O aumento do teor de etanol anidro na gasolina de 25% para 27,5% está enfrentado dificuldades para avançar principalmente por preocupações ambientais e com a saúde da população. Informações apuradas pelo portal novaCana com uma fonte envolvida nas discussões revela que pelo menos três órgãos governamentais, dois deles federais e um estadual estão se posicionando contra a nova mistura.
Segundo o relato, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) fazem oposição à proposta do setor sucroalcooleiro.
O problema é que, apesar do aumento do percentual de etanol reduzir algumas emissões, ele aumenta outras, especialmente o óxido de nitrogênio (NOx) e os aldeídos (CHO). Os testes realizados indicaram também que o problema é complexo e não há um comportamento padrão, existindo muita variação de veículo para veículo.
Apesar destas dúvidas em relação ao aumento das emissões e da resistência das três instituições, o governo federal ainda não decidiu qual peso dará às posições contrárias. De acordo com o presidente do Sindaçúcar de Pernambuco, Renato Cunha, a mesa tripartite fará uma reunião terça-feira (24) e deve ser definido um novo encontro na Casa Civil para tratar da questão, possivelmente nesta quinta ou sexta-feira.
Na última quinta-feira (20) o resultado dos testes foi apresentado a representantes do governo, setor produtivo e da Anfavea, mas não houve uma definição.
Durante a Conferência da Datagro, realizada em outubro, o técnico do Inmetro, Fábio Real, afirmou que a decisão sobre o aumento da mistura seria “mais política do que técnica”. A declaração causou mal-estar à Unica. Na ocasião, a presidente Elizabeth Farina se manifestou contrária a afirmação e disse que os resultados oficiais deveriam ser aguardados antes que se fizesse qualquer “suposição” acerca do tema.
O presidente do Sindaçúcar de Pernambuco, Renato Cunha, que representou o Fórum Nacional Sucroenergético na última reunião, disse desconhecer a oposição dos órgãos ambientais. “A Cetesb é de São Paulo e a mistura é para o país inteiro”, rebateu. Cunha afirmou ainda que os testes comprovaram a “redução de CO, CO2 e de hidrocarbonetos, o que é bom para o meio ambiente”, sem mencionar as demais emissões.
O aumento da mistura para 27,5% já foi sancionado por lei, no fim de setembro, mas a adoção do novo teor de anidro depende da viabilidade técnica.
Na tarde desta terça-feira (25), em resposta enviada por e-mail, o Ministério afirmou ser favorável ao aumento da mistura. “Esse aumento terá um impacto positivo na redução de emissões de gases de efeito estufa pela substituição de parte de um combustível fóssil (gasolina) por outro renovável (etanol)”, afirma a mensagem assinada pelo diretor do Departamento de Mudanças Climáticas, Adriano Santiago.
Santiago considera que, combinado a nova mistura de biodiesel de 5% para 7% na composição do diesel comercial, a mistura de 27,5% de anidro na gasolina auxiliará o país na expansão do uso de biocombustíveis, uma ação acordada na Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) após a Conferência de Copenhague.
O diretor também destacou o que o balanço final das emissões de gases de efeito “é altamente positivo” para o etanol. A resposta oficial do MMA não faz qualquer menção ao aumento das emissões de aldeídos e óxidos de nitrogênio.
O Ibama como é subordinado ao MMA informou que não se manifesta diretamente sobre o tema. A Cetesb foi procurada para se posicionar sobre o aumento da mistura, mas não respondeu.
No início do debate sobre o assunto, o presidente da Anfavea, Luiz Moan, afirmou que a elevação da mistura traria prejuízos aos motores movidos à gasolina e também ao meio ambiente. Segundo ele, os técnicos da entidade teriam constatado o “aumento de emissões de poluentes dos aldeídos em 20% e do NOx [óxidos de nitrogênio] em 75%” com o novo teor de anidro.
Os aldeídos (CHO) e o óxidos de nitrogênio (NOx), em grande concentração na atmosfera, podem causar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, contribuindo inclusive para casos de bronquite e enfizema pulmonar. O NOx também é responsável pelo smog, a névoa de poluição que dificulta a visibilidade e contribue para o efeito estufa.
Na época, a Unica rebateu o estudo realizado pela associação das montadoras e chamou a posição de “equivocada” e “precoce”, questionando também as bases de análise da Anfavea. Em comunicado, a Unica disse que “eventuais aumentos nas emissões de aldeídos e óxidos de nitrogênio são muito inferiores aos citados”.
De acordo com a entidade canavieira as emissões ficariam abaixo de 20% para os óxidos de nitrogênio e em torno de 15% para aldeídos. A influência do maior volume de anidro nas emissões está relacionada à presença de mais oxigênio na gasolina o que eleva a temperatura de combustão.
O setor sucroenergético argumenta ainda que ocorrem redução da emissão de outros poluentes, como monóxido de carbono, hidrocarbonetos e outros compostos orgânicos.
No passado, durante o aprimoramento da “Nota Verde” pelo MMA, o setor produtivo também criticou bastante o peso dado pelo Ministério às emissões de CO2. Como com o etanol as emissões são nulas, já que o CO2 foi absorvido no desenvolvimento da cana, as usinas consideram que deve ser dado mais importância a este aspecto da mitigação do aquecimento global.
Atualização
Às 16h36min, de 25/11/2014, o texto foi alterado para refletir a resposta do MMA enviada por e-mail na tarde após a publicação do texto.
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