NovaCana

Os desafios da cogeração na visão da Unica

zilmar souza unica bioeletricidade 261114“Quem é que entra nesse negócio, sendo que em 2018 é a previsão de ficar pronta a sua conexão e em 2019 tem que iniciar o fornecimento? Uma escorregada neste planejamento e todo o ônus, todo esse risco, fica em cima do gerador”

NovaCana 7 min de leitura

Num evento que reuniu líderes do setor sucroenergético e da cadeia da biomassa em São Paulo na primeira semana de novembro, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) deixou claro o que espera do governo e quais são suas demandas para o setor de bioeletricidade no Brasil.

Em painel que discutiu os desafios da biomassa, o gerente de bioeletricidade da associação, Zilmar Souza, soltou uma enxurrada de críticas e cobrou uma política energética mais “concatenada” com o setor sucroalcooleiro como um todo.

Entre os diversos ataques sobrou —mais uma vez — para as “super dimensionadas” projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) quanto ao potencial da cana-de-açúcar para a geração de energia elétrica. “A Unica nem faz mais estudo de potencial. Estamos usando o Plano Decenal de Energia (PDE), ele tem sido muito mais otimista que as previsões do próprio setor.”

Confira a seguir um resumo da apresentação e a série de críticas apresentadas durante o evento que reuniu lideranças ligadas a bioeletricidade.

Num evento que reuniu líderes do setor sucroenergético e da cadeia da biomassa em São Paulo na primeira semana de novembro, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) deixou claro o que espera do governo e quais são suas demandas para o setor de bioeletricidade no Brasil.

Em painel que discutiu os desafios da biomassa, o gerente de bioeletricidade da associação, Zilmar Souza, soltou uma enxurrada de críticas e cobrou uma política energética mais “concatenada” com o setor sucroalcooleiro como um todo.

Leilão A-5

A possibilidade de um leilão “para a biomassa”, não afastou as incertezas e preocupações do setor quanto ao certame. Souza elenca ao menos dois pontos que podem inviabilizar os projetos de bioeletricidade.

Um deles é o preço teto do leilão, estipulado em R$ 209 por megawatt/hora (MWh). O outro é o risco de transmissão, que agora, passa a ser de responsabilidade do gerador.

“O preço aumentou de R$ 197 para R$ 209 MWh, em parte, porque a Unica andou reclamando do risco de transmissão que passou para o gerador”, lembrou Souza.

Segundo o executivo da Unica, por conta dos eventos ocorridos com as eólicas, cujas instalações de transmissão não ficaram prontas a tempo, “quem acabou arcando com isso foi o mercado consumidor”.

“Este risco foi resolvido da seguinte forma: vamos transferi-lo para o gerador. Então, se por acaso a instalação de transmissão, de distribuição não ficar pronta a tempo, lembrando que o início de fornecimento é 2019, você não terá direito a receber renda fixa, mesmo que você não tenha dado causa daquele atraso, ou que tenha sido uma questão do Operador Nacional do Sistema (ONS), da EPE ou da transmissora. É um risco, uma incerteza que foi tirada do colo do consumidor e colocada no gerador”, complementou.

Souza disse ainda que o valor de R$ 209/MWh é uma tentativa de “precificar uma incerteza”, já que as condições e os prazos estabelecidos pelo governo são, em geral, curtos.

“Só para citar um exemplo: os associados da Unica estão recebendo informações de acesso das distribuidoras, que estão dizendo que o início de fornecimento é 2019, mas a conexão pode ficar pronta em 2018, dependendo de um estudo que será elaborado pela EPE em conjunto com a ONS”, disse. “Em outras palavras, quem é que entra nesse negócio, sendo que 2018 é a previsão de ficar pronta a sua conexão e em 2019 você tem que iniciar o fornecimento? Uma escorregada neste planejamento e todo o ônus, todo esse risco, fica em cima do gerador”, completou.

Além disso, segundo Souza, o preço teto dos leilões precisa ser trabalhado de maneira “mais adequada”. “Tem que ser trazido a um valor presente, tirando toda esta incerteza”, comentou.

Segundo ele, é preciso pensar numa política “concatenada com o setor [sucroenergético] como um todo”, o que necessariamente inclui o etanol.

“Se você não tem expansão de canaviais, só resta fazer o retrofit puro. Então, você vai ter que trocar caldeira e turbogerador para atender a exportação de energia elétrica”, afirmou.

“Neste caso, pode ser que os R$ 209/MWh, mais este risco de transmissão, não sejam suficientes para garantir a viabilidade do projeto. E hoje, infelizmente, estamos falando de retrofit, porque o setor praticamente travou em expansão de canaviais e de novas unidades na fronteira agrícola”, advertiu.

Política “stop and go”

Um dos pontos levantados por Souza durante o painel de discussões do evento, foi a atual política “stop and go” adotada pelo governo, a qual trava o desenvolvimento dos projetos de cogeração.

Segundo estimativas da Unica, das 389 usinas em operação – os dados são de dezembro de 2013 – apenas 170 exportam energia ao sistema nacional.

“Temos mais de 200 usinas prontas, que podem fazer o retrofit e com o mesmo bagaço gerar energia não só para o consumo próprio, mas também para exportação. Mas para isso, precisamos de uma remuneração adequada e previsível”, disse.

Para Souza, no caso da biomassa, é necessário que o preço teto de R$ 209/MWh melhore ou pelo menos seja mantido.

“Isso vai evitar aquela política do ‘stop and go’. Uma hora expande, depois encolhe. Isso acaba com a cadeia de Sertãozinho e Piracicaba. Ninguém sobrevive assim”.

Redução do PDL no mercado de curto prazo

Em uma conversa com o portal NovaCana, Souza voltou a falar sobre a proposta da Aneel de reduzir drasticamente o PDL máximo de R$ 822,83/MWh para R$ 388,04/MWh para o mercado de curto prazo a partir de 2015.

“Este é um ponto de atenção. Se isso realmente acontecer, se o preço teto regulatório em janeiro cair mais de 50%, a geração adicional que vimos como bem-vinda na entressafra será desestimulada”, argumentou.

De janeiro a março, a cogeração das usinas cresceu 70% em relação ao mesmo período do ano anterior, estimulada, fortemente, pelo PDL aquecido no mercado de curto prazo.

“Então agora você vai ter uma canetada, uma redução deste preço, o que causa bastante preocupação do setor. Por quê? Geramos uma energia adicional que ajudou não só o setor da biomassa, mas num cenário de hidrologia ajudou o setor elétrico como um todo”.

Potencial

O gerente de bioeletricidade da Unica falou ainda sobre as projeções “super dimensionadas” da EPE, e comentou o potencial da cana-de-açúcar, em especial, da palha, para a geração de energia elétrica.

“A Unica nem faz mais estudo de potencial. Estamos usando o Plano Decenal de Energia (PDE), até porque ele tem sido muito mais otimista que as previsões do próprio setor”, comentou.

Como exemplo, Souza citou a estimativa do plano quanto à moagem de cana em 2022. Segundo o documento, até este período, o Brasil deverá moer 1 bilhão de toneladas de cana-de-açúcar. “[O PDE] não leva em consideração que não tem uma usina nova sendo construída hoje para entrar em regime de operação em 5, 6 e 7 anos. É um ponto de ficção. Passamos a mostrar o potencial dado pela EPE porque ele está super dimensionado”, disse.

Caso a projeção da EPE, considerada otimista pelo setor, se concretize, o potencial de cogeração do setor sucroalcooleiro passará de 1,7 gigawatt (GW) médios, o equivalente hoje a 3% do consumo final, para 22 GW médios ou 16% do consumo em 2022.

“Desse potencial, de acordo com a EPE, metade viria da palha. A palha tem um poder calorífico quase duas vezes maior que o do bagaço. É um potencial gigantesco e significativo para a sociedade”, completou.

Leonardo Siqueira – NovaCana

Compartilhar: