Cana: Plantio

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Dependência de fertilizantes russos deixa Brasil vulnerável a mais taxações dos EUA

Donald Trump aplicou uma tarifa adicional à Índia por comprar petróleo dos russos; novo imposto poderia aumentar preço dos alimentos no Brasil


G1 - Publicado: 07 Ago 2025 - 08:28 | Atualizado: 07 Ago 2025 - 12:00

O Brasil pode ser alvo de novas taxas dos Estados Unidos por comprar fertilizantes da Rússia, seu principal fornecedor. O presidente Donald Trump aplicou uma tarifa adicional à Índia nesta quarta-feira, 6, por comprar petróleo dos russos. Segundo ele, isso contribui “para a manutenção da guerra contra a Ucrânia”.

Com a nova taxa, a tarifa total aplicada à Índia subiu para 50% – empatando com a do Brasil e deixando o país asiático entre os mais taxados por Trump. Ainda na quarta-feira, Trump declarou que mais tarifas podem ser impostas.

Se o Brasil for alvo de algo semelhante, a produção de alimentos no Brasil pode ser afetada, com aumento nos custos para o agricultor e o consumidor, diz o consultor Carlos Cogo. Segundo ele, a dependência da importação do Brasil torna o país “vulnerável” a esses tipos de aumento.

Importação de fertilizantes

No mercado de fertilizantes, existem três insumos que são os mais relevantes, que formam o NPK, aponta o professor Cicero Lima, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). São eles: o nitrogênio (N), que o Brasil importa 95%; o fosfato (P), o qual 75% é comprado no exterior; e o potássio (K), com 91% vindo de fora do país.

Cogo aponta os principais motivos que explicam essa dependência. Segundo ele, faltam matérias-primas no país, não havendo muitas reservas de componentes que são fundamentais para a produção dos fertilizantes, principalmente nitrogênio e potássio.

O potássio, por exemplo, está concentrado em países como Canadá, Rússia e Bielorrússia, que dominam o mercado mundial. Já a indústria nacional de nitrogenados é pequena, porque a produção exige gás natural barato. Assim, o Brasil perde competitividade frente a países como EUA, Rússia e Catar. Por fim, no caso do fosfato, as reservas têm qualidade inferior e são mais caras de explorar.

O especialista ainda cita a demanda elevada. De acordo com Cogo, a produção nacional não consegue atender tudo o que a agricultura brasileira consome de fertilizante, pois, apesar de ser grande produtor de alimentos, o Brasil tem solo pobre em nutrientes. Por isso, precisa de adubação frequente para manter a produtividade.

Por fim, Cogo cita ainda os altos custos. Ele explica que importar sai mais barato porque a logística no Brasil é cara e a infraestrutura é limitada. Essa procura por fertilizante vem, principalmente, de produtos como a soja, milho, café e cana-de-açúcar.

O Brasil tem um Plano Nacional de Fertilizantes, criado em 2022. A meta é produzir entre 45% e 50% do insumo que o país consome até 2050. Para isso, o governo pretende gastar mais de R$ 25 bilhões até 2030, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária.

Para Cogo, são necessários grandes investimentos, incentivos e infraestrutura para aumentar a produção.

Outros fornecedores

A Rússia é o segundo maior produtor mundial de fertilizantes potássicos e nitrogenados e o quarto maior de fosfatados. Em 2024, o país foi o principal fornecedor desses insumos para o Brasil, sendo, de acordo com a consultoria Cogo: 53% de fosfato monoamônico (que fornece nitrogênio e fósforo às plantas); 40% de cloreto de potássio; e 20% de ureia.

“É um volume muito grande para que qualquer outro fornecedor consiga atender à demanda do Brasil”, diz Lima, da FGV.

Trocar a Rússia no fornecimento desses componentes para o Brasil não seria rápido, aponta Cogo. Isso porque seria necessário fazer uma reestruturação logística das compras e realizar negociações diplomáticas para fechar novos acordos e abrir mercados.

Entre as alternativas possíveis de novos vendedores, o Brasil poderia ampliar parcerias com Canadá, Marrocos, Nigéria e outros países do Oriente Médio, afirma Cogo. Mas ele alerta que outros países também buscam evitar sanções e podem disputar os mesmos fornecedores.

Consumo de fertilizantes

O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo. Isso acontece porque o solo do país é quimicamente pobre em nutrientes, principalmente no Cerrado. Segundo Cogo, a região tem baixa disponibilidade de elementos essenciais, como fósforo e potássio, além de ter elevada acidez.

Somado a isso, está o clima tropical do país. O Brasil sofre com chuvas intensas, que favorecem a lixiviação, processo em que os nutrientes são rapidamente perdidos do solo. Isso é diferente do que acontece em países de clima temperado, onde a terra é naturalmente mais fértil e as perdas são menores.

A agricultura intensiva também aumenta a necessidade de fertilizantes. Ela permite várias safras por ano, o que exige reposição constante de nutrientes.

Os cultivos que são voltados para a exportação, como a soja, o milho, a cana-de-açúcar, o café e o algodão, exigem muitos nutrientes. Portanto, precisam de grandes volumes de adubos químicos para manter produtividade.

Vivian Souza