Tanto para a mistura de etanol diretamente à gasolina quanto para a fabricação de ETBE, o Japão representa um mercado onde só é permitida a entrada do combustível renovável do Brasil
As importações de etanol de cana-de-açúcar do Japão seguem crescendo e devem terminar 2016 em nível recorde. Para o ano que vem, a perspectiva é que o volume seja ainda maior. Mas, depois de 2017 os incentivos que estimulam o uso do biocombustível ainda não foram definidos pelo governo japonês e permanecem uma incógnita.
Com uma política de energias renováveis que foca principalmente na geração de energia solar, eólica e por térmicas movidas a biomassa, o Japão também se destaca em suas regulações na área de biocombustíveis.
Em função das suas particularidades, o país desenvolveu uma forte sensibilidade a questões de sustentabilidade. Com um padrão rigoroso, o país asiático desenvolveu seu próprios critérios, permitindo apenas a entrada de biocombustíveis que emitem menos de 50% da gasolina.
Estudos do governo japonês, considerando toda cadeia produtiva – do campo à chegada para o consumidor final –, encontrou no etanol de cana-de-açúcar a solução.
Assim, tanto para a mistura de etanol diretamente à gasolina quanto para a fabricação de ETBE – éter etil-terc-butílico, a opção mais usada no país –, o Japão representa um mercado onde só é permitida a entrada do combustível renovável do Brasil.
Apesar do Brasil exportar volumes cada vez maiores para o Japão, os EUA intermediam as negociações.
Na reportagem completa:
- Histórico de importação de etanol pelo Japão
- Projeção de importação para 2016 e 2017
- Mercado de ETBE e intermediação dos Estados Unidos
- Metas futuras do Japão
Com uma política de energias renováveis que foca principalmente na geração de energia solar, eólica e por térmicas movidas a biomassa, o Japão também se destaca em suas regulações na área de biocombustíveis.
Entre os estudos do governo japonês, conforme relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), havia a procura por um etanol capaz de emitir 50% de CO2 a menos que a gasolina. Considerando toda cadeia produtiva – do campo à chegada para o consumidor final –, a resposta foi uma só: etanol brasileiro de cana-de-açúcar.
Em função das suas particularidades, o país desenvolveu uma forte sensibilidade a questões de sustentabilidade. Com um padrão rigoroso, o país asiático desenvolveu seu próprios critérios, permitindo apenas a entrada de biocombustíveis que emitem menos de 50% da gasolina.
Estudos do governo japonês, considerando toda cadeia produtiva – do campo à chegada para o consumidor final –, encontrou no etanol de cana-de-açúcar a solução.
Assim, tanto para a mistura de etanol diretamente à gasolina quanto para a fabricação de ETBE – éter etil-terc-butílico, a opção mais usada no país –, o Japão representa um mercado onde só é permitida a entrada do combustível renovável do Brasil.
Metas foram estabelecidas até 2017
Em 2010, o Japão estabeleceu sua principal meta no setor de biocombustíveis, estabelecendo como meta para 2017, o uso do equivalente a 500 milhões de litros de óleo cru (cerca de 822 milhões de litros de etanol). A principal opção da indústria local para atingir esse objetivo envolve a introdução de 1,94 bilhão de litros de éter etil-terc-butílico (ETBE). O composto é usado como um aditivo para a gasolina, sendo sintetizado a partir da mistura de etanol e isobutileno.
Desse modo, o país começou a ampliar consideravelmente suas importações de etanol e ETBE, que foram de 66 milhões de litros de etanol equivalente em 2009 para 336 milhões de litros em 2010. Entretanto, foi a partir de 2014 – com o início de uma política de isenções fiscais – que o biocombustível começou a apresentar um crescimento anual estável, indicando que o país estava realmente caminhando para alcançar suas metas. Naquele ano, as importações alcançaram 517 milhões de litros.

No ano passado, o Japão adquiriu 606 milhões de litros de etanol e ETBE (em etanol equivalente) e a estimativa do USDA é que esse volume chegue a 746 milhões este ano e a 822 milhões em 2017.
Futuro do mercado em discussão
No entanto, essa taxa de crescimento pode mudar – para mais ou para menos. O governo do país deve iniciar as discussões para futuras metas no uso de biocombustíveis ainda em 2016. Por enquanto, a única definição é que o Japão está comprometido a ter fontes renováveis ocupando de 22% a 24% de sua matriz energética até 2030.
De acordo com fontes consultadas pelo USDA, isso indica que o etanol celulósico deve ser considerado com parte do fornecimento energético do Japão no futuro. Afinal, existe uma forte preocupação nacional de que as fontes de energia não prejudiquem a produção de alimentos.
Panorama do mercado japonês de combustíveis
Considerando as regras atuais, a forma mais comum de mistura no Japão é com 1% a 8% de ETBE. De acordo com o USDA, o consumo registrado em 2015 resultou em uma mistura média de 1,13% de etanol equivalente à gasolina. O índice deve subir para 1,41% em 2016 e 1,61% em 2017.

O E3 (gasolina com 3% de etanol) também está presente nesse mercado, ainda que em escala menor. Contudo, em abril desse ano, as vendas de E3 foram suspensas na província de Okinawa porque a Petrobras suspendeu as atividades de sua refinaria, que fornecia a gasolina para a mistura. Ainda não foi decidido que empresa assumirá as atividades.
Além disso, desde 2012, o governo permitiu a venda de veículos capazes de operar com E10 e ETBE22, mas as mudanças tiveram um efeito limitado devido ao fraco fornecimento desse tipo de combustível e a frota ainda é considerada pequena. Segundo levantamento do USDA, as indústrias de petróleo do Japão não possuem planos de oferecer ETBE22.
Dessa forma, o USDA considera que a mistura direta de etanol à gasolina e o uso de biodiesel praticamente não têm relevância dentro do mercado japonês.
EUA é principal intermediário na relação Brasil-Japão
Assim, considerando apenas o ETBE, o volume real adquirido foi de 1,27 bilhão de litros em 2015, com perspectiva de 1,60 bilhão em 2016 e 1,78 bilhão em 2017. Todo esse montante, entretanto, não está vindo diretamente do Brasil. Companhias norte-americanas, especialmente do Texas, compram o etanol brasileiro, fazem a sintetização e, posteriormente, revendem o combustível para o Japão.
Em 2015, os Estados Unidos foram responsáveis por 100% dos envios de ETBE à nação asiática.
Inclusive, o etanol brasileiro para transformação em ETBE representa a maior parte das importações desse biocombustível feitas pelos Estados Unidos. O país, ao atuar como intermediário, ainda se aproveita de outras características desse mercado, como os contratos de longo prazo com as distribuidoras japonesas.
Outra vantagem do ETBE está presente nas isenções fiscais que começaram a ser praticadas em 2014. Na regulamentação atualmente em vigor – e válida até 31 de março de 2018 –, o imposto da gasolina é em torno de ¥ 53,80 por litro (R$ 1,76), mas ele cai para ¥ 1,60 por litro (R$ 0,05) quando há uma mistura de 3% de etanol. Já no caso do ETBE, o governo do Japão removeu as tarifas de importação, que antes eram de 3,1%.
Por sua vez, as compras de etanol feitas pelo Japão diretamente do Brasil são majoritariamente, segundo o USDA, para a sintetização doméstica de ETBE. A Associação de Petróleo do Japão pretende preencher o restante da meta governamental – equivalente a 160 milhões de litros de ETBE – com essa produção.
Inclusive, a perspectiva do USDA é que a importação de etanol especificamente para a transformação em ETBE atinja 65 milhões de litros tanto em 2016 quanto em 2017. Esse volume representa 95,6% do total de importações esperadas, o que evidencia a baixa parcela direcionada para a mistura direta de etanol à gasolina.
Renata Bossle – NovaCana