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O enigma chinês: produção, importação e estoques de açúcar devem traçar cenário mundial

China 221216Especialistas tentam desvendar o futuro do mercado chinês de açúcar. Impactos da China para o setor de açúcar mundial – produção, importação e estoques

NovaCana 15 min de leitura

Não há exagero algum chamar a China de gigante asiático. Com uma economia de proporções grandiosas, o país traz simultaneamente um mercado a ser conquistado e uma indústria a ser explorada.

Para o setor de açúcar, a dinâmica chinesa envolve muitos pontos que levam a reflexos no mercado global. Além de ter uma produção interna considerável, o país também é o maior comprador de açúcar do mundo e tem, sob o controle do governo, um estoque capaz de acabar sozinho com o déficit de produção mundial previsto para a atual temporada (outubro-setembro).

“A China é o maior importador mundial de açúcar. Mas não só isso, é um país com um estoque muito grande”, Gareth Forber (LMC)

Esse delicado cenário foi explorado foi alvo de avaliação de dois especialistas na China e no mercado de açúcar mundial, o diretor de pesquisa de açúcar da LMC International, Gareth Forber, e o diretor de trading da Cofco Agri, Maurício Sacramento.

“Nos próximos meses, a China se tornará ainda mais importante para quem está observado o mercado”

Na reportagem a seguir:

- Perspectivas para liberação de estoques e possíveis impactos

- Panorama da interferência governamental nos preços

- “A Cofco está crescendo bastante no negócio de trading em função do mercado chinês”

- Desafios do setor açucareiro chinês: mecanização e custos de produção

- Expectativas para o futuro das exportações de açúcar para a China

- Processo de salvaguarda

- Estimativas para a produção chinesa de açúcar em 2016/17

- Situação do comércio ilegal: açúcar branco contrabandeado

- Concorrência com o xarope de milho na indústriaNão há exagero algum chamar a China de gigante asiático. Com uma economia de proporções grandiosas, o país traz simultaneamente um mercado a ser conquistado e uma indústria a ser explorada.

Para o setor de açúcar, a dinâmica chinesa envolve muitos pontos que levam a reflexos no mercado global. Além de ter uma produção interna considerável, o país também é o maior comprador de açúcar do mundo e tem, sob o controle do governo, um estoque capaz de acabar sozinho com o déficit de produção mundial previsto para a atual temporada (outubro-setembro).

Esse delicado cenário foi explorado durante o Seminário Internacional do Açúcar 2016, realizado em São Paulo no mês passado. O painel sobre o país contou com a presença do diretor de pesquisa de açúcar da LMC International, Gareth Forber, e do diretor de trading da Cofco Agri, Maurício Sacramento.

“A China é o maior importador mundial de açúcar. Mas não só isso, é um país com um estoque muito grande”, Gareth Forber (LMC)

A Cofco Agri é considerada a maior empresa agrícola da China e uma das cinco maiores companhias do agrobusiness do mundo. Na China, ela possui 13 usinas – oito de cana-de-açúcar e cinco de beterraba – com uma capacidade de produção de 750 mil toneladas de açúcar. A Cofco também é uma das maiores importadoras de açúcar do país e tem uma capacidade de refino de mais de 2 milhões de toneladas.

A empresa ainda atua no Brasil, com quatro usinas e uma capacidade de produção de 1,5 milhão de toneladas de açúcar, e na Austrália, com uma usina que pode produzir até 300 mil toneladas de açúcar.

Uma produção que já viu momentos melhores

Segundo Sacramento, a estimativa da Cofco para o atual ciclo, que começou em outubro, é que a China produza 9,2 milhões de toneladas de açúcar, com a maior parte dessa produção vinda da cana. Ele relata que a safra na China varia muito em função do clima, de modo que esse é o principal fator para a expectativa de redução para 2016/17.

“Na nossa estimativa, acreditamos que a área de cana não deve mudar muito de 2015/16 para 2016/17. Depois de dois anos de queda, isso é bem significativo. Mas é possível que a gente tenha mais perdas se a estrutura econômica continuar da forma como está”, reflete.

“Para que a produção aumentasse, teríamos que investir em um ganho de produtividade. Hoje, isso dificilmente vai acontecer na China”, Maurício Sacramento (Cofco Agri)

Como o consumo não deve crescer consideravelmente, Sacramento estima que a China terá um déficit 6,2 milhões de toneladas. Mas, além do déficit de produção, ele acredita que o país asiático tem um déficit estrutural que não deve mudar no curto e no médio prazo, sendo marcado por baixos rendimentos agrícolas e pela ausência de mecanização.

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“Visitei plantas que estão fazendo testes para tentar mecanizar áreas de colheita de cana e posso garantir que isso não vai acontecer em um futuro próximo porque eles estão muito longe de atingir um nível de eficiência que temos no Centro-Sul, por exemplo”, garante Sacramento.

Olhando mais para trás, o diretor da LMC International, Gareth Forber, explica que a produção de açúcar na China atingiu seu pico na temporada 2007/08. Desde então, a tendência tem sido de queda na produção, gerando um grande déficit no fornecimento interno e exigindo grandes volumes de importação. Ele também aposta em um déficit de mais de seis milhões de toneladas de açúcar para essa temporada.

“De um ponto de vista produtivo, a China tem alguns grandes desafios pela frente”, Gareth Forber (LMC)

Ainda assim, Forber considera que o país possui capacidade de processamento para ser autossuficiente. A maior dificuldade tem sido estimular o crescimento da área de cultivo, tanto de cana-de-açúcar quanto de beterraba. “O principal motivo desse déficit crescente é que os preços da cana-de-açúcar não estão aquecidos no país”, afirma.

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Custos crescentes de produção

Conforme Forber, os custos de plantar cana na China estão muito altos, alcançando mais do que o dobro em uma comparação com os custos no Brasil – e eles continuam subindo. A principal razão para isso, de acordo com ele, é que a maior parte do trabalho é manual e os custos trabalhistas na China estão ascendendo rapidamente.

“O desafio na China está sendo estimular o aumento da área para a produção de cana e isso está se mostrando bastante difícil”, Gareth Forber (LMC)

Ele exemplifica a situação falando da principal província na China para o cultivo de cana-de-açúcar, Guangxi, que fica localizada no sul do país. Segundo Forber, o plantio na localidade está sendo desestimulado pelo alto custo do cultivo, especialmente porque os preços de venda da matéria-prima não estão acompanhando esse crescimento. “Com isso, muitos fazendeiros estão abrindo mão da cana e da beterraba em favor de culturas mais práticas e mais baratas”, conclui.

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De acordo com Sacramento, de 2005/06 a 2016/17, o preço da cana subiu 1,65 vezes, enquanto o custo da mão-de-obra subiu seis vezes. Como reflexo disso, Guangxi perdeu 16% da área dedicada à cana-de-açúcar entre 2013/14 e 2014/15, com o decréscimo de mais 15% na safra seguinte.

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“A China vem perdendo área de produção em um volume bastante significativo. É estranho falar isso, mas falta mão-de-obra para colher cana na China por causa do custo”, afirma e completa: “[O cultivo de cana] ainda é uma atividade que dá lucro, mas a competição com outras culturas é desleal”.

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Interferência governamental e salvaguarda

Considerando a situação dos agricultores e com o objetivo de evitar que a produção de açúcar sofra quedas drásticas, Forber explica que o governo chinês optou por dar um apoio financeiro às usinas de beterraba e de cana-de-açúcar para que elas façam um repasse a seus fornecedores. “O governo está tentando manipular os preços para apoiar os fazendeiros. Ele faz isso de muitas formas, como com as taxas de importação”, cita.

Outra medida tomada pelo governo foi o controle dos estoques – incluindo a compra e venda de grandes volumes –, de modo a influenciar os preços locais de açúcar. “Quando os preços de açúcar na China estão muito baixos e caindo, o governo compra açúcar. Quando os preços estão altos e subindo, o governo vende seus estoques”, explica.

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Entretanto, Forber também relata que a política de dar suporte aos produtores em um nível tão alto criou novos desafios. Como resultado, em quatro dos últimos cinco anos, o volume de açúcar importado ultrapassou o nível necessário.

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Para a Cofco Agri, que atua tanto dentro da China quanto com importação de açúcar, as decisões do governo colocam a companhia em situações delicadas. Um exemplo é o recente processo de salvaguarda que colocou Brasil, Austrália e Coreia do Sul em investigação – e que pode trazer um aumento considerável nas tarifas de exportação.

“A maior parte da nossa produção está no Brasil e temos interesse em exportar maiores volumes para a China. Mas também produzimos açúcar na China e a competição com o açúcar importado é bastante relevante”, afirma Maurício Sacramento.

Ainda assim, ele classifica a salvaguarda como “uma questão bastante política”. De acordo com o diretor, ainda é difícil estimar o que vai acontecer e qual será o impacto. “Pessoalmente, acho que é pouco provável, mas se o governo, temporariamente, aumentar o imposto de importação, isso vai estimular ainda mais liberação de estoques”, completa.

Liberação de estoques em um horizonte nublado

Atualmente, segundo estimativa da LMC, os estoques chineses contam com sete milhões de toneladas de açúcar. Segundo Forber, se o país decidir importar menos para ajudar a balancear o comércio mundial de açúcar, acabará precisando liberar parte de suas reservas.

“Com o mercado mais apertado em 2017, a grande questão é quanto desse estoque pode ser liberado e, se ele for liberado, se será o suficiente para ajudar a balancear o fluxo mundial no mercado de açúcar”, indaga.

Ele lembra que, em outubro, o país asiático colocou à venda 200 mil toneladas, sendo que o anúncio oficial era de um total de 350 mil. Contudo, a liberação das 150 mil toneladas adicionais e de novos volumes ainda é incerta. “Nos próximos meses, a China se tornará ainda mais importante para quem está observado o mercado”, completa Forber.

“O problema que o mercado tem é que não há uma diretriz clara sobre quanto açúcar será liberado e, se for, quando isso deve acontecer”, Gareth Forber (LMC)

Inclusive, a perspectiva de liberações é algo novo para o setor de açúcar. Conforme relembra Sacramanto, da Cofco, foram realizadas vendas pontuais apenas em 2011 e em janeiro de 2013. Mas ele também acredita em mais anúncios: “As vendas de outubro foram feitas a preços mais altos do que o que o governo esperava. O sucesso dessa primeira leva faz com que exista uma grande chance de mais volume ser liberado”.

Além disso, não se sabe ao certo exatamente quanto açúcar o governo tem em mãos. “A Cofco presta serviço para o governo e parte do estoque governamental é armazenado pela própria Cofco. São armazéns separados, onde não conseguimos nem entrar”, relata.

Ele também explica que o estoque do governo foi formado ao longo de muitos anos e é, em grande parte, de açúcar bruto ensacado. Para completar, a maior parte do branco disponível precisaria de reprocessamento, o que deve ser feito antes do governo oferecer ao mercado.

Importações para a China devem continuar

Independentemente do estoque governamental, Sacramento ainda estima que o setor privado chinês tenha um estoque de mais de cinco milhões de toneladas. “Você precisa pagar um imposto para processar esse açúcar e as refinarias têm sua visão sobre o sobe e desce de preços e impostos. É uma decisão delas de processar ou não”, afirma.

De acordo com o diretor da LMC, os preços atrativos do açúcar na China atraíram um volume de compras superior às necessidades do país que, além de gerar um grande estoque do adoçante, também estimulou o surgimento de novas refinarias para o processamento de açúcar VHP. “No começo dos anos 2000, a China fazia importações modestas. De fato, em 2008, a China inclusive teve um superávit em sua produção. Foi a partir de então que vimos uma mudança”, rememora Forber.

Assim, para o futuro, a perspectiva parece ser de uma desaceleração nas importações. Sacramento, da Cofco, concorda: “Infelizmente, o Brasil chegou a exportar mais de 3 milhões de toneladas em um passado recente, mas acho que este ano devemos exportar para a China menos de 2 milhões de toneladas de açúcar VHP”.

Mesmo com a redução, ele afirma que estão sendo firmados novos negócios de vendas de açúcar para a China. A perspectiva é que o país continue a ser um dos maiores importadores de açúcar, em grande parte devido à diferença entre produção e consumo. Contudo, quando o governo liberar estoques, o volume de importação deve ser menor.

Segundo Sacramento, a China é um mercado difícil e todos os players do setor açucareiro estão atentos para o que deve acontecer no país. “A Cofco está crescendo bastante no negócio de trading em função do mercado chinês”, exemplifica.

Comércio ilegal de açúcar em crescimento

Mesmo com o grande número de refinarias no país, as importações de açúcar branco pela China se destacaram nos últimos anos. Nos últimos dois anos, entretanto, a China viu a disparada de uma nova modalidade de fornecimento: o açúcar branco contrabandeado. Trata-se de açúcar tailandês ou indiano que atravessa a fronteira oeste e, como esse produto não está pagando impostos, ele conseguiu capturar um espaço significativo do mercado.

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“Precisamos estar atentos com o que vai acontecer com relação ao açúcar contrabandeado. A China expressou recentemente um interesse em controlar esse fluxo”, afirma Forber. No entanto, ele ressalta que ainda não está claro que medidas serão tomadas para combater o comércio ilegal.

Segundo os dados apresentados pela LMC, as importações legais de açúcar realizadas pela China são lucrativas desde que sejam de VHP dentro das cotas de importação (com taxas de 15%). Por sua vez, as compras realizadas fora da cota (com taxação de 50%) dependem dos valores praticados pelo mercado.

“Nós, como produtores de açúcar da China, temos todo o interesse de que haja um controle grande da fronteira para impedir que o açúcar não regulado entre no país”, garante Sacramento, que pondera: “Essa é uma tarefa muito difícil, mas o governo está interessado no tema. Estamos interessados em combater esse tipo de prática”.

Concorrência com o xarope de milho

Além de lidar com o contrabando de açúcar, Sacramento comenta que, atualmente, o maior competidor do açúcar na China é o xarope de milho (HFCS). Segundo ele, existe uma diferença de preço grande para fazer com que o açúcar seja competitivo frente ao HFCS.

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“Mesmo que o preço do milho suba muito ou que o açúcar caia, ainda há um caminho bastante distante que a gente precisa percorrer para que o açúcar consiga tomar parte desse consumo, especialmente industrial, que está indo para o HFCS”, aponta.

“Com a China crescendo do jeito que cresce, existe um potencial grande para o consumo. Mas, nesse momento, esse mercado não está sendo capturado pela nossa indústria”, Maurício Sacramento (Cofco Agri)

Ainda assim, Sacramento divulga uma sensação do mercado de que o consumo industrial de xarope já tomou toda a parcela que poderia tomar. O raciocínio é que, se a indústria conseguisse utilizar mais HFCS, ela estaria utilizando.

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Para o diretor, com as atuais dificuldades do setor produtivo chinês, a presença de um competidor como o HFCS faz com que seja ainda mais difícil estimular investimentos em produtividade no campo. “É uma questão de industrialização da China. Mas acreditamos que o aumento total do consumo vai continuar indo para o xarope de milho”, afirma.

Ele ainda complementa que existe capacidade ociosa tanto na produção de açúcar quanto na de HFCS. Dessa forma, ambas as indústrias poderiam aumentar a produção no caso de um aumento rápido da demanda.

Avaliação do Rabobank

O banco holandês Rabobank, divulgou na semana passada uma atualização sobre suas expectativas para a China que o NovaCana disponibiliza abaixo:

"A previsão de produção para 2016/17 foi ajustada ligeiramente para cima, para 10,8 milhões de toneladas, em um valor bruto 800 mil toneladas maior do que nossa estimativa anterior. Este é um resultado de um aumento na área de plantada oficialmente divuldada pela Associação Chinesa do Açúcar.

Todas as províncias produtoras de Yunnan experimentaram um aumento na área cultivada, o que levou a uma ligeira revisão para cima nas projeções de produção, apesar do fato de que algumas lavouras de cana foram atingidas pelo tufão Haima, que varreu o sul da China no último mês.

No lado do consumo, revisamos nossa previsão para baixo em 1 milhão de toneladas, para 15,5 milhões de toneladas, já que a disponibilidade de milho mais barato tem encorajado os usuários industriais a mudarem para o xarope de milho rico em frutose.

No que se refere às importações, a China importou 4,1 milhões de toneladas de açúcar em 2015/16 (até setembro de 2016), e as importações para 2016/17 estão previstas novamente em 4,0 milhões de toneladas, conforme previsão anterior.

O país deverá liberar cerca de 1,5 toneladas de suas reservas de açúcar para compensar a diferença entre produção e consumo. Em novembro, as autoridades chinesas divulgaram que liberaram 560 mil toneladas de seus estoques desde setembro, e esperavam liberar mais para compensar a escassez sazonal de oferta entre dezembro e janeiro, devido a festas como o Ano Novo Lunar.

Enquanto isso, a China está procurando revisar suas tarifas de importação para alinhar seus impostos de importação com as normas da OMC, o que poderia levar as tarifas sobre as importações dentro das cotas aumentarem 144% e as importações fora das cotas para 159%.

As autoridades chinesas estavam discutindo isso em recente conferência chinesa sobre o mercado açúcar, considerando sua implementação até o final de março de 2017. Isso poderia colocar alguma pressão sobre os preços domésticos no curto prazo, já que os comerciantes devem se apressam para importar mais açúcar antes das novas tarifas."

Renata Bossle – NovaCana

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