A maioria do mercado financeiro ainda não incorporou em seus cenários de inflação o risco de aumento da Contribuição Sobre o Domínio Econômico (Cide) sobre os combustíveis, mas economistas alertam para o forte impacto na inflação que tal medida pode provocar, estimado em até 0,8 ponto porcentual no IPCA. Por isso, profissionais consultados pelo Broadcast acreditam que o ajuste da Cide não entrou no pacote fiscal anunciado pelo governo na última segunda-feira, mas segue como carta na manga caso a recriação da CPMF não seja aprovada no Congresso.
Para dar mais competitividade ao etanol, o setor quer que o governo eleve a Cide de R$ 0,10 para R$ 0,60 por litro. Porém, de acordo com o presidente da frente parlamentar do Setor Sucroenergético, Sérgio de Souza (PMDB-PR), o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que é preciso esperar um melhor momento político para a medida. Qualquer mudança na Cide está sujeita à noventena, ou seja, só pode entrar em vigor três meses depois do anúncio.
Para o analista Márcio Milan, da Tendências Consultoria Integrada, a chance da Cide subir este ano é bastante reduzida. "Mesmo que aconteça, devido à noventena, o efeito só começaria a valer em dezembro, deixando algum resíduo para a inflação de 2016", disse. Caso os R$ 0,60 se confirmem, Milan estima impacto de 0,70 ponto porcentual no IPCA. Se a alta vier ainda este ano, elevará a projeção de IPCA da Tendências de 9,60% para 10,30%. Já se o reajuste ficar concentrado em 2016, a previsão passa de 5,40% para 6,10%, conforme a consultoria.
Por enquanto, o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, acredita ser mais provável uma elevação nos preços da gasolina na faixa de 7% na bomba no final deste ano pela Petrobras, em vez de reajuste na Cide. Com isso, o aumento total no valor do combustível em 2015 somaria 18%. "Um dos dois deve acontecer até o final do ano. No caso da Petrobras, tem uma questão de reputação, tem alguma defasagem, o câmbio desvalorizou, o que deve levar a uma postura diferente da tomada no passado recente de não repassar. E também tem uma preocupação enorme do governo de aumentar a arrecadação, principalmente em 2016", considerou.
Romão disse não acreditar na aplicação dos dois aumentos este ano, pois entende que o governo tentará evitar entregar uma inflação de dois dígitos em 2015. "Nesse cenário, 9,9% seria bem menos pior que 10%. Sei que é absolutamente psicológico", disse o economista, que estima IPCA de 9,60% em 2015.
Se o aumento de R$ 0,60 for autorizado, o economista da LCA prevê impacto de 0,80 ponto no IPCA, com a gasolina subindo 19,4%. No entanto, Romão acredita que um aumento da Cide virá no ano que vem e ser da ordem de R$ 0,40. "Nosso cenário base para 2016 já leva em conta esta segunda hipótese (de R$ 0,40). Esperamos alta de cerca de 9,0% para a gasolina no ano que vem, em um IPCA de 5,5%", explicou.
Para o economista-sênior do Haitong, Flávio Serrano, a alta da Cide pode ser a alternativa do governo em caso de fracasso da aprovação da CPMF e, por isso, ainda não está contemplada nas suas projeções de inflação. E, se vier, deve ocorrer somente no próximo ano. De todo modo, caso se concretize o aumento para R$ 0,60 por litro, resultaria em aumento de 14% no preço da gasolina ao consumidor e 0,55 ponto de impacto no IPCA. "Nesse caso, o IPCA iria para em torno de 6%", disse Serrano, que atualmente espera IPCA de 5,6% em 2016.
Cálculo parecido tem o economista da Parallaxis, Rafael Leão. "A gasolina sairia de R$ 3,27 para R$ 3,77, aumento de 15,3%. Isso geraria um impacto no IPCA de até 0,6 ponto. Praticamente o dobro do impacto do reajuste da gasolina de fevereiro", afirmou. O economista-chefe da Kinea Investimentos, Luís Fernando Horta, não descarta a possibilidade de aumento da Cide este ano, em novembro. "Não é meu cenário base", admitiu. Segundo ele, um reajuste de R$ 0,60 provocaria uma elevação de 17% nos preços da gasolina e efeito na inflação seria de 0,70 ponto.
Em tese, o aumento da Cide na gasolina teria efeito expressivo e direto no IPCA, diferentemente do que ocorreria no caso de um aumento da contribuição no óleo diesel. A gasolina tem peso de 3,8762% no IPCA contra 0,13% do diesel.
Por outro lado, dizem os profissionais, um aumento no preço do diesel tem impactos indiretos importantes, que se disseminam na economia em razão do repasse do custo maior com frete. "O impacto menor (do aumento da Cide) no diesel que na gasolina é autoengano, pois sobem os custos de transporte e o risco de elevação de tarifas de transporte urbano, por exemplo", disse o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio Souza Leal. Em suas simulações, o impacto da alta da Cide para R$ 0,60 por litro da gasolina no IPCA pode chegar a 0,80 ponto.
Denise Abarca e Maria Regina Silva