
A estiagem que atingiu o Centro-Sul do Brasil também atrapalhou a produção de cana-de-açúcar e os usineiros já preveem uma safra menor do que a do ano passado.
É mais um golpe numa indústria que não anda muito bem. A colheita da cana-de-açúcar já começou e a safra deve ser de 2,8% menor do que a anterior. O cenário gerou um protesto na quinta-feira (24), em Jaú (SP). Os agricultores pedem ajuda do governo.
Também tem produtor desanimado em outras regiões do estado. Em uma usina, em Sertãozinho, interior de São Paulo, a produtividade está menor. Por causa da estiagem, a cana cresceu menos e teor de sacarose, que é a concentração de açúcar na planta, também diminuiu.
Com o teor menor, menos etanol. Por causa dessas dificuldades, pelos menos dez usinas da região Centro-Sul do Brasil não vão produzir esse ano. "A gente investiu em área plantada, renovou canaviais e o clima atrapalhou. Então, a gente vai ter uma quebra de 10%", explica o diretor industrial Antonio Eduardo Tonielo.
É no posto de gasolina que essa crise no campo chega à cidade. O etanol já vinha perdendo feio pra gasolina, mesmo antes da redução da safra. Com base no último levantamento de preços da ANP (Agência Nacional do Petróleo), em quase todo país é mais vantagem usar gasolina. Só em São Paulo, em alguns postos, o etanol ainda compensa. Mas, mesmo assim, a conta é bem justa.
Apesar da safra menor, a quantidade de etanol no mercado deve se manter a mesma. Os usineiros vão produzir mais combustível do que açúcar. Mas o consultor José Carlos Hausknecht explica que manter a oferta igual a do ano passado não adianta. A frota aumenta e a demanda por combustíveis também.
O preço do etanol só não sobe para não perder ainda mais competitividade. Hausknecht acredita que o governo deveria parar de controlar a inflação segurando o preço da gasolina.
"Caso não haja reajuste nos preços dos combustíveis, uma alternativa seria você fazer uma desoneração maior da produção de etanol e reduzir a tributação para elevar a rentabilidade da indústria", analisa José Carlos Hausknecht, diretor da consultoria MB Agro.
Mas o Ministério de Minas e Energia mantém a posição: não vai aumentar o preço da gasolina nem subsidiar o etanol. Para sobreviver, os usineiros ainda tentam negociar com o governo um aumento da quantidade de álcool na gasolina. "O que seria muito positivo para este ano para o setor, embora seja uma medida pontual", afirma Elizabeth Farina, presidente da ÚNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar).
Janaína Lepri e João Carlos Borda