Desde o último levantamento das projeções de safra realizado pelo NovaCana, o novo cenário agrícola construído pelas instituições especializadas mostrou uma tendência mais clara para a safra
Desde o último levantamento das projeções de safra realizado pelo NovaCana, o novo cenário agrícola construído pelas instituições especializadas mostrou uma tendência mais clara para a safra. Os números das 18 empresas que fazem parte da sondagem realizada pelo portal mostram uma convergência maior dos valores. A empresas agora concordam mais sobre o desenvolvimento da safra, que deve correr sem grandes surpresas.
O que muda de fato é o mercado de preços. O contrato #11 na ICE/NY já vinha registrando forte queda e, com a desvalorização do câmbio brasileiro, o impacto pode ser ainda maior. Contudo, no geral, espera-se ligeiras alterações no mix de produção das usinas, com o etanol tendo um crescimento marginal, limitado pelo fato de boa parte da matéria-prima já estar comprometida com os contratos de açúcar.
Além disso, o olhar dos especialistas ainda permanece atento às intempéries climáticas e aos reflexos de um inverno chuvoso na safra.
Convergência das estimativas: quem estava pessimista, revisou para cima, e, quem estava mais otimista, revisou para baixo. Os novos números de moagem se posicionaram ao centro
Confira a seguir as estimativas das consultorias desde o último levantamento: três consultorias ajustaram suas apostas e quatro novas instituições tiveram suas previsões incluídas na listagem. Ao todo, o NovaCana apresenta novos gráficos e tabelas comparativas com 18 diferentes consultorias e instituições e quase uma dezena de previsões para a safra.
O NovaCana também ouviu alguns especialistas que comentaram as previsões atuais.
Desde o último levantamento das projeções de safra realizado pelo NovaCana, o novo cenário agrícola construído pelas instituições especializadas mostrou uma tendência mais clara para a safra. Os números das 18 empresas que fazem parte da sondagem realizado pelo portal mostram uma convergência maior dos valores. A empresas agora concordam mais sobre o desenvolvimento da safra, que deve correr sem grandes surpresas.
Em relação a safra passada, o “moderado pessimismo” com a moagem de cana-de-açúcar em 2017/18 permanece praticamente unânime.
Das empresas que fazem parte do levantamento, a maioria – 11 ao total – prevê uma moagem entre 580 a 590 milhões de toneladas de cana. Mesmo o Banco Pine, que estima até o momento 575 milhões de toneladas, já sugere que os novos indicadores vindo do campo devem elevar as projeções em 10 milhões de toneladas, o que também colocaria a instituição nesse patamar médio.
Até agora, os números do banco traduzem um dos cenários mais pessimistas para a safra de cana-de-açúcar na safra 2017/18. Ao NovaCana, no entanto, o economista da instituição Lucas Brunetti, afirmou que, em junho, após ser realizada uma série de visitas aos produtores para análise da produção in loco, o banco deve rever as projeções. “Já recebemos notícias que o campo tem apresentado algumas surpresas positivas em relação aos parâmetros de produtividade. Temos observado isso no Estado de São Paulo, mas com certeza podemos generalizar isso para outras regiões do Centro-Sul do Brasil”, afirma.
O economista reforça a questão do uso de fertilizantes na manutenção das soqueiras, que esse ano foi muito forte. “As vendas de fertilizantes para o setor de açúcar e álcool está se refletindo, assim como clima, em uma cana que parece estar melhor do que a gente previa”, explica.
Outro ponto levantado por Brunetti está relacionado a área de renovação dos canaviais. Com uma posição um pouco diferente da maioria das instituições, o economista acredita que o grande incremento na renovação de cana de 18 meses, que deveria tirar uma área importante para essa safra, não se concretizará da forma imaginada inicialmente.
“A idade é uma coisa ruim para essa safra porque ela diminui o potencial. O clima pode até ajudar a termos uma boa produtividade, mas já partimos de um potencial menor devido a esse envelhecimento”, aponta e completa: “Na verdade, estamos vendo uma renovação voltando para a média, pois antes estava bem abaixo do recomendado. Podemos considerar que a área colhida será ‘normal’”.
Além da safra: câmbio e mercado
O que muda de fato é o mercado de preços. O contrato #11 na ICE/NY já vinha registrando forte queda e, com a desvalorização do câmbio brasileiro, o impacto pode ser ainda maior. Isso acontece porque, com um real mais fraco, o etanol brasileiro poderia se tornar mais vantajoso para os produtores, já que a receita com a exportação de açúcar diminuiria em conjunto com a moeda. O etanol, então, passa a ser um caminho mais atrativo para aquelas usinas que não têm suas produções já totalmente comprometidas com os contratos de açúcar.
Esse é o alerta levantado pela FCStone, especialmente em caso de intensificação da crise política no Brasil. O analista de mercado da instituição, João Paulo Botelho, reforça que, se o preço do açúcar continuar a cair e não acontecer uma queda no preço da gasolina, algumas usinas podem acabar produzindo menos açúcar do que poderiam, motivadas pelos preços momentaneamente bons do etanol. Esse cenário afetaria especialmente as unidades mais distantes dos portos, como já é observado em Goiás.
Já Brunetti, do Pine, frisa que a valorização relativa do etanol não é suficiente para reverter o quadro em que as usinas irão maximizar a produção de açúcar e estrear os investimentos recentes feitos na expansão das fábricas. “Mas, agora, as usinas não se esforçarão ao máximo para aproveitar cada gota de sacarose para produzir açúcar”, comenta.
O economista ainda assinala que o ritmo de moagem no ano passado foi um pouco fora do normal por causa dos preços atrativos. “Os resultados inflados dos primeiros meses de 2016/17, devido àquele aceleramento de safra, também devem ser colocados em perspectiva”, assinalada.
Ele explica que o setor estava tentando fazer mais açúcar, indo ao limite da fábrica. “Esse ano retomamos à ‘normalidade’. Deve ser mais tranquilo porque nós já tivemos maior investimento no potencial de produção de açúcar”, explica. Para ele, volta a prevalecer “o ritmo do campo” e a indústria se adequará a ele, diferente do que aconteceu no ano passado: “As usinas chegaram a reduzir voluntariamente a própria moagem de cana para dar tempo para entrar mais produtos nas máquinas de cristalização”.
Além disso, mesmo com a melhora de preços do açúcar e do etanol na última safra, muitas unidades ainda têm uma situação de elevado endividamento e de falta de caixa. Nesse caso, a produção de etanol é favorável para a geração de caixa da usina, já que o pagamento é na entrega do produto, contra o pagamento com prazo para a entrega do açúcar.
No entanto, o economista argumenta que, apesar dos pontos favoráveis para o aumento da produção de etanol, eles não modificam o jogo e a safra 2017/18 será açucareira. “Nossos pontos apenas ilustram que há motivos para o aumento marginal da produção já que há pouca margem para o crescimento com grande parte da produção comprometida”, argumenta.
Atualizações
Após dois meses de safra, não há muitas variáveis significativas nos fundamentos das projeções. A redução da produtividade agrícola de cana-de-açúcar devido ao envelhecimento dos canaviais após vários anos com renovação abaixo do ideal e estagnação da área plantada ainda são os principais elementos que devem levar moagem no Centro-Sul a patamares menores do que na última safra.
Daqui para frente, só o clima poderia afetar diretamente o resultado da temporada.
Aliás, a condição climática continua sendo essencial para os resultados do ciclo 2017/18: caso o inverno seja mais chuvoso do que o normal, o que tem maior probabilidade de ocorrência em anos com formação de El Niño, é possível que a concentração de açúcares seja prejudicada. Os momentos de parada por conta da chuva também poderiam fazer que ‘sobre’ um volume maior de cana para a próxima safra.
“Por enquanto está bem, o clima está ajudando, mas tem o maior risco associado a uma cana mais velha. O fator idade não mudou. A cana mais velha torna os resultados da safra bem sensíveis as alterações climáticas. Continuamos com os maiores riscos, associados a esse elemento”, destaca Brunetti. A idade avançada dos canaviais limita a possibilidade de a produtividade crescer.
Por estar relacionado ao clima, esses fatores permanecem incertos. Mesmo assim, uma consultoria já reduziu suas perspectivas para a safra 2017/18 e outras duas ajustaram as previsões anteriores. Além disso, as estimativas de quatro novas instituições passaram a fazer parte do levantamento do NovaCana.
A Agroconsult, que tinha a maior perspectiva para a moagem, reduziu em 10 milhões de toneladas suas expectativas de cana moída. Dessa forma, a previsão é que as usinas da região esmaguem 610 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na próxima temporada.

Apesar da redução na projeção, a consultoria ainda mantém a visão de que, na temporada, as usinas moerão um pouco mais de cana do que em 2016/17. No entanto, agora, a empresa trabalha com um crescimento de apenas 0,5% ante a última projeção. A antiga expectativa para a safra 2017/18, de 620 milhões de toneladas de cana moída, representava um crescimento de 2,5% ante o ciclo 2016/17, quando foram processadas 607,14 milhões de toneladas de cana.
Com a revisão, a estimativa mais otimista para a safra do Centro-Sul entre as 18 empresas especializadas passa a ser da Datagro, com 612 milhões de toneladas de cana moída.
Além da Agroconsult, FG/A e FCStone também ajustaram os números. A previsão da primeira consultoria para moagem passou de 584,438 para 584,545 milhões de toneladas. Já a da FCStone decaiu de 588,8 para 588 milhões de toneladas.
Segundo o analista de mercado da INTL FCStone, João Paulo Botelho, a revisão não reflete nenhuma mudança relevante nos fundamentos por trás das previsões, apenas a incorporação de uma percepção mais pessimista dos próprios usineiros em relação à produtividade de cana. “Além disso houve uma confirmação do que se esperava em relação à diminuição da área plantada”, aponta.
Para completar, o levantamento do NovaCana passou a incluir os indicadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), da Unica, da Canaplan e da Bioagência.
O órgão americano espera uma moagem de 600 milhões de toneladas de cana – uma redução de 7,14 milhões de toneladas em relação à temporada 2016/17, conforme destaca o relatório do USDA.
Já a Unica indica uma moagem de 585 milhões de toneladas, queda de 22,14 milhões de toneladas em relação ao processamento na safra anterior. Esse é o mesmo valor indicado pela Bioagência.
A Canaplan, por sua vez, trabalha com dois cenários, que vão de 560 a 590 milhões de toneladas de cana. A média entre os dois cenários é de 575 milhões de toneladas.
Mudança na média das estimativas
Com a antiga média das estimativas, o mercado previa uma queda de 2,85% na moagem em relação a 2016/17. Agora, com as atualizações, a previsão é de que a moagem seja 3,12% menor do que na temporada anterior. A média entre as estimativas das 18 empresas que fazem parte do levantamento do NovaCana é de 588,17 milhões de toneladas de cana.

A menor moagem, combinada com outros fatores de mercado, alterou as visões das consultorias para a produção de açúcar. No último levantamento, a média das previsões apontava uma produção de 35,79 milhões de toneladas de açúcar. O número representava um crescimento de 0,45% em relação a 2016/17.
Com os novos números, a média das estimativas aponta para uma produção de 35,63 milhões de toneladas do adoçante em 2017/18 – valor que representa estabilidade na comparação com a última temporada.

Além disso, as revisões também preveem um menor crescimento no mix de açúcar. Antes, as consultorias previam que 47,5% da matéria-prima deveria ser direcionada para a produção do adoçante. Agora, o mix previsto é de 47,3%. A antiga média das estimativas representava um crescimento de um ponto percentual sobre o mix açucareiro do ano passado. Com as atualizações, a previsão é que ele seja apenas 0,8 ponto maior.

Já em relação à produção de etanol, a visão das consultorias é de uma queda total de 4,8%. O declínio reflete uma previsão menor para o etanol hidratado, com cerca de 13,42 bilhões de litros produzidos. Com isso, a média das estimativas é de um resultado 10,53% inferior na comparação com o resultado da última safra.

Além disso, mesmo com as atualizações e novas apostas, a perspectiva é de uma produção de etanol anidro com um crescimento baixo, de 1,97% em relação à última safra. Assim, a perspectiva média para a produção de anidro é de 10,87 bilhões de litros.

Por sua vez, a perspectiva para a qualidade da cana, medida pela quantidade do açúcar total recuperado (ATR), não mudou muito, mas baixou. A média das estimativas passou de 134,30 para 134,11 quilos por tonelada de cana-de-açúcar.


Com o indicador de moagem e de ATR baixando, a previsão para o açúcar equivalente também reduziu, indo de 78,73 para 78,41 milhões de toneladas, de acordo com a média das projeções.

Marina Gallucci – NovaCana