A elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% (E32) representa um alívio importante para o setor sucroenergético em um momento de forte expansão da oferta, mas não será suficiente para absorver sozinha toda a produção adicional prevista para a safra 2026/27.
A avaliação é do CEO da SCA Brasil, Martinho Ono, que estimou que a medida criará um mercado adicional de cerca de 500 milhões de litros de etanol até o fim do ano-safra.
Segundo Ono, caso a mistura vigorasse durante uma temporada completa, o ganho de demanda seria próximo de 1 bilhão de litros. Como a implementação ocorrerá em 1º de agosto e terá vigência inicial de seis meses, o impacto em 2026/27 deverá ser menor.
Porém, para o executivo, a medida chega em um momento oportuno, marcado por uma oferta recorde de etanol de cana e de milho. “Há uma pressão de oferta, e estamos procurando demanda”, disse.
Ainda assim, ele ponderou que o E32 representa apenas parte da solução para uma safra cuja produção deverá crescer cerca de 4 bilhões de litros em relação ao ciclo anterior.
Ono avalia que o restante desse excedente deverá ser absorvido pelo aumento das exportações, pela menor entrada de etanol importado e pelo crescimento do consumo doméstico de etanol hidratado, impulsionado pela queda da relação de preços frente à gasolina.
Segundo ele, a SCA Brasil trabalha com expectativa de exportações 500 milhões de litros superiores às do ano passado, enquanto os preços mais competitivos do biocombustível tendem a inibir importações, sobretudo do produto dos Estados Unidos para as regiões Norte e Nordeste.
Além disso, o executivo acredita que o consumo interno de hidratado ganhará força com a melhora da competitividade do combustível. Em São Paulo, exemplificou, a relação entre o preço do etanol e o da gasolina passou da faixa de 67% a 70% para cerca de 58% a 59%, incentivando a migração dos consumidores.
“Esses três fatores combinados – aumento de demanda com mistura, maior exportação e menor importação – resolvem quase 50% desses 4 bilhões de litros”, afirmou.
Segundo ele, os 2 bilhões de litros restantes deverão ser absorvidos pelo avanço das vendas de hidratado em estados onde o combustível historicamente tem menor participação, como Rio de Janeiro, Bahia, Distrito Federal e Santa Catarina.
Na avaliação do CEO da SCA Brasil, o E32 também tende a contribuir para uma recuperação gradual dos preços do etanol, embora esse movimento dependa, sobretudo, do aumento do consumo.
Segundo ele, o setor precisa elevar as vendas mensais de hidratado do intervalo entre 1,7 bilhão e 1,8 bilhão de litros para cerca de 2 bilhões de litros. “A partir do instante em que conquistarmos essa meta de volume, pode ter uma recuperação do preço lá adiante”, disse.
Para Ono, a adoção do E32 não deverá provocar mudanças relevantes no mix de produção das usinas, porque esse movimento já ocorreu em função da menor atratividade do açúcar.
Segundo ele, a participação da sacarose destinada à fabricação de açúcar caiu de pouco mais de 50% na safra passada para aproximadamente 45% nos primeiros meses do ciclo atual. “Já estamos fazendo menos açúcar e mais etanol”, afirmou.
O executivo ponderou, porém, que uma eventual recuperação das cotações internacionais do açúcar, caso se confirmem problemas climáticos em grandes produtores asiáticos, ainda pode levar parte das usinas a ampliar a produção do adoçante na segunda metade da safra.
O CEO da SCA Brasil também destacou que o aumento da mistura tende a reduzir, ainda que parcialmente, a necessidade de importação de gasolina. Segundo ele, o Brasil ainda importa entre 8% e 10% do combustível consumido internamente, o equivalente a aproximadamente 2,5 bilhões de litros por ano.
Embora o efeito seja limitado, o E32 contribui para reduzir parte dessa dependência externa e melhora a balança comercial do país. “Esse mercado novo ameniza um pedacinho da importação”, afirmou.