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[Entrevista] Fertilizantes sintéticos e diesel são “inimigos” de usinas no RenovaBio, diz SGS

Representantes da SGS falam sobre atrasos do RenovaBio. Para eles, programa ficou “sobrecarregado”, mas isso deve se resolver: “As usinas estão esperançosas de que vai tudo dar certo”

NovaCana 14 min de leitura

Uma empresa suíça, com quase 150 anos de história e presente em mais de 100 países. Para quem acha que todos os elementos relacionados ao RenovaBio – política nacional de incentivo ao uso de biocombustíveis – são uma novidade, essa descrição pode parecer algo distante e não relacionado. Porém, ela se refere à SGS, uma das firmas inspetoras autorizadas a operar no programa e que já coleciona mais de 110 certificações em andamento ou finalizadas.

A companhia, que começou com a inspeção de grãos em um porto na Europa, está presente no Brasil com uma divisão para área agrícola que, antes mesmo do RenovaBio, já atuava com certificações voltadas ao setor de biocombustíveis.

“A gente começou a participar do RenovaBio nas reuniões iniciais com a Embrapa e a Unicamp, para entender como seria o funcionamento da verificação, o que seria considerado, qual a formatação da RenovaCalc”, relata o gerente de negócios de sustentabilidade da SGS, Fabian Peres Gonçalves. “Eles nos convidavam e a gente participava dessas discussões”.

Em entrevista ao NovaCana e à BiodieselBR.com, Gonçalves comenta um pouco sobre essa trajetória e fala sobre os desafios encontrados pela firma inspetora e pelas usinas até o momento.

Uma empresa suíça, com quase 150 anos de história e presente em mais de 100 países. Para quem acha que todos os elementos relacionados ao RenovaBio – política nacional de incentivo ao uso de biocombustíveis – são uma novidade, essa descrição pode parecer algo distante e não relacionado. Porém, ela se refere à SGS, uma das firmas inspetoras autorizadas a operar no programa e que já coleciona mais de 110 certificações em andamento ou finalizadas.

A companhia, que começou com a inspeção de grãos em um porto na Europa, está presente no Brasil com uma divisão para área agrícola que, antes mesmo do RenovaBio, já atuava com certificações voltadas ao setor de biocombustíveis.

“A gente começou a participar do RenovaBio nas reuniões iniciais com a Embrapa e a Unicamp, para entender como seria o funcionamento da verificação, o que seria considerado, qual a formatação da RenovaCalc”, relata o gerente de negócios de sustentabilidade da SGS, Fabian Peres Gonçalves. “Eles nos convidavam e a gente participava dessas discussões”.

Em entrevista ao NovaCana e à BiodieselBR.com, Gonçalves comenta um pouco sobre essa trajetória e fala sobre os desafios encontrados pela firma inspetora e pelas usinas até o momento.

Além dele, também participaram da conversa o coordenador de sustentabilidade e novos negócios, Lucas Engelbrecht, e o coordenador técnico, Rafael Yukio Noguchi .

A ANP já está certificando algumas empresas, mas, geralmente, se passam alguns meses entre o fim da consulta pública e a emissão do certificado de cada usina. Isso pode ter algum impacto no interesse?
Fabian Gonçalves: Da nossa parte, pelo menos, a gente não tem percebido uma mudança no ânimo das empresas. Elas entendem que esse tempo é natural do processo. Teve uma concentração muito grande de usinas que entraram no programa e isso, naturalmente, sobrecarregou a ANP e afetou sua agilidade. Mas isso é uma coisa que, ao longo do tempo, deve se resolver.

Para quem já ultrapassou essa barreira burocrática, há a possibilidade da geração de pré-CBios. Porém, por enquanto, ainda não há um cronograma conhecido de quando esses pré-CBios vão poder virar dinheiro. Esse gargalo traz receios?
Gonçalves: A princípio, não. As usinas estão chegando, estão pedindo propostas. Mas é claro que todos comentam: “Quando que vai sair? Como que está? Podia ser mais rápido?”.
Rafael Noguchi: A ansiedade, às vezes, é grande. Mas o projeto avançou muito rápido e, no primeiro ano, já tem uma adesão alta. Acho que teve um esforço grande para ter todas essas usinas certificadas. Agora, é a vez dessa segunda etapa – e não adianta fazer as coisas correndo. A nossa visão, como certificadora, é muito limitada, mas, pelo que a gente acompanha, estão sendo feitas ações estruturantes e isso está avançando.

“É lógico que tem uma ansiedade e todo mundo quer que o mercado de CBios saia o mais breve possível”, Fabian Peres Gonçalves

A promessa do governo era que o RenovaBio começaria a funcionar no dia 24 de dezembro. Mas o que tivemos nessa data foi só uma versão reduzida.
Gonçalves: Todo mundo tinha uma expectativa, mas, na prática, não é tão simples assim. De qualquer forma, eu acho que o programa tem avançado bastante. E a quantidade de empresas que aderiram mostra um otimismo do mercado. Elas estão esperançosas que vai tudo dar certo no final.

Em relação às certificações, aconteceram alguns casos em que a nota final acabou ficando um pouco diferente da que entrou em consulta pública. Por que isso acontece?
Gonçalves: Durante o próprio processo, você tem revisões. A consulta pública ocorre após a auditoria, mas depois você tem uma revisão e tem a própria análise da ANP, que vê toda a documentação. Nessas etapas, eventualmente, pode acontecer alguma correção ou um ajuste de nota.
Noguchi: Há também a questão das mudanças técnicas. Saem novos esclarecimentos e novas versões de calculadora. Então, se mudou uma fórmula na calculadora, mudou a nota.
Lucas Engelbrecht: A ANP vem se desenvolvendo. Ela vem crescendo nesse sentido e é natural. No site dela, por exemplo, foram feitas mudanças para deixar o processo mais transparente. Tem até a evolução, mostrando quantas usinas estão aguardando a consulta pública. Isso é positivo.

Apesar do grande número de usinas se certificando, as consultas públicas têm atraído poucos comentários. O que isso diz sobre o programa?
Gonçalves: A gente percebe que todo mundo está sempre olhando e consultando, mas a questão de usar a consulta pública como uma ferramenta para tirar dúvidas e coisas neste sentido prático não aconteceu. Fica lá, o mercado vê o processo, mas ninguém usa muito o mecanismo.
Noguchi: Vários outros sistemas de certificação têm esse processo de consulta pública. É uma questão de visibilidade, de reconhecimento. Hoje, ainda mais no mercado brasileiro de etanol, todo mundo conhece as empresas que estão operando. Elas têm licença e estão cadastradas na ANP.

No Nordeste, a gente tem algumas usinas de etanol que estão em consulta pública e as notas delas estão na média, mas o volume elegível é baixo. Por que isso acontece? Esta é realmente uma particularidade do Nordeste?
Gonçalves: O volume elegível está muito amarrado à quantidade de áreas que você consegue colocar no escopo. Então, vai muito do perfil de cada usina. Se ela tem área própria, ela tem mais controle, ela tem gestão sobre a origem, a questão do CAR, tudo isso. Mas muitas usinas acabam trabalhando muito com fornecedores e, quando você tem certo perfil de fornecedor, muitas vezes você acaba não tendo essa informação.
Engelbrecht: O problema é a rastreabilidade dos dados. Por exemplo, um dos pontos de elegibilidade é o CAR. Se você não tem o CAR do fornecedor, você não consegue colocar a parcela elegível dele. Então, o RenovaBio está muito vinculado à rastreabilidade dos dados, ao levantamento das evidências. Até pode existir essa evidência, mas a usina não teve acesso a essa informação por algum motivo. Então, neste primeiro momento, a unidade acaba tendo uma parcela eletiva menor, mas nada que impeça ela de conseguir essa informação no futuro e, no ano seguinte, pedir uma nova certificação.
Noguchi: Às vezes, a usina tem fornecedores que estão se preparando para aderir ao programa. Você fala “preciso das informações de 2018”, mas você já está em 2019 e não tem como buscar esses dados. Agora, as usinas que têm procurado a gente já têm trazido mais informações porque elas começaram a se organizar no ano passado. Já sabiam que o programa existia.

E as unidades flex e de milho? Elas levaram um pouco mais de tempo para aparecer nas consultas públicas. Por quê?
Gonçalves: Esse ainda é um mercado menor no Brasil, mas a tendência é crescer. Toda hora estamos vendo notícias de novas usinas. A SGS tem, no caso, duas clientes que são usinas flex. Elas estão no processo, estão caminhando. Mas é uma questão do mercado. Ele é novo e deve crescer. E, naturalmente, elas devem aderir ao programa.
Engelbrecht: Há uma nova resolução que fala sobre as novas usinas, que estão entrando no mercado agora. Ela vai permitir um período menor – com seis meses de operação, a unidade já pode entrar no programa. Então, isso é interessante para essas novas unidades.

É mais difícil trabalhar com a certificação do milho, por se tratar de um grão?
Engelbrecht: Quando não tem rastreabilidade, a porção elegível acaba caindo. Em uma das nossas clientes, a operação com o milho era um experimento da usina. Foi um mês de moagem e, como eles não tinham a rastreabilidade das áreas, isso acabou reduzindo a fração elegível.

Muitas das usinas ainda estão presas aos dados default da RenovaCalc, mas há uma expectativa de que o uso dos valores padrão vá cair ao longo do tempo? O que está faltando para que essas usinas se apropriem dessa ferramenta?
Noguchi: Eu já conversei bastante com os clientes sobre isso. Muitas das usinas que entraram no programa com os dados padrão já avançaram nesse sentido. Outras – que já tinham dados reais e um controle muito bom das áreas – estão até fazendo modelagens para ver o que gera mais emissões, o que pesa mais na calculadora. Então, imagino que as unidades que estão pensando na melhoria de seu desempenho vão tentar uma nota ainda maior no próximo ano. E as que estão no padrão vão começar a entrar com os dados reais.

Há uma diferença considerável nos resultados entre quem usa valores reais e quem acaba se apoiando nos valores padrão?
Noguchi: Sim. Tem alguns descontos que são significativos e a gente sabe que, muitas vezes, a usina não atinge aquela emissão. Um exemplo é a questão da área queimada. No dado padrão, acaba descontando bastante – 100% – e, na verdade, hoje a queima da cana, principalmente no estado de São Paulo, é muito pequena, basicamente acidental. As usinas têm até mesmo um programa de prevenção a queimadas. Mas é inteligente o programa colocar essa penalização; assim, ele começa a ter as informações reais e as usinas passam para essa última etapa, que é a da melhoria.

“O RenovaBio quer reduzir emissões com o consumo de etanol. Esse é o objetivo do programa e acho que isso está bem desenhado”, Rafael Noguchi

Olhando para as usinas que estão entrando no programa, há chances de a gente ver mudanças grandes nas renovações dos certificados ou até mesmo usinas tendo que refazer as certificações?
Gonçalves: Eu acho que não. O que acontece é que quem está chegando agora acaba se aproveitando do histórico. Já tem muitas consultas publicadas e já tem usinas certificadas. Isso traz um conhecimento e ajuda bastante para quem está começando.
Engelbrecht: Quando você está começando um projeto, tem muito esforço envolvido, tem coisas que você vai errar. Mas, depois, isso se estabiliza. Isso tanto do lado das usinas quanto do lado das certificadoras e da própria ANP. Essa primeira etapa é de um aprendizado muito grande para todos. As regras foram definidas, mas as usinas têm um modo particular de trabalhar. Cada uma tem a sua gestão e você não pode engessar isso porque não tem certo ou errado. A empresa está tendo os seus resultados. Você lê a regulamentação e questiona: “Assim pode? Assim não pode?”. Então, teve muito trabalho por parte das certificadoras junto à ANP para entender o que a agência queria mesmo dizer e conseguir avaliar as usinas da forma mais correta.

E onde estão as principais oportunidades para a redução das emissões e, consequentemente, para a melhoria das notas das usinas?
Noguchi: Olha que essa consultoria é cara, hein? Temos diversos pontos. Os fertilizantes sintéticos têm um impacto alto. Olhando as consultas públicas, você vê que quem utiliza fertilizantes orgânicos tem um salto de nota, uma melhoria considerável. Outra questão é o consumo de diesel. Melhores controles no consumo de diesel e traçar rotas para a colheita da cana fazem diferença. Tem muitas usinas que trabalham com ajustes. Se você for olhar, tem uma diferença muito grande nesses valores.

Falando em consumo de diesel: e o abuso do modal rodoviário? Vocês acreditam que o RenovaBio tem força para tornar a distribuição mais eficiente ambientalmente?
Gonçalves: Neste ponto, você esbarra na infraestrutura do país. Hoje, no estado de São Paulo, o maior produtor do setor [de etanol], já existe o duto. Tem algumas empresas que utilizam, mas, ainda assim, tem ainda um potencial muito grande.
Engelbrecht: O duto é utilizado, mas, por vezes, a rastreabilidade fica um pouco comprometida. As usinas muitas vezes não sabem como fazer a rastreabilidade de toda essa informação.

Mas o programa cria, pelo menos, um incentivo na direção certa? Ou é muito tímido?
Noguchi: Acredito que sim. Querendo ou não, é um desafio complexo e que vai além das usinas.
Gonçalves: Não deixa de ser um fator adicional de pressão. Você tem um programa e um grupo de produtores interessados. Isso, de certa forma, pressiona essa questão.

E em relação às equipes das usinas, que preenchem as planilhas: como está essa linha de frente? Como está sendo o treinamento para essas pessoas?
Gonçalves: No começo, eles tinham as edições do RenovaBio Itinerante e as turmas de treinamento, com a Embrapa à frente. Foram feitas várias turmas, que treinaram muita gente.
Noguchi: Também teve o surgimento de consultoria especializadas. O que a gente sente é que muitas usinas têm o dia a dia delas, a equipe já está com muitas atividades. Então, elas optam por contratar empresas que vão auxiliar nesse trabalho, principalmente na análise da elegibilidade. O levantamento das áreas envolve toda uma parte de geoprocessamento.
Engelbrecht: Às vezes, as usinas não estão preparadas para trabalhar com o geoprocessamento. Algumas já atuam com outras certificações e têm essa expertise interna, mas outras não. Por isso, elas buscam por essas consultorias.

“Entre as nossas clientes, mais de 80% teve consultoria para trazer um produto melhor para a firma inspetora”, Lucas Engelbrecht

Vocês acabaram se tornando uma das firmas inspetoras mais “populares” para o setor de etanol. Como isso aconteceu?
Gonçalves: A gente enxerga que isso é um reflexo de estarmos envolvidos desde o começo. E, também, vem do conhecimento que a SGS tem do mercado. Somos tradicionalmente uma certificadora, que tem uma marca conhecida no setor agrícola e no setor de etanol. Foi natural os clientes chegarem até nós. Apesar da gente ter feito bastante divulgação, também percebemos uma demanda de clientes que já nos conheciam e vieram nos procurar.
Noguchi: A SGS tem outras acreditações, como a Bonsucro, e temos também um trabalho muito forte junto à EPA [Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos] e ao Carb [Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia]. Fomos a primeira empresa do mundo a certificar uma usina em Bonsucro, em 2011. Então, a gente já veio com esse pioneirismo. O trabalho com o RenovaBio não começou no ano passado, ele começou lá trás, trabalhando com o setor de açúcar e etanol. Todo esse background ajudou a gente a ser uma certificadora muito considerada pelos clientes no momento de se certificar no RenovaBio.

Vocês têm uma equipe dedicada ao RenovaBio ou a equipe é multifuncional?
Noguchi: A gente aproveita a experiência dos outros auditores – por exemplo, da Bonsucro – em temas que são base para o RenovaBio. O profissional tem que conhecer as usinas, ele tem que conhecer a parte dos cálculos. Então, a gente utilizou o conhecimento destes profissionais para trabalhar junto ao RenovaBio.

Não sei se vocês conseguem dimensionar isso de alguma forma, mas qual é o investimento do ponto de vista da certificadora para entrar no RenovaBio?
Gonçalves: Eu não saberia mensurar. A entrada no RenovaBio está condicionada a você já ser um organismo acreditado de organização de validação e verificação de inventário de gases de efeito estufa, o que a gente chama de OVV. Esse é um mercado em que a SGS já atua desde o início do programa. A gente já atuava em inventários e, quando saiu uma acreditação nacional, fomos buscar isso junto ao Inmetro. Então, é um investimento que vem lá de trás.
Noguchi: Os investimentos consideram também elaborar os procedimentos internos, a qualificação de profissionais, o estabelecimento de cargos e decisões. Então, você tem, por exemplo, a pessoa do comercial, o técnico, quem aprova o certificado. Tudo isso veio dentro de uma estrutura. Por isso, eu acho que, no começo, algumas empresas acabaram levando um certo tempo para se adaptar.

Fábio Rodrigues e Renata Bossle – NovaCana

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