
A Odebrecht fechou um acordo de leniência com a PGR (Procuradoria-Geral da República) e o Ministério Público Federal e 77 ex-executivos assinaram acordos de delação premiada.
Entre eles está Cláudio Melo Filho, ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht. O executivo revelou que a empresa fez pagamentos específicos para políticos em troca de aprovação de uma medida provisória que deu incentivos fiscais para as usinas de etanol.
A medida provisória, segundo delator da Odebrecht, é a 613/2013, que distribuiu um crédito de R$ 21,43 por metro cúbico de etanol dentro PIS/Pasep e de R$ 98,57 em relação à Cofins. Estes valores começaram a ser creditados para as usinas em 1º de setembro de 2013 e continuam a valer para cada litro de etanol vendido até 31 de dezembro de 2016.
O total pago para que a MP fosse aprovada “sem percalços”, chegou a R$ 7 milhões. Segundo o relato, o senador Eunício Oliveira teria recebido R$ 2,1 milhões, outros R$ 4 milhões foram pagos para Romero Jucá e Renan Calheiros entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão para Lúcio Vieira Filho; e R$ 100 mil para Rodrigo Maia.
Em abril de 2013, Melo, que vivia em Brasília, disse ter sido procurado por uma pessoa da Odebrecht para que atuasse com "objetivo de garantir a aprovação do texto vindo do Executivo".
Nesse momento, disse o delator, "solicitou apoio financeiro atrelado à aprovação do texto que interessava à companhia". "No meu entendimento, através de, também estava sendo remunerado para atender aos interesses da companhia", afirmou.
Foi fechado um acordo de R$ 7 milhões em torno da MP.
“Ficou claro na oportunidade que esses pagamentos seriam contrapartidas solicitadas pelo parlamentar para que, mediante a sua atuação e a dos parlamentares já referidos, a aprovação da MP 613 efetivamente ocorresse sem percalços”, diz a delação.
A parte destinada a Eunício, apelidado de "índio" pela empreiteira, foi recebida por um homem identificado como "Ricardo Augusto", um "preposto do senador", segundo o delator. O senador tem um sobrinho com este nome e que administrava empresas de terceirização da qual o peemedebista foi sócio no passado.
Ricardo, diz o relato do ex-diretor, foi ao escritório da Odebrecht para entregar "a senha e o local onde os pagamentos seriam realizados". O valor foi pago em duas parcelas, uma em Brasília e outra em São Paulo, nos dias 24 de outubro de 2013 e 27 de janeiro de 2014.
Para receber sua parte, Jucá indicou Milton Lira, um empresário que já é investigado pela PGR e pela Polícia Federal em outros inquéritos, em desdobramentos da Operação Lava Jato.
Mesmo com os pagamentos, a empresa teve dificuldades para a aprovação da proposta. Filho relata ter tido problemas com Eduardo Cunha, que se opunha a trechos da proposta. Em vários emails, os executivos da empresa conversam sobre a resistência do PMDB em votar a pauta.
No final, a Medida Provisória 613/2013 culminou no projeto de lei de conversão 20/2013 e permitiu a concessão de incentivos tributários aos produtores de etanol e à indústria química. O principal resultado da medida provisória foi fazer com que a Odebrecht conseguisse economizar mais em impostos e isso acabou beneficiando todas as usinas de etanol.
O delator disse que mais pagamentos foram vinculados à tramitação de outras MPs, como a de número 627/2013, que tratava de mudanças no regime de tributação do lucro auferido no exterior. Entre abril e junho de 2014, Melo disse ter recebido "pedido do senador Jucá de pagamento em contrapartida à conversão em lei da MP 627".
A assessoria do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que o senador jamais credenciou, autorizou ou consentiu que "terceiros falassem em seu nome". "Reitera ainda que a chance de se encontrar irregularidades em suas contas pessoais ou eleitorais é zero."
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse desconhecer a delação e nega ter recebido recursos para o PMDB. Jucá também diz que todos os recursos da empresa ao partido foram legais e que ele, na condição de líder do governo, sempre tratou com várias empresas, mas em relação à articulação de projetos que tramitavam na Casa.
Em nota, a assessoria do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirma que todas as doações eleitorais recebidas foram legais e devidamente declaradas ao TSE. "O deputado nega com veemência a acusação de ter participado de qualquer tipo de negociação com a Odebrecht para aprovação de medida provisória ou de outra proposta legislativa. Ele afirma que as declarações veiculadas pela imprensa são absurdas e que nunca recebeu nenhuma vantagem indevida para votar qualquer matéria."
Em nota, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) disse que "nunca autorizou o uso de seu nome por terceiros e jamais recebeu recursos para a aprovação de projetos ou apresentação de emendas legislativas". "A contribuição da Odebrecht, como as demais, fora recebidas e contabilizadas de acordo com a lei. E as contas aprovadas."
Texto: novaCana, Folha de S. Paulo, Reuters e O Globo