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[Atualizada] Estudo que surpreendeu setor de etanol com eficiência de 80% deixa dúvidas

flex-carro-180314Desafiando uma série de conceitos do setor, estudo afirma que, na vida real, o etanol possui uma eficiência em relação à gasolina muito maior que 70%, mas metodologia abre espaço para inconsistências
NovaCana 8 min de leitura
O setor sucroalcooleiro se surpreendeu quando um estudo, divulgado no mês passado, com mais 400 mil carros indicou que o etanol tem uma eficiência média de 80% em relação a gasolina. O resultado contrariou a diferença entre o poder calorífico entre os dois combustíveis, o comportamento do consumidor brasileiro e também o renomado trabalho do Inmetro com os veículos brasileiros.

Entretanto, a novidade que poderia ser altamente benéfica ao setor sucroalcooleiro foi recebida com alguma desconfiança. O portal NovaCana conversou com os autores do estudo, com o Inmetro, analisou o parecer da KPMG e do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular e apresenta a evolução do assunto.

O setor sucroalcooleiro se supreendeu quando um estudo, divulgado no mês passado, com mais 400 mil carros indicou que o etanol tem uma eficiência média de 80% em relação a gasolina. O resultado contrariou a diferença entre o poder calorífico entre os dois combustíveis e o renomado trabalho do Inmetro com os veículos brasileiros.

O estudo realizado com os dados da Ecofrotas utilizou uma amostragem respeitável. São dados de 410 mil veículos flex, monitorados entre agosto de 2009 e março de 2012. A frota foi abastecida 22 milhões de vezes em veículos dirigidos por pessoas diferentes em mais de 15 mil postos. No período avaliado, os veículos percorreram 2.786.229.199 km usando etanol e outros 4.898.745.384 km utilizando gasolina. A metodologia consiste na avaliação do banco de dados baseado nas estatísticas de abastecimento.

Entretanto, a notícia que poderia ser altamente benéfica à indústria sucroenergética foi recebida com desconfiança por alguns agentes, segundo informou uma proeminente fonte do setor.  As principais questões recaem sobre a metodologia e a confiabilidade dos dados.

Uma dúvida fundamental é como a Ecofrotas pode determinar que o tanque dos veículos flex, que admitem qualquer proporção de mistura entre etanol e gasolina, estivesse abastecido com um volume 100% de um único combustível. Com mais de um motorista dirigindo e abastecendo o mesmo veículo, seria possível que um abastecesse com o gasolina e outro só fosse abastecer quando o combustível estivesse acabando e completasse com etanol? Ou o oposto. Qualquer mistura entre os dois combustíveis inevitavelmente comprometeria o resultado da pesquisa. Especialmente com a mistura apresentando variações entre os abastecimentos.

Em resposta, a empresa afirmou que, nos procedimentos que estabelece, "há uma série de controles que deve ser considerada na hora de abastecer os carros, para garantir a segurança dessas operações. Em razão desse cuidado, há total segurança nos números obtidos pelo seu banco de dados e que são usados no levantamento". A gestora de frotas disse ainda que seus clientes "sabem exatamente quando vale a pena usar etanol ou gasolina" e que "há dados de eficiência para cada carro".  Entretanto, a Ecofrotas não explicou como pode assegurar que os tanques dos veículos estivessem usando somente etanol ou somente gasolina.

Já a consultoria KPMG, que auditou o estudo, admite a possibilidade de falhas. O relatório de avaliação da KPMG é apresentado em um trabalho de cerca de 50 páginas disponibilizado pela Ecofrotas ao portal NovaCana. Ao final do texto, que conclui pela relação de 80/20 para o etanol na amostra avaliada, a KPMG faz cinco observações, sendo uma delas sobre possíveis inconsistências no banco de dados. "Muitas das etapas da coleta de dados são efetuadas manualmente, por exemplo, a introdução do tipo de combustível e volume abastecido na rede credenciada e o cadastramento dos veículos (ano, modelo, tipo) no sistema. Isso abre espaço para inconsistências e falhas humanas, o que pode afetar significativamente os resultados obtidos".

Diferenças entre Inmetro e Ecofrotas

O ponto de equilíbrio entre os rendimentos de etanol e gasolina aceito pelo mercado se baseia no poder calorífico dos dois combustíveis. Como o biocombustível tem 30% menos poder calorífico que a gasolina, a eficiência é de 70% em relação ao combustível fóssil. O padrão é o mesmo admitido por fabricantes de automóveis quando tratam do desempenho de seus veículos flex. Essa média é respaldada pelos resultados das medições anuais do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), cujos testes são realizados pelo Inmetro desde 2007. Na última edição, a maioria dos veículos 2014 avaliados apesenta uma eficiência dois pontos abaixo do patamar de 70%.

Apesar da diferença de dez pontos, a gestora de frotas afirma que a eficiência verificada em seu estudo não contesta o padrão de 70%. "É importante, em primeiro lugar, esclarecer que o levantamento da Ecofrotas não se contrapõe a estudos como o do Inmetro e das montadoras, que indicam rendimento de 70/30, os quais são feitos em ambientes controlados, com um único motorista e com combustível padrão. Nesses trabalhos não há variáveis próprias do dia a dia do motorista comum. São testes feitos de forma diferente e cada um tem sua relevância", afirmou a Ecofrotas em resposta ao NovaCana.

O Inmetro deixa claro que a metodologia adotada "é a mesma de países que possuem programas similares, pois somente os testes em laboratório permitem que os veículos sejam avaliados de forma padronizada, em condições controladas, garantindo que as medições possam ser repetidas e utilizadas em uma comparação uniforme entre modelos de veículos diferentes, dentro de uma mesma categoria".

Para que os dados do Inmetro sejam utilizados como referência, o instituto também se preocupou em garantir que os resultados reflitam situações reais. "Para aproximar os valores de referência verificados em laboratório daqueles percebidos pelos motoristas em seu uso real, mantendo a comparação relativa entre os veículos, o Inmetro adotou um fator de ajuste". Com a adequação, "testes indicam que 80% dos motoristas obtêm resultados semelhantes, em condições reais de utilização dos veículos".  Estes ajustes do Inmetro seguem o exemplo da evolução deste tema nos EUA, capitaneado pela Agência de Proteção Ambiental norte-americana.

Mas, mesmo assim, o Inmetro faz a ressalva que "em situações reais de uso do veículo, diversos fatores – qualidade do combustível, estado de conservação e calibragem dos pneus, uso de acessórios como ar-condicionado, maneira de dirigir, conservação das ruas e estradas etc. – influenciam o consumo, podendo apresentar consideráveis variações em relação àqueles obtidos nas medições laboratoriais nas condições padrão. Até mesmo quando diversos motoristas dirigem um mesmo veículo, eles obtêm consumos diferentes".

Resultados limitados

Esta realidade constatada pelo Inmetro é ainda mais relevante para os dados da Ecofrotas. O parecer da KPMG observou que para uma mudança no padrão de eficiência entre os combustíveis é necessário considerar, além de possíveis inconsistências no banco de dados, que as conclusões do estudo são "embasadas em uma série histórica, validade para a base de dados analisada, de difícil projeção e/ou garantia de validade futura".

No texto de resposta aos questionamentos, a Ecofrotas também indica que o ponto de equilíbrio para cada veículo seja definido individualmente. "Apesar da média geral dos números estar mais próxima do 80/20, no mundo ideal, o consumidor deve avaliar o quanto seu carro roda com um litro de cada um dos combustíveis e verificar a eficiência de seu veículo".

A Ecofrotas foi questionada sobre quais os modelos mais e menos eficientes e também o índice de eficiência que estes alcançaram com etanol, mas não respondeu. A empresa informou apenas  que o estudo dividiu os veículos em quatro categorias diferentes: Operacional Pickup (Saveiro e Fiat Estrada, por exemplo), Operacional Leve (como Celta e Classic), Operacional Médio (Ágile e Fox, por exemplo) e Executivo (Astra e Siena, por exemplo). E no caso dos Operacionais Leves, o resultado foi mais fora da curva: o etanol alcançou 82% da eficiência da gasolina.

Réplica [Atualização]

Sobre a precisão a respeito do combustível abastecido, após a publicação da matéria, a Ecofrotas respondeu:

"O estudo buscou refletir a vida real. Um motorista comum, no dia a dia, não 'zera' o tanque para abastecer com outro tipo de combustível. Essa realidade é a refletida no levantamento da Ecofrotas".

A respeito de possíveis inconsistências apontadas pela KPMG, a gestora de frotas escreveu:

"O envolvimento humano é verificado em praticamente todo tipo de pesquisa. Por exemplo, o IBGE conta com pesquisadores que pegam informações com a população para elaborar seus estudos. O que se é feito é a criação de mecanismos de controle para evitar fraudes ou falhas. O cartão da Ecofrotas possui uma série de parâmetros que obrigam que seu uso seja feito conforme o estabelecido no sistema e há ainda conferência digital dos dados.

Vale ressaltar que, para a pesquisa 80/20, a KPMG eliminou cerca de 5% dos dados que estavam fora do padrão para evitar possíveis inconsistências".

Atualização 18.03 - 16h03

Amanda SchArr – NovaCana

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