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Etanol, cana, açúcar e bioeletricidade: como o setor evoluirá se o Brasil conseguir cumprir as metas da COP21

cana-de-acucar-011216Desafio imposto pelas metas climáticas é maior do que as projeções já realizadas pelo setor de etanol e deve destravar investimentos em uma escala enorme

NovaCana 10 min de leitura

Para atingir as metas estipuladas na Conferência do Clima de Paris (COP 21) e já assinadas pelo Presidente Michel Temer, a projeção oficial do governo brasileiro para a produção de etanol em 2030 é de 54 bilhões de litros. O número corresponde a um aumento de mais de 90% em relação aos 28,2 bilhões de litros registrados na safra passada.

Contudo, não existe um planejamento estratégico formal sobre como a produção será estimulada. O RenovaBio 2030 — programa do novo governo para estimular os biocombustíveis— está em fase inicial e nos próximos meses deve definir as bases para o desenvolvimento do setor sucroenergético para os próximos 14 anos.

Como o RenovaBio estimulará os investimentos no setor é o desafio que o governo está atacando. Porém, mais fácil é desvendar o que precisará acontecer com os canaviais e a industria sucroenergética nos próximos anos para o Brasil cumprir as metas da COP21.

A consultoria Agroícone se debruçou sobre o assunto e apresentou como o mercado de açúcar, etanol e bioeletricidade vai se alterar se o Brasil tiver êxito em sua promessa.

Saiba mais:
- Investimentos agrícolas e industriais necessários para o cumprimento das metas
- Estimativas de moagem e de produção de etanol, E2G e bioeletricidade – considerando o mercado e as NDCs
- Possibilidades trazidas pelo novo mercado de carbono

Para atingir as metas estipuladas na Conferência do Clima de Paris (COP 21) e já assinadas pelo Presidente Michel Temer, a projeção oficial do governo brasileiro para a produção de etanol em 2030 é de 54 bilhões de litros. O número corresponde a um aumento de mais de 90% em relação aos 28,2 bilhões de litros registrados na safra passada.

Até o momento, existe apenas uma estimativa para 2030, divulgada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, sobre como a evolução da produção deve ocorrer.

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Contudo, não existe um planejamento estratégico formal sobre como a produção será estimulada.

O RenovaBio 2030 — programa do novo governo para estimular os biocombustíveis— está em fase inicial e nos próximos meses deve definir as bases para o desenvolvimento do setor sucroenergético para os próximos 14 anos.

Como o RenovaBio estimulará os investimentos no setor é o desafio que o governo está atacando. Porém, mais fácil é desvendar o que precisará acontecer com os canaviais e a industria sucroenergética nos próximos anos para o Brasil cumprir as metas da COP21.

Essa discussão teve início em uma audiência pública realizada no Senado Federal, que teve como pauta principal a contribuição dos biocombustíveis no cumprimento das metas brasileiras estabelecidas na COP 21.

“O Brasil não é mais um adolescente que tem que compromissos voluntários. Agora, temos uma obrigação, uma meta absoluta de reduções de emissões”, Rodrigo Lima (Agroícone)

Durante o encontro, o diretor geral da Agroícone, Rodrigo Lima, insistiu que o país deve sair da fase de estudos de possibilidades e partir para a implementação efetiva de programas. “Agora começam negociações intensas para ‘rechear’ o Acordo de Paris”, afirma.

E, para ter poder de negociação, o Brasil precisa mostrar que pretende cumprir suas promessas. Segundo Lima, a principal vantagem do país está justamente no setor de biocombustíveis: “Não precisamos reinventar a roda. Não estamos atrás de tecnologias mirabolantes que estão em pesquisa e que só serão acessadas em 20, 30 anos. Estamos usando o que temos disponível, conhecemos muito bem e podemos mostrar para o mundo”.

Aposta em etanol

De acordo com Lima, as regras para o cumprimento das metas – também chamadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) ou iNDCs, quando na fase de apresentação de intensões – devem ser claras. Para ele, a opção nacional pelos biocombustíveis parece uma saída fácil devido à infraestrutura nacional para a produção, mas ela dependeria de políticas públicas e de sinalizações concretas do governo, capazes de fomentar investimentos.

“Não podemos pensar biocombustíveis para cinco anos. Temos que estabelecer as políticas necessárias para daqui cinco, dez, quinze, vinte anos”, Rodrigo Lima (Agroícone)

A sugestão do diretor da Agroícone é que isso aconteça em 2017 e 2018, estruturando a Política Nacional de Mudanças do Clima e políticas de incentivo estruturante a longo prazo. “Precisamos ter uma política robusta. A redução do desmatamento não dá conta do que precisamos fazer [para reduzir as emissões]. Precisa ser um plano estruturado”, garante.

Dessa forma, ele acredita que o setor privado acompanhará os estímulos governamentais.

R$ 161 bilhões em investimentos

Considerando a necessidade de injeção de capital na parte industrial, agrícola e de renovação dos canaviais, Lima calculou quanto dinheiro o setor sucroenergético precisará para o período entre 2020 e 2030. Para isso, ele utilizou dados do PDE 2024, do BNDES, do Instituto Pecege, do IEG/FNP, do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e da própria Agroícone.

“Renovação de canavial é uma coisa tida como dada, automática, natural. Só que para ter o planejamento e os recursos necessários para fazer isso e atingir os 54 bilhões de litros, estamos estimando recursos na casa de 20 bilhões de reais. E isso é dinheiro”, afirma.

Considerando outros aspectos, como expansão do canavial, investimentos industriais e maquinário agrícola, Lima chegou a um total de R$ 161 bilhões. O valor, entretanto, desconsidera possíveis retrofits industriais onde o perfil de produção seja mantido.

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Novo mercado de carbono

Esses investimentos, entretanto, podem contar também com um mercado adicional, criado com a precificação do carbono. Lima afirma que o Brasil deve ficar atento para a entrada do país no novo mercado de carbono, que ele considera como um mecanismo de desenvolvimento sustentável. Ainda que o projeto receba suas críticas, ele acredita que deve ganhar força nos próximos dois anos, o que também forçaria o Brasil a ter sua política climática bem definida até 2019.

“Parece que está longe, mas não está. A capacidade de mensurar, reportar e verificar o cumprimento das contribuições [climáticas] é muito importante. Por isso existem todas essas negociações em um plano internacional”, disse Lima.

“Inserir o custo do carbono no sistema de preço dos combustíveis é um diferencial tributário no curto-prazo. É uma medida rápida e fácil que poderá ser substituída por uma política climática mais abrangente a partir de 2019”, Rodrigo Lima (Agroícone)

De acordo com Lima, as contribuições brasileiras podem chegar a 756 milhões de toneladas de CO2, apenas com etanol – mas apenas se o país conseguir cumprir a meta de 54 bilhões. “Se a gente considerar um custo de carbono de 10 dólares por tonelada, já estamos falando de muito recurso”, considera. Ou seja, existe um potencial de um mercado de até US$ 7,56 bilhões.

Ele também argumenta ser “impensável” o cumprimento das metas propostas pelo governo brasileiro se não for discutido o custo social do carbono. “As emissões de combustíveis fósseis precisam ser colocadas em perspectiva diante de um compromisso de reduções de emissões, de saúde pública e, no final das contas, de desenvolvimento sustentável para o país”, completa.

Necessidade de incentivo à moagem

Lima também explica que a Agroícone, acompanhada de empresas parceiras, realizou simulações a respeito do cenário de setor sucroenergético para 2030, considerando especialmente os investimentos a serem realizados entre 2020 e o final do período. “Para chegarmos nas NDCs, o Brasil precisa consumir 54 bilhões de litros de etanol em 2030. Isso não é trivial”, assegura.

“O que tem hoje [em políticas públicas] não dá conta de atingir a meta que o governo propôs. Então, não dá para esperar só pelo setor privado”, Rodrigo Lima (Agroícone)

A pesquisa reuniu dados de diversas entidades, incluindo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE-FAO), das Nações Unidas, e a própria EPE, que elaborou as iNDCs.

Para a moagem de cana-de-açúcar, as metas estabelecem um aumento de 65%, saindo das 667 milhões de toneladas vistas em 2015/16 para 1,1 bilhão em 2030. O número do governo supera a previsão mais otimista da Unica e, segundo Lima, implica em um aumento de área de 8,6 para 11,6 milhões de hectares de cana-de-açúcar. “Ninguém está falando em conversão de vegetação nativa para cana”, assegura, consciente do impacto ambiental e apostando em um ganho de espaço sobre outras culturas.

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Ainda assim, ele ressalta a importância de incentivos para o aumento na moagem. Considerando dois cenários – um pessimista e outro de previsibilidade –, o diretor implica que as medidas governamentais para atingir as NDCs precisariam estimular um adicional de, pelo menos, 215 milhões de toneladas sobre o crescimento natural do mercado.

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54 bilhões de litros de etanol em 2030

Com relação à produção de etanol, as previsões para 2030 variam entre 27 e 62 bilhões de litros. O número mais otimista – que, inclusive, supera a expectativa da EPE – é referente a previsão da Implicações Econômicas e Sociais Brasil (IES Brasil), implantada pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Outra estimativa otimista é a da Unica, que propõe um cenário com 56 bilhões de litros de etanol.

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Para a Agroícone, no entanto, o Brasil deve produzir entre 27 e 41 bilhões de litros de etanol em 2030 – caso não existam estímulos adicionais para atingir as metas. De acordo com Rodrigo Lima, mesmo se o país atingir apenas as perspectivas mais pessimistas, haverá uma redução nas emissões. Contudo, as metas da COP 21 trazem um panorama que exigiria um esforço adicional, pois ultrapassam o cenário de previsibilidade do mercado.

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Etanol celulósico está distante – e muito – das metas

Com relação ao etanol de segunda geração, a Agroícone também discorda dos cenários otimistas apresentados pela Unica (5 bilhões de litros) e pelo BNDES (10 bilhões de litros). Para Lima, o cenário de 2,5 bilhões de litros trazido pelas NDCs – e que compõe a meta geral de 54 bilhões de litros – é “plausível”. “Mas existem questões de desenvolvimento tecnológico, de rotas e de custos que precisam ser endereçadas”, considera.

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Além disso, a meta envolve a produção de 2,1 bilhões de litros a mais que o estimado no cenário de previsibilidade. Mesmo que esse volume pareça pequeno dentro do cenário total, ele indica, pelo menos, uma maturação da tecnologia de E2G.

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Bioeletricidade também entra em pauta

Embora o foco da reunião no Senado estivesse nos biocombustíveis, Lima também levantou a importância da bioeletricidade dentro das NDCs. “Existe toda a questão da biomassa para outros usos, mas a eletricidade precisa ser considerada e é importante que esteja na pauta”, afirma.

De acordo com ele, a bioeletricidade representa um grande ativo para as usinas. Mesmo assim, faz uma ressalva para o governo: “Para fazer energia com a palha de cana é preciso ter rede de distribuição, senão, vamos ter sempre casos interessantes, mas não do tamanho que precisamos”.

Isso fica ainda mais claro quando se considera que mesmo o cenário otimista da Unica para 2030 (54 TWh) é inferior à projeção de potencial realizada pela EPE dentro do Plano Decenal de Energia (PDE) 2024, quando se apontava uma geração potencial de até 102 TWh.

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Assim, para seus cenários, a Agroícone considerou os números da Unica e uma participação de 89% para a biomassa de cana-de-açúcar dentro das metas da COP-21. Com isso, o Brasil precisaria chegar a uma cogeração de 68 TWh em 2030 – um aumento de 240% em comparação com os 20 TWh registrados em 2015.

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Para acessar a apresentação completa, conforme apresentada pela Agroícone, clique aqui.

Renata Bossle – NovaCana

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