Produção efetiva estimada de etanol de segunda geração por usina demonstra que as companhias ainda enfrentam um caminho pedregoso que as impede de acelerar
As usinas de etanol de segunda geração (E2G) em larga escala registraram poucos avanços no último ano e ainda lutam para tentar levar a taxa de utilização das unidades para níveis acima de 10%. O NovaCana ouviu que a principal dificuldade é a mesma desde o princípio: problemas de engenharia na alimentação do reator de pré-tratamento.
O portal conversou com uma das empresas de consultoria que mais pesquisa o assunto, e que, no ano passado, apresentou um amplo estudo sobre os custos de produção das principais usinas de etanol celulósico do mundo.
Com a carência de novidades no último ano, não se prevê nenhuma aceleração significativa em 2017. Em 2018, contudo, o cenário pode começar a apresentar mudanças, mas não necessariamente positivas. A declaração seguinte do analista da empresa deixa evidente o momento de encruzilhada que a tecnologia se encontra.
A conversa a seguir revela uma visão sobre o desenvolvimento da tecnologia em face às dificuldades atuais.
Leia mais:
- Comentários sobre as usinas atualmente em operação: Raízen, GranBio, Poet-DSM, Dupont, Beta Renewables, Quad County e Edeniq
- Os riscos do negócio para Raízen e GranBio são diferentes
- Estimativa de produção de etanol celulósico em 2015 e 2016 por usina
- Perspectivas para o etanol de segunda geração no curto-prazo
- As dificuldades da Beta Renewables na Itália, uma das unidades mais antigas
- Já começa a surgir a ideia de abordagens completamente novas
As usinas de etanol de segunda geração (E2G) em larga escala registraram poucos avanços no último ano e ainda lutam para tentar levar a taxa de utilização das unidades para níveis acima de 10%. O NovaCana ouviu do analista da Lux Research, Yuan-Sheng Yu, que a principal dificuldade é a mesma desde o princípio: problemas de engenharia na alimentação do reator de pré-tratamento.
Yuan-Sheng Yu é o autor de um amplo estudo sobre os custos de produção das principais usinas de etanol celulósico do mundo, publicado no ano passado, que ganhou grande repercussão com uma reportagem exclusiva do NovaCana.
“O pré-tratamento em si – em termos de extração de celulose e hemicelulose da biomassa – não é o problema”, explica o analista. “O desafio continua a ser o de produzir uma pasta de matéria-prima que é capaz de alimentar o processo inicial de forma contínua, sem obstrução ou danos devido a contaminantes no fornecimento de matéria-prima”, completa.
Segundo Yu, o problema afeta todas as unidades de E2G pelo mundo. “A Poet-DSM chegou até mesmo a entrar com um processo judicial contra a Andritz, a empresa de engenharia que desenvolveu a Project Liberty”, exemplifica.
Perspectivas para o curto prazo
Com a carência de novidades no último ano, o analista da Lux Research afirma que não prevê nenhuma aceleração significativa em 2017. Em 2018, contudo, o cenário pode começar a apresentar mudanças, mas não positivas:
“Se o progresso continuar estagnado, poderemos ver paralisações completas para revisões de equipamentos, pois as principais companhias tentarão adotar novas tecnologias e abordagens de engenharia”
Ainda assim, caso a questão da alimentação da matéria-prima seja resolvida, Yu projeta que o etanol celulósico avance rapidamente. De acordo com ele, as indústrias estão propriamente equacionadas e a fermentação industrial funciona em status comercial, fazendo com que não exista a previsão de nenhuma dificuldade adicional. “O desinteresse dos investidores dificilmente irá impactar as usinas pioneiras. Esses projetos têm investimento pesado de corporações que parecem estar integralmente comprometidas com os projetos”, observa.
Entretanto, esse quadro também resultou no que o analista classifica como um “declínio significativo” no número de novos projetos de etanol. “Isso pode mudar, mas apenas quando nós vermos a primeira história de sucesso”, completa.
Ainda segundo o analista, não é possível dizer qual das atuais unidades de produção de E2G em larga escala conseguirá ultrapassar suas dificuldades mais rapidamente, de modo que ainda não há um vencedor despontando na corrida pelo etanol celulósico.
“O etanol celulósico continua os seus esforços para crescer e para produzir volumes significativos. A nossa expectativa é que as plantas consigam superar suas dificuldades dentro de três a cinco anos”, afirma.
Resultados de 2016 no Brasil
Dentro desse contexto, GranBio e Raízen são, atualmente, as únicas as companhias brasileiras com usinas de etanol celulósico em operação que possuem expectativa de chegar à larga escala. Para Yu, de maneira geral, GranBio e Raízen possuem diversas vantagens em relação às suas concorrentes estrangeiras, especialmente devido ao espaço que o etanol já possui no mercado brasileiro. “De um ponto de vista mercadológico, o governo deu um forte apoio à produção de etanol por meio de mandatos e políticas – isso irá continuar a trazer desenvolvimento”, garante.
Além disso, como o custo da matéria-prima é um aspecto crítico nos custos de produção, o bagaço e a palha da cana-de-açúcar devem permanecer atrativos enquanto seu custo for baixo. No contexto internacional, Yu aponta que essa é a opção mais vantajosa para o E2G – outras matérias-primas que têm perspectiva econômica favorável são as biomassas celulósicas com elementos agregados, como os resíduos de madeira.
Em relação aos resultados de 2016, no caso da Bioflex, da GranBio, o analista da Lux Research relembra que a usina ficou fechada por boa parte do ano. Dessa forma, a estimativa é que a planta tenha produzido entre 189 e 400 mil litros de E2G – uma queda entre 70% e 85% em relação à produção de 2015.
Já a Unidade Costa Pinto, da Raízen, opera apenas durante quatro ou cinco meses por ano, aproveitando o período de entressafra. Nesse caso, os dados da Lux Research apontam para uma produção entre 1,9 e 2,3 milhões de litros no ano passado, um volume pequeno, mas superior aos 1 milhão de litros fabricados em 2015.

“Por causa da estratégia da Raízen, há um menor risco de capital. A possibilidade de utilizar a infraestrutura já existente do etanol de primeira geração será uma grande vantagem em relação a construir uma unidade nova, tendo que reunir toda a cadeia necessária, como as outras empresas precisam fazer”, relata, dando um parecer positivo para a expectativa da companhia de abrir uma nova unidade ou expandir a atual.
Resultados de 2016 pelo mundo
Em outros países, o segundo ano completo de operação das primeiras usinas de E2G trouxe uma produção maior, mas que, em média, corresponde a apenas 7% da capacidade instalada das usinas. Desconsiderando a planta da Abengoa – que encerrou suas atividades no final de 2015 –, a atual capacidade das fabricantes somaria 218,61 milhões de litros anuais.
A partir de dados divulgados pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e outras fontes do mercado, Yuan-Sheng Yu estimou a produção efetiva de cada uma das usinas no ano passado. Assim como em sua estimativa referente a 2015, o analista lembra que há muita incerteza sobre a atual situação das principais plantas de etanol de segunda geração.
Por enquanto, a Poet-DSM provavelmente é a maior produtora de E2G do mundo, com um montante entre 4,7 e 5,7 milhões de litros – um aumento entre 66% e 100% em relação a produção estimada de 2015. Ainda assim, a companhia está longe de atingir a produção plena, conforme meta estabelecida para o final do ano passado.
Na sequência está a Quad County, que é considerada uma usina de média escala devido a sua capacidade diária de produção de 378,5 mil litros diários. Em 2016, a unidade produziu entre 4,2 e 4,5 milhões de litros de etanol celulósico, um avanço anual que varia de 46% a 60%. Outra usina que não é tida como de larga escala é a Edeniq, que produziu entre 0,6 e 0,8 milhões de litros em 2016.
Por sua vez, com uma produção entre 3 e 3,8 milhões de litros, a Beta Renewables é uma das mais antigas usinas de E2G em operação. Inaugurada oficialmente em 2013, a unidade chegou a ser paralisada em 2014 para ajustes operacionais e, segundo Yu, há rumores de dificuldades na obtenção de matéria-prima e no pré-tratamento da biomassa, de modo que a curva de avanço não tem apresentado os resultados desejados.
Já a Dupont, que iniciou suas atividades em dezembro de 2015, teve um primeiro ano relativamente positivo, com uma produção de 3 a 3,4 milhões de litros de etanol celulósico. “Embora ela também tenha problemas para ganhar escala, seu foco na aquisição de palha de milho, inclusive com um programa de colheita próprio, aliviou potencialmente alguns dos problemas de qualidade de matéria-prima encontrados por seus concorrentes”, avalia Yu.

A palha de milho é usada pelas unidades com sede nos Estados Unidos, como a Poet-DSM, a Quad County, a Edeniq e, anteriormente, a Abengoa. A Beta-Renewables, na Itália, dá preferência pela palha de trigo, enquanto as usinas brasileiras usam o bagaço (Raízen) ou a palha (GranBio) da cana-de-açúcar.
E2G nos EUA em 2017
Em março de 2017, a indústria de etanol celulósico viu a maior geração de números de identificação de renováveis (RINs, na sigla em inglês) desde a criação do Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS), o programa do governo dos Estados Unidos para incentivo do uso de biocombustíveis e comércio de créditos de carbono. A notícia trouxe um ânimo renovado para os interessados no desenvolvimento do etanol de segunda geração (E2G), contudo, há quem recomende cautela na interpretação desses números.
Segundo o analista da Lux Research, Yuan-Sheng Yu, apesar do número mensal elevado, o total do primeiro trimestre de 2017 é apenas o terceiro maior resultado até o momento. “Com a geração de RINs podendo acontecer até três meses depois da produção, nós acreditamos que o grande número de março pode ter sido resultante de um volume acumulado das produções de janeiro e fevereiro”, pondera.
Renata Bossle – NovaCana