Etanol: Preços

Etanol: Preços

Esqueça a paridade: etanol mais barato conquista consumidor e setor se beneficia da crise

A crise econômica e política do país pode estar sendo favorável para o setor sucroenergético, que vive situação crítica há alguns anos


NovaCana - Publicado: 01 Mar 2016 - 10:42

Motoristas que costumam alternar entre etanol e gasolina, dependendo da diferença de preço, agora estão indo apenas para a opção mais barata, o etanol, desconsiderando a eficiência. Ao tentar cortar gastos de curto prazo em meio a uma batalha contra a elevada inflação de 10,7%, o aumento do desemprego e uma economia que se contrai no ritmo mais rápido já visto em um século, eles também estão ajudando a manter os preços do etanol em uma alta recorde que já dura mais de três meses.

“A ideia de que os consumidores migrariam de volta para a gasolina simplesmente só não está acontecendo”, disse o diretor executivo da SCA Etanol do Brasil, Martinho Ono. “É o mesmo pensamento da pessoa que vai ao supermercado e escolhe a marca mais barata. Em uma situação difícil como a que estamos hoje, a percepção da economia acaba superando o pensamento racional”.

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Tradicionalmente, os motoristas escolhem etanol para abastecer seus carros quando ele está custando menos de 70% do valor da gasolina, uma vez que o biocombustível extraído da cana-de-açúcar produz cerca de 30% menos energia por litro. Agora, a diferença na bomba – com o etanol custando em torno de R$ 1 a menos por litro – parece ser mais relevante. O etanol está sendo comercializado com preços que vão de 72% a 75% do preço da gasolina desde novembro, valores superiores aos 66% registrados um ano antes, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

“O etanol continua a obter a preferência dos consumidores”, afirmam Mirian Bacchi e Ivelise Bragato, analistas do centro de pesquisa Cepea, da Universidade de São Paulo (USP). Em relatório divulgado em 22 de fevereiro, elas observam que a restrição de renda é uma possível explicação, mas também é possível que parte de motoristas considere que o biocombustível seja competitivo mesmo acima da marca dos 70%.

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Vendas de etanol

A venda de etanol hidratado pelas distribuidoras de combustível nos últimos três meses subiu 10% ante o ano anterior, enquanto as vendas de gasolina encolheram 9,3%. Nos últimos 12 meses, as vendas de etanol subiram 36%, atingindo um recorde de 17,8 bilhões de litros, com o biocombustível se tornando uma opção mais atraente após um aumento dos impostos sobre a gasolina. O preço do etanol chegou a cair para baixo dos 60% do preço da gasolina durante o pico de produção em agosto, um movimento que levou os consumidores a acabar com os estoques do país.

O presidente da consultoria Datagro, Plinio Nastari, espera que os estoques de etanol hidratado no final do ano-safra 2015/16 seja de cerca de 300 milhões de litros, ante 1,2 bilhões de litros registrados no mesmo período do ano anterior. Ele afirma que o consumo continua sendo “surpreendentemente resistente”.

A demanda recorde vem ajudando os produtores de açúcar e etanol a recuperar anos de maus resultados. Com um aumento de 85% nas vendas de etanol, a Biosev, subsidiária da francesa Louis Dreyfus Commodities e segunda maior produtora do Brasil, registrou lucro líquido no terceiro trimestre da safra, encerrado em dezembro, após oito prejuízos trimestrais consecutivos. Além disso, as vendas de biocombustível da concorrente São Martinho mais do que dobraram no mesmo trimestre, impulsionando o lucro líquido para um recorde para o período.

Perspectiva de analistas

O bom resultado ajudou a elevar as ações da São Martinho em 36% no período de um ano, resultado ainda mais relevante quando se observa a queda de 16% no referencial de estoque do Brasil. Analistas consultados pela Bloomberg esperam um crescimento no lucro líquido ajustado em torno de 48% para o ano fiscal 2017, dando sequência a um aumento de 13% no ano que termina no próximo dia 31 de março. A Biosev deve crescer 16%, com os analistas prevendo que a companhia obtenha seu primeiro lucro anual desde 2011 já em 2017.

Contudo, a procura por combustíveis provavelmente deve diminuir, uma vez que há consenso sobre a redução das perspectivas do PIB do Brasil em 2016. Ainda assim, os analistas afirmaram que esperam que a performance da indústria sucroenergética supere a de todos os outros setores.

Segundo o analista da FCStone em Campinas, Bruno Lima, a produção de etanol hidratado deverá aumentar 4,5%, chegando aos 17,6 bilhões de litros na temporada que começa em abril. O resultado, de acordo com ele, será motivado pelo maior suprimento de cana-de-açúcar, ao mesmo tempo em que muitas usinas esperam que a moagem se inicie em março, a fim de aproveitar os preços recordes registrados antes de picos de produção. Embora os níveis de demanda atuais sejam um sinal positivo, o abrandamento persistente da economia brasileira pode, eventualmente, reduzir o consumo de biocombustíveis, observa o analista.

“O ponto de interrogação é se os consumidores continuarão a exigir mais etanol em vez da gasolina, que é mais cara, ou se a crise vai levar a uma queda geral no consumo de combustível”, disse Lima.

Gerson Freitas Jr. - Bloomberg

Tradução e adaptação novaCana.com