A Odebrecht Agroindustrial (ODB Agro) anunciou oficialmente que injetará mais dinheiro nas operações das usinas sucroenergéticas.
Os novos recursos entrarão por meio na injeção direta de dinheiro no caixa da companhia através do aumento de capital. Segundo o presidente da ODB Agro, Luiz de Mendonça Mendonça, em entrevista ao Valor Econômico, o novo aporte deve superar a capitalização realizada no último ano, que totalizou R$ 836 milhões. “A intenção é que essa capitalização traga mudanças importantes na estrutura de capital da companhia, atualmente formada em quase sua totalidade por dívida”, afirmou.
A empresa vem deixando evidente que, apesar da situação crítica das suas contas e da calamidade do setor, não está medindo esforços na tentativa de fazer o negócio ficar saudável.
A situação da ODB Agro é típica de muitas usinas: carrega um custo elevado das dívidas e não consegue vender os produtos com preço suficiente para cobrir as operações. A principal diferença está na capacidade do grupo de seguir colocando dinheiro e manter a confiança dos credores.
Assim, a empresa faz questão de ressaltar que “esse aporte se dará apesar da grave crise econômico-financeira enfrentada pelo setor sucroenergético, uma das piores de sua história, reflexo sobretudo da política governamental dos últimos anos”.
De acordo com o presidente, o destino dos novos recursos não será para a amortização das dívidas, mas para a renovação dos canaviais. A expectativa de Mendonça é que R$ 400 milhões sejam destinados anualmente com esse objetivo.
Essa decisão vai de acordo com as medidas estratégicas anunciadas pela companhia. A empresa afirmou que planejava investir menos, mas focar em áreas de renovação. O objetivo é mudar o mix de plantio, com participação prioritária de cana de 18 meses e utilização de novos implementos e equipamentos que possibilitam o aumento do rendimento médio das colhedoras.
Veja também:
A perspectiva de um novo aporte e a injeção direta de capital, contudo, não devem ser os únicos fatores a influenciar o próximo resultado financeiro da ODB Agro. Após o encerramento do último exercício fiscal, em março desse ano, a empresa obteve R$ 600 milhões com operações de crédito rural, recebíveis e capital de giro. A isso se somava, de acordo com documento disponibilizado pela companhia, uma negociação em andamento com instituições financeiras parceiras para alocação de recursos de R$ 1,6 bilhão.
Vale observar que, em novembro de 2014, a Odebrecht conseguiu capitalizar R$ 1,7 bilhão, R$ 836 milhões deles em recursos financeiros aportados pela ODB Agro por meio de sua controladora Odebrecht e R$ 827 milhões aportados pela OAI INV com créditos mantidos com a companhia.
Na ocasião, a empresa afirmou que a estruturação de operações com clientes e fornecedores permitiu a redução das necessidades de capital de giro em R$ 792 milhões. Além disso, acrescentou que o alongamento do prazo de pagamento das dívidas alocadas no curto e longo prazo no valor de R$ 7,2 bilhões teve impacto direto no caixa da safra 2014/15, de R$ 1,8 bilhão.
Considerada a segunda maior produtora de etanol do Brasil, a empresa tem acumulado prejuízos desde sua criação, em 2007. De acordo com o último balanço divulgado, o endividamento acumulado da companhia soma R$ 13,5 bilhões.
A sequência de prejuízos da empresa só foi interrompida na safra 2013/14, quando conseguiu um lucro de R$ 75 milhões, viabilizado pela venda — para o próprio grupo Odebrecht — dos ativos de energia. Não fosse essa operação, a companhia teria registrado uma perda de aproximadamente R$ 1,8 bilhão.
Esses mesmos ativos de energia, contudo, devem voltar para o controle da sucroalcooleira. Mendonça afirmou que a empresa tem interesse nesse aporte dos ativos de cogeração. “A dívida desse negócio é relativamente pequena e está no longo prazo. Além disso, sua geração de caixa é importante, na casa dos R$ 300 milhões anuais”, afirmou.
Nesta safra, a Odebrecht Agroindustrial deve moer 28 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. Esse volume é 18% maior na comparação com 2014/15 segundo Luiz de Mendonça. Em entrevista à Agência Estado, realizada em julho, ele afirmou que o investimento no atual ciclo será de R$ 600 milhões.
Mendonça, assim como já havia feito em julho, nega que o andamento da Operação Lava-Jato – que resultou na prisão do presidente do grupo, Marcelo Odebrecht – esteja afetando os negócios da companhia. A decisão de colocar recursos próprios em detrimento de novos empréstimos, de acordo com ele, não tem relações com possíveis desdobramentos do escândalo.
“Não estamos buscando dinheiro novo. Já havíamos concluído os investimentos em expansão industrial. Esse aumento de capital vai tornar as discussões com o mercado financeiro mais fáceis”, garante.
Renata Bossle – novaCana.com