Etanol: Mercado

Etanol: Mercado

Etanol hidratado deve ficar menos competitivo com alta de mistura na gasolina

A mudança na mistura pode reduzir os preços da gasolina nas bombas e, com isso, beneficiar o consumidor, dizem analistas


Globo Rural - Publicado: 02 Ago 2023 - 09:21

O possível aumento da mistura de etanol na gasolina, de 27% para 30%, em discussão pelo governo federal, tem efeitos diversos para o setor, mas o principal deles seria a contribuição para a descarbonização.

Do ponto de vista de mercado, analistas ouvidos pela Globo Rural acreditam que a mudança na mistura pode reduzir os preços da gasolina nas bombas e, com isso, beneficiar o consumidor. Por outro lado, o etanol hidratado corre o risco de perder níveis de competitividade que já vêm em trajetória decrescente.

“Assim como está acontecendo na Índia, Estados Unidos e outros países com mandatos para ampliação nos percentuais de etanol, o intuito é gerar mais renováveis para a matriz energética, diminuir as emissões, esse é um fator muito positivo”, disse o diretor comercial da usina Jalles Machado, Henrique Penna.

O executivo lembrou também que o Brasil importa de 15% a 20% da gasolina que é consumida. Assim, a diminuição nesse percentual teria relevância para a balança comercial.

Penna admitiu, no entanto, que existe a possibilidade de perda de competitividade do hidratado nas bombas. Isso levaria a alterações na estratégia da indústria.

“A possibilidade existe, mas isso vai depender de como a oferta vai se desdobrar daqui para frente. Se vier muita produção de etanol, isso vai afetar o hidratado e beneficiar o consumidor. Porém, no longo prazo, isso também pode fazer com que as usinas optem por enxugar a produção e irem mais para o açúcar, para ajustar a oferta de etanol”, afirma.

O CEO da Atvos, Bruno Serapião, também destacou a questão ambiental como ponto forte do aumento na mistura na gasolina.

“O maior percentual de mistura traz uma série de benefícios para o Brasil: estimula o desenvolvimento sustentável no campo, por meio da geração de empregos e, não menos importante, contribui para a transição energética do país, incrementando o uso de combustíveis renováveis, que reduzem as emissões de CO2 em até 90% em relação à gasolina, quando analisado o ciclo de vida completo do etanol”, afirmou.

Nos cálculos de Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, a medida deve gerar um crescimento anual de 1,3 bilhão de litros no consumo anual de etanol anidro, variedade que é misturada à gasolina.

Sobre a diminuição das importações de gasolina, ele acredita que isso, inclusive, deveria ser um elemento importante para a decisão do governo sobre ampliar a mistura de etanol.

Mas, para Nastari, uma queda efetiva nos preços da gasolina, decorrente da mistura só viria na hipótese de a Petrobras voltar a praticar uma política alinhada à paridade de importação, ou seja, seguindo o movimento das cotações internacionais.

“Se o preço da gasolina fosse ‘real’, misturar mais anidro contribuiria para uma redução. Mas como os valores estão sendo subsidiados em um patamar abaixo da paridade, a mistura não reduziria tanto o valor da gasolina”, afirmou o especialista.

Considerando um cenário para a oferta e demanda até a safra de 2029/30 e a eventual aprovação da medida com início na temporada de 2024/25, a consultoria StoneX projetou uma demanda para a gasolina comum com avanço de 1% ao ano e a produção de anidro com aumento de 1,5% ao ano.

De acordo com Filipi Cardoso, especialista de inteligência de mercado da StoneX, haveria uma redução de 4,3% na cobrança dos impostos federais e a participação do anidro cresceria de 13% para 14,5%.

“Assim, o preço médio da gasolina comercializada nos postos de revenda – considerado a média de R$ 5,63 por litro – passaria para R$ 5,60 por litro, registrando uma queda de R$ 0,03 por litro”, estimou o analista da StoneX.

Nayara Figueiredo