soja, cita a IEA, a fabricação de ração animal é essencial para a lucratividade das indústrias. Já no caso da cana-de-açúcar, a cogeração de eletricidade utilizando o bagaço também foi considerada relevante. “A produção futura de etanol celulósico no Brasil aumentaria a demanda por bagaço como matéria-prima para a produção de biocombustíveis avançados, ampliando consequentemente seu valor”, complementa o relatório.
Renata Bossle – NovaCana