Etanol: Mercado

Etanol: Mercado

Diretor da Alta Mogiana defende soluções de curto prazo para o mercado de etanol

Carro puro a etanol, aumento do teor alcóolico do renovável e conscientização sobre octanagem foram algumas das possibilidades levantadas pelo executivo


NovaCana - Publicado: 24 Out 2024 - 08:50

A produção de combustível sustentável de aviação (SAF), biocombustível marítimo (biobunker), biometano e outros biocombustíveis que podem ser extraídos da cana e do milho estão presentes em discussões feitas pelas usinas de etanol. As companhias mais capitalizadas, inclusive, já investem pesado nestes produtos.

Porém, a visão do diretor comercial da Alta Mogiana, Luiz Gustavo Junqueira, é cautelosa quanto a esta tendência. Para ele, os novos usos do etanol ainda devem levar “um pouco de tempo” para serem efetivados.

“Dados os grandes desafios com SAF, bunkers e outros, gostaríamos de discutir soluções de curto prazo, com menos investimento e menos risco, para que a transição para novos usos ocorra de forma mais ordenada”, disse ele, durante a 24ª edição da Conferência Internacional Datagro sobre açúcar e etanol.

Uma das sugestões dada por Junqueira é o aproveitamento da capacidade das colunas de destilação das usinas e o aumento do teor alcoólico do etanol. “Sabemos que o hidratado tem 7% de água. Na nossa visão, isso acarreta limitantes ao produto: nós estamos transportando e armazenando água, o que não é muito eficiente. Poderíamos armazenar mais etanol”, acredita.

Ele justifica que o consumidor não está interessado apenas em preço, mas também em comodidade e que abastecer com um etanol com maior gradação alcóolica seria benéfico. “Digamos que mudemos a padronização do etanol a nível nacional para 95%; é algo totalmente plausível, pois nossas colunas de destilação suportam isso. Nas que não for possível, pode-se colocar um pouco de anidro no tanque de hidratado para aumentar o teor alcoólico”, explica.

Com isso, segundo Junqueira, o carro teria mais autonomia e o consumidor precisaria ir menos vezes ao posto. “Isso é conveniência. A eficiência [energética, em relação à gasolina] poderia sair de 70% para 75%. Automaticamente, ganhar 5% na paridade teria muito valor para o mercado”, complementa.

Para ele, esta mudança não exige nenhum grande de investimento por parte dos produtores, representando apenas um pouco de perda de capacidade de produção, pois este etanol precisaria ficar mais tempo na coluna de destilação. “Mas creio que os benefícios com um carro mais eficiente compensam os dissabores de uma produção ligeiramente menor”, defende.

Além disso, Junqueira defende que o consumidor conheça a octanagem do etanol e a emissão de carbono do produto. “Fora do país, a gasolina é vendida por diferentes preços conforme a octanagem – quanto maior ela é, maior o preço. Esta informação é visível nos postos dos EUA e na Europa”, exemplifica.

Segundo o executivo, a octanagem do hidratado é significativamente maior que a da gasolina. “A gasolina pura não chega a 87 octanas e o etanol tem 110 octanas. Por que essa informação não está disponível ao consumidor?”, questiona.

Além disso, ele defende que seja informada a quantidade de carbono emitida por cada combustível. “Precisamos dar a informação. Vamos deixar o consumidor escolher o combustível que quer abastecer não só por conveniência e preço, mas também por qualidade e sustentabilidade”, considera.

Uma última provocação do diretor comercial se destinou às montadoras: “Se existe mercado para um [veículo] puro a gasolina e um puro elétrico, por que não tem um a puro etanol? Por que nenhuma montadora se atreveu a fazer um automóvel com a otimização da sua capacidade energética voltada para o etanol, sendo que claramente temos um ganho de eficiência quando fazemos uma adaptação para o combustível que ele está usando?”

Ele acredita que, apenas com uma mudança na regulagem do motor para aproveitar a maior octanagem do biocombustível, a paridade na relação entre etanol e gasolina sairia de 70% para 80%. “Por que o Brasil não pode ter um carro popular motivo a etanol? Será que o governo federal não estaria interessado em estimular um carro assim, principalmente um popular? Eu acho que sim”, afirma.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana