Quase todos os produtos gerados a partir da cana apresentaram margens negativas na safra 2013/14
O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) da Esalq/USP, apresentou nesta semana, em Piracicaba (SP), os custos de produção da cana-de-açúcar, açúcar, etanol e bioeletricidade para a safra 2013/14.
A análise, que já se consolidou como referência no setor, foi ampliada e trouxe algumas novidades: além de mudanças no cálculo de custos e da introdução de novos indicadores, a pesquisa passou a analisar também os custos de produção e as margens obtidas pelas usinas com a bioeletricidade.
A seguir, o portal NovaCana apresenta os resultados encontrados pelo Pecege, que contou com a participação de 89 usinas, responsáveis pela moagem de 213 milhões de toneladas de cana - quase um terço da produção brasileira. A pesquisa foi financiada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) da Esalq/USP, apresentou nesta semana, em Piracicaba (SP), os custos de produção da cana-de-açúcar, açúcar, etanol e bioeletricidade para a safra 2013/14.
A análise, que já se consolidou como referência no setor, foi ampliada e trouxe algumas novidades: além de mudanças no cálculo de custos e da introdução de novos indicadores, a pesquisa passou a analisar também os custos de produção e as margens obtidas pelas usinas com a bioeletricidade.
A pesquisa financiada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) contou com a participação de 89 usinas, responsáveis pela moagem de 213 milhões de toneladas de cana - quase um terço da produção brasileira.
Máxima continua verdadeira
Com exceção do açúcar branco comercializado no nordeste, quase todos os produtos gerados a partir da cana apresentaram margens negativas na safra 2013/14.
Com custos totais que excedem o preço destas commodities, as regiões tradicionais (São Paulo e Paraná) e de expansão (Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso) amargaram margens econômicas negativas que variam entre 0,2% a 11,5%, como é o caso, por exemplo, do etanol hidratado vendido pelas áreas tradicionais do Centro-Sul.
Os resultados, apresentados na última segunda-feira, 29, confirmam a máxima de que produzir etanol e plantar cana no Brasil continua dando prejuízo.
“Foi uma safra ruim, e a expectativa é que 2014/15 continue apresentando resultados negativos”, analisa o gestor de projetos do programa de educação continuada, Carlos Xavier.
No caso do açúcar branco, o preço para as regiões tradicionais e de expansão foi de R$ 930,60 e R$ 879,51, enquanto o custo total para fabricar o adoçante chegou a R$ 932,75 e R$ 913,51, respectivamente.
O anidro apresentou um prejuízo menor que o hidratado nas três regiões analisadas. Mesmo assim, nas regiões de expansão as perdas com o anidro chegam a 3,2%. No nordeste, a defasagem entre o custo total de produção do produto e o preço é de 11%.
Já o hidratado, produto que teve a pior atratividade da série de pesquisas do Pecege, apresentou margens negativas de 11,5% nas áreas tradicionais, 10,4% nas de expansão e 17,6% no nordeste.
O único produto que apresentou uma margem positiva foi o açúcar branco no nordeste, cujo preço foi 5,1% maior que o seu custo total.
O relatório indica ainda que a menor parcela das usinas - 16% das unidades produtoras - está produzindo o renovável com um custo competitivo, abaixo de R$ 1200/m3. Nas contas do Pecege, 29% das sucroalcooleiras têm custos de R$ 1,500/m3 para fabricar o combustível, despesa que é considerada “muito alta”, e 27% têm custos “altos”, com gastos que variam de R$ 1350 a 1500/m3.
Custos de produção permanecem estáveis
Com exceção da região nordeste, que registrou uma diminuição de 6,3% no custo total para a produção de cana-de-açúcar, as regiões tradicionais e de expansão do Centro-Sul mantiveram custos praticamente estáveis em relação à safra passada, com aumentos marginais. Nas áreas de expansão houve um crescimento de 0,5%, enquanto que nas regiões tradicionais este percentual foi de 0,6%.
Os custos agroindustriais também subiram levemente, influenciados por um aumento nos custos da matéria-prima, que nesta safra chegaram a R$ 77,50/t.
O custo total de produção agroindustrial, que leva em conta investimentos em matéria-prima, operações industriais e gastos com a área administrativa, foi de R$ 112,22/t.
A tabela abaixo mostra o peso de cada item na distribuição dos custos agroindustriais do setor.
Distribuição dos custos agroindustriais de cada região por fatores na safra 2013/14
| Fator de custo | Tradicional | Expansão | Nordeste |
|---|---|---|---|
| Cana | 23,2% | 14,8% | 22,9% |
| Maquinário, manuteção e serviços de reparo | 28,4% | 36,9% | 20,7% |
| Custo de remuneração de capital | 14,2% | 16% | 13,8% |
| Mão de obra | 12,4% | 10% | 21,2% |
| Insumos agroindustriais | 10,8% | 12,6% | 12,6% |
| Terra | 8,1% | 6,3% | 5,3% |
| Outros | 2,9% | 3,4% | 3,5% |
Fonte: Pecege
Outro dado que chama a atenção no relatório são os custos totais de produção de cana-de-açúcar de uma usina típica nestas três regiões. Segundo a pesquisa, estas despesas foram maiores que o preço potencial a ser pago pela cana própria, caso ela fosse remunerada pela quantidade e pelo preço de ATR. “Para as usinas, a aquisição de cana permaneceu como opção mais atraente do que a sua produção”, avalia o documento.
Produtividade, ATR e capacidade instalada
Confirmando a tendência de evolução da produtividade agrícola já observada na safra anterior, as três regiões produtoras apresentaram ganhos neste indicador.
Nas regiões tradicionais houve um aumento de 7% na produtividade agrícola, enquanto nas de expansão e no nordeste estes percentuais chegaram a 10 e a 20%, respectivamente.
Como resultado deste crescimento na produtividade agrícola, o indicador que mede a quantidade de etanol produzida por hectare de canavial colhido na safra também cresceu em relação à última safra.
Segundo o relatório, a usina com maior produtividade agroindustrial produziu 8,8 m3 de etanol hidratado para cada hectare de cana colhido, enquanto a “menos produtiva” fabricou 3,3 m3/ha. As duas usinas estão localizadas nas áreas de expansão.
De acordo com a pesquisa, em média, a quantidade de etanol produzida por hectare colhido subiu 4,3% nas regiões tradicionais, 8,7% nas de expansão e 13,5% no nordeste.
Já o preço do ATR caiu de R$ 0,49/kg para R$ 0,46/kg, enquanto o nível de utilização da capacidade instalada atingiu 92% nas regiões tradicionais, 85,6% nas de expansão e 86,8% no nordeste.
Bioeletricidade
As sucroalcooleiras que obtiveram receitas adicionais com a venda de energia elétrica ao sistema nacional foram as que conseguiram, de fato, suavizar a deteriorização das atratividades de produção de açúcar e etanol.
Para este indicador, que é novidade na série histórica do Pecege, a pesquisa identificou três grupos de usinas, as que produzem entre zero e 40 kWh/t; entre 40 e 80 kWh/t, e acima de 80 kWh/t. Elas também foram identificadas por tecnologia: antiga, retrofit e moderna.
Caracterização tecnológica da amostra de usinas exportadoras de energia elétrica na safra 2013/14
| Classe de tecnologia | Produtividade elétrica (kWh/t) | Número de usinas (% amostra) | Moagem (% amostra) | Eletricidade vendida (% amostra) |
|---|---|---|---|---|
| Antiga | 0 a 40 | 42% | 28% | 2% |
| Retrofit | 40 a 80 | 32% | 42% | 41% |
| Moderna | 80 ou mais | 26% | 30% | 57% |
Fonte: Pecege
Os custos de produção e preços do megawatt/hora indicam que o nordeste apresenta o menor custo de produção, embora tenha uma tecnologia mais antiga. Já o Centro-Sul expansão é a área mais atrativa em termos de geração de margem em valores absolutos e relativos.
Ainda segundo o relatório, as usinas modelos das regiões Centro-Sul expansão, Centro-Sul tradicional e nordeste apresentaram produtividades elétricas de 73,5 kWh/t, 62,9 kWh/t e 37,3 kWh/t, respectivamente, o que coloca as regiões tradicional e de expansão na faixa de produção característica das usinas com tecnologia retrofit.
O estudo também ressalta a evolução da venda de eletricidade desde a safra 2008/09.
Custos acima da inflação
Nas últimas sete safras, a evolução dos custos de produção do setor sucroalcooleiro apresentaram uma tendência de variação anual acima de 9% em praticamente todas as regiões.
Nas regiões tradicionais, por exemplo, a evolução dos custos com cana própria chegou a quase 13%.
Segundo destaca o relatório, estes valores estão acima de índices de inflação como o Índice de Preço por Atacado (IPA), que foi de aproximadamente 6% por ano no mesmo período.
Projeções para a safra 2014/15
Para a próxima safra o Pecege projeta uma queda de produtividade entre 5 e 6%.
“Em 2014/15, os dois principais indicadores (ATR e produtividade agrícola) mostram que os custos vão subir. Em 2013/14 houve um ganho de 7% de produtividade, mas em 2014/15 vai se perder quase tudo que se subiu neste ano”, analisa Xavier.
Dados preliminares apontam ainda que os custos das usinas serão mais altos que os dos fornecedores, e que o preço que as usinas pagam pela cana também será maior.
Leonardo Siqueira – NovaCana