Por Carlos Murilo Barros de Mello*
As análises de mercado da Hedgepoint têm apontado um aumento na probabilidade de formação de um El Niño mais cedo e potencialmente mais intenso nos próximos meses.
Embora ainda exista incerteza quanto ao timing e à magnitude desse fenômeno climático, o tema voltou ao centro das discussões do mercado de açúcar, sobretudo pelo seu potencial impacto sobre as safras do Hemisfério Norte e, por consequência, sobre os fluxos globais da commodity ao longo do ciclo 2026/27.
Esse risco climático emerge em um momento em que os preços do açúcar têm apresentado elevada volatilidade, impulsionada muito mais por fatores macroeconômicos e geopolíticos do que por mudanças estruturais nos fundamentos.
Entre março e o início de abril, o açúcar bruto chegou a ser negociado brevemente acima de 16 centavos de dólar por libra-peso, movimento associado a escalada das tensões geopolíticas e à alta temporária do complexo energético, e não a um aperto efetivo na oferta global, apesar que uma parte da alta pode ser atribuída ao prêmio de risco do El Niño.
À medida que os preços do petróleo e do GNL se corrigiram, esse suporte perdeu força, reforçando o caráter técnico dessas altas recentes.
Caso um El Niño antecipado e mais intenso se confirme, os efeitos tendem a ser mais relevantes nas regiões produtoras do Hemisfério Norte. Na América Central, por exemplo, o fenômeno costuma estar associado a condições mais secas e quentes entre o final do outono e o inverno, período crítico para o desenvolvimento da cana-de-açúcar. Episódios semelhantes no passado estiveram correlacionados a perdas de produtividade.
Contudo, os países da América Central têm forte presença de campos irrigados, o que mitiga boa parte do risco no caso de um El Niño fraco ou moderado.
No sudeste asiático, um episódio mais intenso de El Niño pode enfraquecer a monção do sudoeste entre junho e agosto, comprometendo o desenvolvimento da cana-de-açúcar em importantes regiões produtoras da Índia e da Tailândia.
Na Índia, entretanto, os níveis satisfatórios dos reservatórios subterrâneos em estados-chave como Uttar Pradesh e Maharashtra ajudam a reduzir os potenciais impactos do fenômeno climático. O cenário exige maior atenção em Karnataka, onde os reservatórios seguem em patamares mais baixos.
A Índia registrou, na safra atual, uma produção superior à observada no ciclo anterior, embora o resultado tenha ficado abaixo das expectativas iniciais do mercado, que projetava uma safra ainda mais robusta.
Para a temporada 2026/27, nossa expectativa é de estabilidade, com a produção permanecendo em níveis semelhantes aos registrados neste ano. Além disso, o governo indiano optou por restringir novas exportações de açúcar, buscando preservar níveis confortáveis de estoque doméstico e garantir o abastecimento interno.
Na Tailândia, a safra atual foi marcada por uma recuperação significativa da produtividade, refletindo condições climáticas mais favoráveis ao longo do ciclo. Para 2026/27, no entanto, o cenário é menos otimista. A expectativa é de uma redução na produção, diante de um regime de chuvas menos favorável e dos possíveis impactos de um evento de El Niño sobre o desenvolvimento das lavouras.
Apesar desses riscos climáticos, o mercado global de açúcar segue estruturalmente bem abastecido. O Brasil continua desempenhando o papel central nos fluxos internacionais, com a safra 2025/26 do Centro-Sul tendo terminado acima de 40 milhões de toneladas de açúcar, sustentada por uma moagem próxima a 608 milhões de toneladas de cana e um mix açúcar elevado, ao redor de 50,4%.
A disponibilidade exportável brasileira pode superar 31 milhões de toneladas, reforçando seu papel como principal amortecedor do sistema global.
Para a safra 2026/27, sob condições climáticas consideradas normais, a oferta de cana no Centro-Sul é projetada em cerca de 635 milhões de toneladas, com produtividade média estimada em 78,5 t/ha.
Esse cenário aponta para mais um ano de oferta abundante, reduzindo significativamente o risco de um choque estrutural de abastecimento, mesmo diante de eventuais perdas localizadas no Hemisfério Norte.
No Nordeste brasileiro, as condições climáticas têm sido favoráveis ao desenvolvimento da cana-de-açúcar. As chuvas registradas ao longo deste ano ocorreram de forma consistente e bem distribuída, sustentando boas perspectivas para a safra atual.
Mesmo com a possibilidade de formação de um evento El Niño nos próximos meses, a expectativa é de uma produção superior à do ciclo anterior. Isso porque uma eventual redução das chuvas a partir de setembro teria impacto limitado sobre a safra 2026/27, já em estágio avançado de desenvolvimento, podendo afetar principalmente o potencial produtivo da temporada 2027/28.
No Centro-Sul do Brasil, os efeitos do El Niño tendem a variar conforme a região. Historicamente, o fenômeno está associado ao aumento das chuvas no Sul do país, incluindo o Paraná. Nesse cenário, a maior umidade pode reduzir os níveis de açúcar total recuperável (ATR), impactando a qualidade da matéria-prima destinada à produção de açúcar e etanol.
Já nos outros estados produtores do Centro-Sul (São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso) não há uma correlação histórica consistente entre eventos de El Niño e alterações significativas nos padrões de precipitação. Em casos de episódios mais intensos, entretanto, o fenômeno pode favorecer volumes de chuva acima da média durante os meses de verão.
Embora isso possa dificultar a colheita e a moagem da cana mais tardia, especialmente em áreas com menor capacidade operacional, a maior disponibilidade hídrica tende a beneficiar o desenvolvimento dos canaviais, contribuindo para ganhos de produtividade na safra 2027/28.
Do ponto de vista dos preços, estima-se que o piso efetivo do açúcar esteja próximo de 13,50 centavos de dólar por libra-peso, nível que equivale a um preço do etanol hidratado ex-mill ao redor de R$ 2,20 por litro.
Nesse patamar, a paridade tende a favorecer o consumo de etanol em grande parte do Brasil, ajudando a absorver excedentes de cana e, indiretamente, aliviar a pressão sobre o fluxo de exportação de açúcar.
Caso o El Niño se estabeleça mais tardiamente ou apresente intensidade limitada, os impactos sobre a produção de açúcar no Hemisfério Norte tendem a ser relativamente modestos.
Nesse cenário, a oferta global permaneceria confortável ao longo da safra 2026/27, reduzindo a necessidade de um prêmio climático mais expressivo nos preços. Assim, nossa expectativa é que o mercado continue operando dentro de uma faixa entre 13,50 e 15,50 centavos de dólar por libra-peso.
Por outro lado, caso o fenômeno se antecipe e se manifeste com maior intensidade, afetando de forma mais severa a produção em importantes países produtores, como Índia, Tailândia e México, o mercado poderá incorporar um prêmio de risco mais significativo.
Eventuais perdas de produção nesses países teriam potencial para impulsionar as cotações acima da faixa-base projetada, levando os preços para patamares próximos de 16,50 centavos de dólar por libra-peso.
Ainda assim, níveis de preço nessa magnitude tendem a melhorar a atratividade econômica da produção de açúcar em relação ao etanol no Brasil. Nesse contexto, seria esperado um ajuste do mix das usinas em favor da fabricação de açúcar, ampliando a oferta exportável do país e compensando parte das perdas observadas no Hemisfério Norte.
Esse movimento funcionaria como um mecanismo natural de equilíbrio do mercado, limitando uma alta mais acentuada e mantendo as cotações em torno de 16,50 a 17,0 centavos de dólar por libra-peso. No momento, entretanto, avaliamos que a probabilidade de um cenário dessa magnitude ainda é relativamente baixa.
Um deslocamento mais relevante desse teto de preços exigiria um choque adicional vindo do mercado de energia. Um exemplo seria uma escalada prolongada das tensões no Oriente Médio, com interrupções significativas no fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz e consequente avanço das cotações do petróleo para níveis próximos de US$ 150 por barril.
Em um cenário de repasse integral dos custos de importação de combustíveis ao mercado brasileiro, o piso de preços do açúcar poderia migrar para algo mais próximo de 17,00 centavos de dólar por libra-peso.
Apesar dessa possibilidade, consideramos esse cenário muito pouco provável neste momento, especialmente diante das sinalizações recentes da política de combustíveis e do ambiente geopolítico atual.
O recente repasse de preço liberado pelo governo, por exemplo, permitiu que a Petrobras aumentasse o preço da gasolina em R$ 0,04 por litro. A liberação de um subsídio de R$ 0,44/L para a empresa petroleira evitou que a Petrobras repassasse todo o aumento de R$ 0,48/L aos consumidores.
Assim, embora o aumento da percepção de risco climático e geopolítico associado ao El Niño seja suficiente para gerar repiques de preços no curto prazo, os episódios recentes indicam que esses movimentos tendem a ser técnicos e de curta duração, perdendo força à medida que o risco não se materializa ou que outros vetores, como energia, logística e câmbio, se ajustam.
Diante disso, eventuais altas pontuais impulsionadas por riscos climáticos ou macroeconômicos podem representar janelas interessantes de fixação de preços para as usinas.
Mais do que antecipar movimentos extremos, o cenário atual reforça a importância de monitorar de perto a evolução do clima e do complexo energético, sem perder de vista que, até aqui, os fundamentos continuam apontando para um mercado confortavelmente abastecido, no qual a volatilidade tende a abrir oportunidades táticas, mas não necessariamente a alterar a tendência estrutural do açúcar.
* Carlos Murilo Barros de Mello é economista e, atualmente, é chefe de açúcar para as Américas na Hedgepoint Global Markets
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