O investimento para transformar usinas de cana-de-açúcar em usinas flex é viável, de acordo com um estudo apresentado nesta terça, dia 23, pela consultoria INTL FCStone, em São Paulo. As usinas flex produzem etanol de cana e também de milho, ao mesmo tempo. Hoje, o Brasil tem somente duas usinas flex no Estado de Mato Grosso.
A safra de cana-de-açúcar dura, em média, seis meses. No restante do ano, as usinas ficam ociosas. Numa unidade flex, a produção de etanol de milho permite a operação o ano todo. Os baixos preços do cereal, em razão do aumento de produção no Brasil e no mercado externo é outro fator positivo, porque reduz os custos das industriais. Estes são alguns argumentos a favor das usinas flex, que foram apresentados pelo estudo.
A primeira usina flex do mundo fica em Campos de Júlio (MT), o gerente industrial Vital Nogueira conta que 80% dos equipamentos da fábrica são para produção de etanol de cana-de-açúcar, mas podem ser utilizados para produção de etanol de milho, na entressafra da primeira opção.
Nogueira explica que a operação começou há três anos e é um caso de sucesso. O investimento para adaptar a usina valeu a pena.
– Hoje, inicialmente uma planta de até 400 mil litros/dia custaria entre R$ 30 e R$ 40 milhões – calcula.
O estudo verificou a viabilidade do etanol de milho nos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Mas é o Estado de Mato Grosso que apresenta as melhores condições para o etanol do cereal.
– Tem o preço do milho baixo, em função da segunda safra de milho e por causa do preço do etanol também, que lá é bem alto – diz a analista de macroeconomia da INTL FCStone Ligia Heise.
Além das usinas flex, também é considerado viável o investimento em plantas exclusivas de etanol de milho, principalmente próximo a regiões produtoras do cereal. Há dois projetos de plantas desse tipo em andamento na região Centro-Oeste. Em até dois anos, as indústrias devem começar a produzir. O etanol tem os custos reduzidos com a venda de um subproduto do milho, o DDG, que é utilizado como ração.
Implantar uma fábrica de etanol usando apenas o milho é viável só no Estado de Mato Grosso, considerando uma taxa mínima de retorno de 15%, conforme estudo feito pela consultoria americana FCStone obtido com exclusividade pelo Valor. Isso porque o crescimento exponencial da produção do grão nos últimos anos, combinado a uma logística deficitária de escoamento, fez com que o milho mato-grossense tivesse os preços mais baixos do país. A distância das refinarias e dos portos torna Mato Grosso, por outro lado, o Estado com um dos preços de combustíveis mais elevados do Brasil.
Fora de Mato Grosso, só há viabilidade em usar milho para fabricar etanol em consórcio com a cana-de-açúcar - na entressafra da gramínea (de dezembro a março) ou durante todo o ano, segundo a FCStone.
Se o projeto for para uso do grão na entressafra canavieira, só há viabilidade em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso. Em outros Estados, além de processar cana na safra, as usinas teriam que ser adaptadas para processar milho durante o ano todo para trazer uma taxa de retorno anual de, pelo menos, 15%.
– A tendência é que ele seja negociado a um valor um pouco abaixo das atuais fontes de proteína, principalmente o farelo de soja. Então, é um negócio que interessa bastante para o mercado de alimentação animal – salienta Thadeu Silva, diretor de Inteligência da consultoria.
Os cálculos da FCStone para São Paulo, feitos para o município de Cândido Mota, na região de Assis, indicam uma taxa de retorno de 28%. "Há cerca de 20 usinas de cana nessa região", lembra a especialista. É também um importante polo de produção de milho de São Paulo. Citando números do IBGE, a consultora explica que a microrregião de Assis, à qual pertence Cândido Mota, produz em torno de 14% da produção do grão no Estado de São Paulo.
"Em São Paulo, também há oferta de milho nas regiões canavieiras de Ourinhos e São Joaquim da Barra". É importante destacar, segundo ela, que mesmo em regiões com baixa disponibilidade de milho, o uso do grão pode ser viável para a usina. "Em função da menor oferta de milho em São Paulo e das perspectivas para a evolução da safra do grão no Centro-Oeste, acredito que a tendência para as usinas flex paulistas seja mesmo a de trazer o grão de outros Estados", afirma.
Veja também:
Com integração de cana e milho, usinas de etanol podem ter salto de produção
Grupo americano planeja usina de etanol no MS exclusivamente com milho
Com informações do Canal Rural e Valor Econômico