A importação de combustíveis pelo Brasil deverá crescer quatro vezes até 2030, estimou nesta quarta-feira a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A estimativa é que a dependência externa de combustíveis no ciclo Otto (gasolina mais etanol) passe dos 32 mil barris por dia (b/d) do cenário atual para 198 mil barris por dia em 2026. Além disso, a importação média de combustíveis do Brasil poderá atingir 1,201 milhão de barris por dia em 2030, alta de 271 por cento ante a média registrada em 2015, de 323 mil barris por dia, disse nesta terça-feira a diretora-geral da autarquia, Magda Chambriard, em evento no Rio de Janeiro.
Segundo estudo apresentado, em 2030, o Brasil pode ter o maior déficit de combustíveis do planeta
O cenário foi calculado considerando que a refinaria do Comperj, em construção pela Petrobras no Rio de Janeiro, com muitos atrasos, não entre em operação conforme o previsto em 2023. Caso a refinaria entre em operação, a média de importações em 2030 deverá atingir 1,142 milhão de b/d.
A Petrobras está em busca de um sócio para concluir as obras da refinaria do Comperj, sem sucesso até o momento.
"Um déficit de 1 milhão de barris por dia não se enfrenta com estoque de três ou cinco dias. A gente vai precisar de mais estratégia e isso vai ter um custo. Se a gente for por esse caminho, alguém vai ter que pagar a conta", Magda Chambriard
O cálculo inclui diesel A, os combustíveis do Ciclo Otto (gasolina e etanol, por exemplo), querosene de aviação, gás liquefeito de petróleo (GLP) e nafta.
"Vai faltar (combustíveis) e essa falta tem que ser suprida por importação... isso tem impactos na logística. O consumidor não mora no porto, mora em diversos pontos do Brasil", alertou Magda, destacando a necessidade do país aprimorar sua infraestrutura de distribuição.
"O Brasil adora diagnósticos e a gente fez um diagnóstico: temos que mitigar risco de desabastecimento”, Magda Chambriard
No caso do diesel A, a importação média brasileira deverá atingir 264 mil barris ao dia em 2026 e a 483 mil b/d em 2030, um avanço de 313 por cento ante a média de 117 mil b/d em 2015, considerando um cenário em que a refinaria do Comperj não entre em operação em 2023. Caso a refinaria esteja operando, a importação média brasileira de diesel A deve atingir 205 mil barris por dia em 2026 e 424 mil b/d em 2030, estimou a ANP.
Se a opção for pelas refinarias, a ANP defende que uma unidade seja instalada no Maranhão, para abastecer o Nordeste, e outra na região do Triângulo Mineiro, para abastecer o Centro-Oeste e parte do Sudeste. Mas se a opção for pela importação, serão necessários investimentos em ampliação da capacidade dos portos que já atuam com combustíveis.
De acordo com Magda, "se vê principalmente" diesel e gasolina entrando por São Luiz, no Maranhão, Suape, em Pernambuco, e São Sebastião, no estado de São Paulo. A executiva afirmou que, se continuar dessa forma, os três portos terão "praticamente" um milhão de barris por dia entrando por eles.
"Diariamente a gente fornece subsídios para discussão dessa carência nos portos, que é absolutamente essencial para o abastecimento dos combustíveis. Fazer algo logo, do contrário, vamos ter problemas", Magda Chambriard
A importação média de combustíveis do Ciclo Otto deverá atingir 408 mil b/d em 2030, alta 1175 por cento ante a média importada em 2015, de 32 mil b/d.
Além da conclusão do Comperj, Magda destacou que o Brasil precisa de outras medidas para atingir a autossuficiência de combustíveis, como a operação máxima da primeira unidade de refino da Refinaria do Nordeste (Rnest), prevista para 2017, e a da segunda unidade, prevista para 2019.
Ela acredita ainda na necessidade de construção de duas outras refinarias. Segundo Magda, o cenário de dependência externa é preocupante e demanda medidas e investimentos urgentes. "Não vamos ter muito tempo para perder nisso", disse a executiva.
De acordo com a Folha de São Paulo, o estudo apresentado considera que a Petrobras não construirá mais as refinarias Premium no Nordeste, projetos que foram pensados para cobrir parte deste déficit, mas foram suspensos diante da crise financeira da estatal e das investigações da Operação Lava Jato.
Conforme publicado pelo G1, Chambriard falou também sobre a necessidade do que ela denominou “estoque estratégico”, em caso de possíveis entreveros que possam surgir em uma situação de um milhão de barris por dia chegando aos três portos.
“Um ponto que não pode ser esquecido. Se chegar a esse número de um milhão de barris (...) dificilmente vai deixar de reconhecer que isso aí é uma operação complicada nos portos e tem muita chance de ter entreveros. E entreveros só vamos solucionar com estoque estratégico. Se a questão ficar complicada, necessariamente vai ter uma conta para pagar em estoque estratégico. É só um sinalzinho amarelo que estamos trazendo para a discussão”, concluiu.
Marta Nogueira
Com informações adicionais do G1, da Agência Estado e do jornal Folha de São Paulo. Edição adicional novaCana.com.