Em meio a um momento de retomada de preços e início de uma fase que promete trazer retorno financeiro, alguns projetos que poderiam dar novo fôlego às usinas permanecem na fila para alcançarem escala
O tempo parece ser o maior inimigo do desenvolvimento das tecnologias sucroenergéticas. Em meio a um momento de retomada de preços e início de uma fase que promete trazer retorno financeiro, alguns projetos que poderiam dar novo fôlego às usinas permanecem na fila para alcançarem escala.
É o caso da cana-energia que, juntamente com etanol celulósico, apresenta-se, talvez, como uma das revoluções mais aguardadas atualmente. O etanol celulósico está com seu cronograma atrasado em relação ao que esperavam os grandes players do setor. Parte disso, em função da falta de matéria-prima adequada à sua produção. É aí que entra a cana-energia, a menina dos olhos dos canaviais. Há um senso de urgência para que o avanço de ambas tecnologias andem lado a lado.
Parece ficção científica, mas, em teoria, a cana-energia poderia produzir 232% mais etanol por hectare na geração do combustível. Além disso, a espécie possui até quatro vezes mais bagaço por tonelada, um trunfo para o etanol de segunda geração.
Na teoria, as muitas vantagens da cana-energia são conhecidas. Na prática, o avanço real da cultura para a larga escala permanece uma incógnita. Na visão de quem aposta no desenvolvimento da planta, a tecnologia está aí e as primeiras variedades também. O que não parece estar presente, no entanto, são muitos players com vontade de levar o setor à sua próxima etapa, especialmente agora, com o preço da energia elétrica batendo no piso.
A nova matéria-prima ainda esbarra na falta de auxílio de programas governamentais, com reclamações diretas ao BNDES, que não estaria preparado para lidar com as particularidades de quem quer investir na cana-energia.
Apesar dos desafios, os avanços estão acontecendo e há, inclusive, indicativos de reativações de unidades para trabalhar exclusivamente com o insumo.
O NovaCana ouviu os principais players do mercado de cana-energia e apresenta a seguir uma visão atualizada sobre o tempo necessário para a planta dominar os canaviais brasileiros.
O tempo parece ser o maior inimigo do desenvolvimento das tecnologias sucroenergéticas. Em meio a um momento de retomada de preços e início de uma fase que promete trazer retorno financeiro, alguns projetos que poderiam dar novo fôlego às usinas permanecem na fila para alcançarem escala.
É o caso da cana-energia que, juntamente com etanol celulósico, apresenta-se, talvez, como uma das revoluções mais aguardadas atualmente. O etanol celulósico está com seu cronograma atrasado em relação ao que esperavam os grandes players do setor. Parte disso, em função da falta de matéria-prima adequada à sua produção. É aí que entra a cana-energia, a menina dos olhos dos canaviais. Há um senso de urgência para que o avanço de ambas tecnologias andem lado a lado.
Parece ficção científica, mas, em teoria, a cana-energia poderia produzir 232% mais etanol por hectare na geração do combustível. Além disso, a espécie possui até quatro vezes mais bagaço por tonelada, um trunfo para o etanol de segunda geração.
No entanto, o processo leva tempo e, apesar de bons resultados colhidos até agora, ainda é preciso mais desenvolvimento, segundo as empresas que concentram os principais esforços no desenvolvimento da cana-energia brasileira.
Quadro atual
Vignis e Granbio encabeçam os projetos de cana-energia nacionais. Uma é mais avançada em pesquisa. Outra, possui muito mais recursos. Porém para ambas é claro: “tudo isso é muito novo e em cana tudo é muito lento”, nas palavras do diretor-presidente da Vignis, Luis Claudio Rubio.
Futuro de incógnitas
Os cinco anos que já se passaram desde que as pesquisas mais avançadas sobre a cultura começaram em 2011, equivalem a um terço do tempo necessário para uma nova variedade de cana-de-açúcar se firmar no mercado, de acordo com dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).
Quem está trabalhando com a cana-energia garante que a planta levará menos do que os 15 anos previstos pelo CTC para ser bem aceita pelo mercado, à despeito do que acontece com outras variedades. No entanto, não é oferecida uma estimativa exata, admite-se apenas que “não é possível driblar o tempo da natureza”.
Como as pesquisas dependem do ciclo da cana, essa é a única maneira de entender as características e o comportamento do vegetal, assim como estabelecer quais são as melhores práticas para o manejo e tratos culturais. Por não haver culturas anteriores, a base de comparação está sendo criada agora. “Tem o primeiro corte. O segundo tem de ser melhor, o terceiro também, e assim por diante. Isso é melhoramento genético”, explica Rubio.
Outro elemento que tornam o avanço real uma incógnita é a dependência de fatores externos como aumento da cogeração, do consumo de etanol e, principalmente, do bom funcionamento das tecnologias de segunda geração. “Quando o 2G entrar de fato, que é questão de tempo, ninguém mais vai fazer etanol de cana-de-açúcar”, comenta o diretor agrícola da GranBio, José Bressiani.
A profecia canavieira é a esperança de que haja duas culturas distintas: uma voltada para açúcar e uma para etanol. E apesar de a performance da cana-energia para produção de etanol e eletricidade ser muito superior, as condições de mercado ainda não favorecem essa separação.
Mesmo assim, quem está envolvido no negócio diz que já é um caminho sem volta. “A cana-energia já pegou, pode ter certeza disso”, defende Luis Rubio. Para ele, empresas mais preocupadas com desenvolvimento tecnológico já estão à frente da empreitada e a procura por novos projetos é grande.
Bressiani concorda e diz que se o preço da energia fosse o mesmo de dois anos atrás, haveria ainda mais gente querendo plantar cana-energia. “Os projetos estariam bombando e haveria projeto de cogeração específico para cana-energia”, admite.
Avanços
Atualmente a Vignis mantém os maiores projetos no Brasil, com cerca de 10 mil hectares já plantados e expectativa de chegar aos 14 mil até o fim desse ano. A empresa tem contratos com Quatá, Odebrecht, Zilor e Raízen para fornecimento de cana-energia e com empresas de outros segmentos para fornecimento de energia elétrica.
Informações da Vignis mostram testes avançados na usina Quatá, que recentemente passou uma semana moendo exclusivamente cana-energia, e indicam a reativação de uma planta da Raízen em 2017 para trabalhar exclusivamente com a matéria-prima.
Já a Granbio tem uma fazenda experimental com mil hectares no Alagoas. Metade da área está plantada com experimentos que ocupam de 1 a 5 hectares. Na safra 2015/16 a empresa colheu 200 hectares do total e espera colher o restante na próxima safra. Além disso, a ideia é ter toda a fazenda ocupada por cana-energia até o fim de 2016. A companhia já validou a passagem de cana-energia por uma usina de primeira geração e diz estar moendo a planta junto com a cana-de-açúcar nas instalações alagoanas.
Ambas já estão chegando ao terceiro corte da maior parte dos experimentos obtendo médias de colheita que variam entre 180 e 200 toneladas por hectare, números que estão de acordo com as previsões de evolução dos cortes e das variedades.
Seguindo adiante
Dentro de um cenário promissor, mas ainda cheio de dúvidas resta aos interessados manter o foco na pesquisa e nas inovações. Segundo as duas empresas, o momento atual é de melhorar as práticas agrícolas e a eficiência industrial.
Hoje os quase 10 mil hectares plantados são modestos diante dos milhões que as lavouras de cana-de-açúcar ocupam pelo País, mas os envolvidos são otimistas. De acordo com as contas da Vignis, Zilor e Odebrecht juntas moerão 500 mil toneladas de cana-energia em 2016 e, a partir de 2017, a Raízen também deve consumir uma grande quantidade do insumo na planta que deve ser reativada.
Para José Bressiani, não seria surpresa se em cinco anos a cana-energia tivesse um salto gigantesco no cultivo. “Talvez não seja exagero dizer que nesse tempo teremos 200, 300 mil hectares de cana-energia plantados”, especula. Ele afirma que a Granbio mantém a meta de produzir 1 bilhão de litros de etanol celulósico nos próximos dez a 12 anos e que, para isso, são necessários 50 mil hectares da planta.
“O ponto de partida é fazer tudo igual a cana”, diz o diretor da Granbio. Como cana-energia e cana-de-açúcar dividem um ancestral comum, os tratos culturais e manejos agronômicos de uma funcionam para a outra, mas é possível avançar.
As condições de robustez que fazem com que a cana-energia suporte solos menos férteis e condições adversas, a presença de rizomas e a alta capacidade de perfilhamento vêm sendo acompanhadas detalhadamente para compreender como podem ser levadas ao limite.
Um dos testes que pode ter bastante impacto na produção diz respeito à fertilização. Inicialmente, utilizou-se o mesmo padrão de adubação da cana-de-açúcar, mas, já se sabe que a cana-energia consegue fixar nitrogênio com mais facilidade, inclusive com possibilidade de fixação de nitrogênio atmosférico.
Se essa hipótese for comprovada, será possível reduzir drasticamente os gastos com adubos. Bressiani estima que o corte em adubação nitrogenada pode chegar a 80%.
Tanto na Granbio quanto na Vignis os tratos estão sendo experimentados para se chegar ao nível ótimo de produtividade. Além dos fertilizantes, técnicas de irrigação, plantio e colheita vêm sendo estudadas.
Recentemente descobriu-se que o plantio combinado reduz o custo final da operação. Isso acontece porque os rizomas das raízes da cana fazem com que as linhas próximas se unam eventualmente, aumentando o perfilhamento e a área plantada, o que causa aumento de produtividade ao longo dos cortes.
Outro ponto é que os equipamentos utilizados também precisam deixar de ser protótipos na opinião de ambas as empresas, o que só deve acontecer quando mais usinas decidirem plantar cana-energia e houver demanda real por máquinas.
Atualmente, as empresas trabalham com desenvolvimento de tecnologias próprias ou em parceria com outras companhias. No caso da colheita, por exemplo, etapa em que a situação é mais delicada devido à maior densidade em fibras, a cana-energia já fez colhedoras de grande porte emperrarem devido à grande quantidade de biomassa que entra na máquina.
A Vignis adotou uma forrageira da alemã Krone, com algumas adaptações. A opção pela máquina deu-se pela potência de cerca de 700cv, praticamente o dobro das colhedoras de cana mais potentes do mercado. Com o equipamento em mãos a empresa desenvolveu internamente uma plataforma de colheita para realizar o trabalho no campo.
Já a Granbio tem um trabalho em parceria com a Case New Holland trabalhando com uma colhedora e uma forrageira. A colhedora vem sendo adaptada para lidar com a maior quantidade de biomassa passando pelo equipamento. Houve um aumento do espaço após o picador para que cana caia no elevador e vá para o transbordo sem obstrução. Foi criado também uma plataforma dianteira que colhe a faixa inteira de trabalho, como é feito em colheitas de outras culturas. A forrageira também recebeu melhorias na plataforma para colher toda a faixa de cana diante da máquina.
Faltam políticas públicas
Mesmo com o bom desenvolvimento em pesquisas e tecnologia, o andamento do negócio poderia ser alavancado com o auxílio de programas governamentais. Rubio, da Vignis, queixa-se de nunca ter recebido “R$1 em incentivo para fazer pesquisa”. Ele lembra que já mandou diversos projetos para o BNDES e Finep, além de questionar o julgamento das entidades, ele fala que o banco não está preparado para lidar com empresas como a Vignis.
“Não há linhas de crédito de pesquisa para pequenas e médias empresas. Uma vez quiseram me financiar e pediram 130% de garantia real para um financiamento de R$50 milhões. Se eu tivesse esse dinheiro não estava buscando financiamento”, declara.
Rubio é enfático ao afirmar que apenas grandes grupos têm acesso a essas linhas, como é o caso da Granbio, que tem projetos aprovados pelo Finep e está em fase de contratação de um projeto pelo Paiss Agrícola. Mesmo assim, a empresa acredita ser necessário algum tipo de incentivo para a lavoura. “Para pesquisa tem [incentivo], mas para plantio comercial não. Não sei se vão chegar ligados ao 2G, quando os projetos saírem. Mas acho que faz mais sentido o pacote como um todo”, espera Bressiani.
O BNDES tem diminuído o apoio ao plantio de cana nos últimos anos e não há indicativos de que haverá alguma linha para fomentar o cultivo da cana-energia.
Jorge Mariano – NovaCana