O cenário de desabastecimento crescente para os combustíveis do ciclo Otto (etanol e gasolina) nos próximos dez anos está suscitando um debate cada vez maior dos principais agentes políticos e econômicos envolvidos com o tema
O cenário de desabastecimento crescente para os combustíveis do ciclo Otto (etanol e gasolina) nos próximos dez anos está suscitando um debate cada vez maior dos principais agentes políticos e econômicos envolvidos com o tema. De um lado, a oferta de gasolina não crescerá diante da falta de novos projetos e a infraestrutura para importação do combustível não comporta o crescimento projetado. De outro, a expansão necessária para que o etanol brasileiro ocupe esse espaço esbarra em uma série de problemas.
A discussão aberta entre usinas e governo sobre o assunto avançou na semana passada, durante um evento dos postos de combustíveis, com a presença do diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, Ricardo Dornelles do MME, Luciano Libório, diretor de combustíveis e regulação do Sindicom e o diretor de abastecimento da ANP, Aurélio Amaral.
O NovaCana acompanhou as discussões e resume os argumentos e perspectivas de cada um dos lados a seguir.
O cenário de desabastecimento crescente para os combustíveis do ciclo Otto (etanol e gasolina) nos próximos dez anos está suscitando um debate cada vez maior dos principais agentes políticos e econômicos envolvidos com o tema. De um lado, a oferta de gasolina não crescerá diante da falta de novos projetos e a infraestrutura para importação do combustível não comporta o crescimento projetado. De outro, a expansão necessária para que o etanol brasileiro ocupe esse espaço esbarra em uma série de problemas.
A discussão aberta entre usinas e governo sobre o assunto avançou na semana passada, durante um evento dos postos de combustíveis, com a presença do diretor técnico da Unica, Antonio de Padua Rodrigues, Ricardo Dornelles do MME, Luciano Libório, diretor de combustíveis e regulação do Sindicom e o diretor de abastecimento da ANP, Aurélio Amaral.
O diretor técnico da Unica projetou dois cenários para o déficit na oferta de combustíveis do ciclo Otto para 2024. No cenário pessimista, o buraco será 17,4 bilhões, no cenário de expansão da oferta de etanol, o déficit ficaria em 11,6 bilhões de litros.
A estimativa pessimista da Unica é mais do que o dobro do que prevê o Ministério de Minas e Energia (MME), o qual, depois de revisar seus números, está trabalhando com uma projeção de déficit da ordem de 8,5 bilhões de litros para 2024. Em comparação com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que acredita em uma demanda superior à oferta, no ciclo Otto, de 10,9 bilhões de litros até 34 bilhões de litros para o mesmo ano, o gap previsto pela Unica pode ser considerado intermediário.
A expectativa de uma retração mais aguda da economia brasileira poderia contribuir para que o déficit de combustíveis, desenhado nessas três previsões, diminuísse. No entanto, Padua afirmou que o cálculo da Unica já levou em consideração a redução da atividade econômica, a retração do emplacamento de veículos e a possibilidade de mais cana-de-açúcar sendo destinada ao álcool por causa dos preços.
De acordo com executivo, o eixo que garantirá um futuro proeminente para o etanol envolve quatro áreas: diretriz de longo prazo do governo, reconhecimento dos benefícios positivos ao meio ambiente, desenvolvimento pleno do etanol de segunda geração e ganho de eficiência energética dos motores com o biocombustível.
Ponto de discórdia: política de preços
Um dos pontos em que há menos consenso entre setor produtivo e governo é a política de preços de combustíveis. O diretor técnico da Unica fez uma cobrança ao diretor do MME sobre a previsibilidade desses preços em sua exposição no painel.
“Precisamos de reajustes trimestrais ou semestrais. O que não pode é ficarmos quatro ou cinco anos com os preços congelados, como aconteceu recentemente”, afirmou Padua. Para ele, com uma garantia de que o preço da gasolina seguirá as cotações internacionais do petróleo, o setor sucroalcooleiro renovaria a intenção em investir em novos projetos.
Dornelles, porém, afirmou que teria de ressuscitar o tabelamento para atingir esse objetivo. “Quanto à previsibilidade [de preço], vocês [Unica] estão querendo coisa que nunca tiveram, senão vamos voltar com as garras do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA) para tabelar, usando uma curva paramétrica”, afirmou, aludindo aos parâmetros de fixação de preços usados para corrigir os preços entre junho de 1988 e maio de 1993. Essa política, adotada nos anos de hiperinflação, gera até hoje demandas judiciais contra o governo de usinas que foram à falência por causa da perda de receitas.
Recuando quanto à menção de tabelamento, Dornelles afirmou que a sinalização do governo com relação aos preços já é diferente da verificada no passado recente. “Não posso responder pela Petrobras nem acho que vamos ter mais um reajuste [da gasolina] neste ano, mas o presidente da companhia [Aldemir Bendine] apontou no rumo do realismo tarifário”, afirmou. Com isso, na avaliação de Dornelles, o etanol conseguirá mais fôlego para atrair investimentos.
Para o diretor da Unica, no entanto, os indícios emitidos pelos preços praticados pela companhia ainda são distorcidos. “Estamos sendo penalizados pela volta do subsídio cruzado na Petrobras. Existe sobrepreço de 20% no óleo diesel em relação ao mercado internacional e há déficit de 15% na gasolina vendida. Isso é subsídio cruzado que nos afeta”, afirmou.
O portal NovaCana acompanha com preços diários a diferença entre a gasolina internacional e os preços do mercado interno.
Consenso entre usinas e governo
A surpresa do evento veio nas declarações de Dornelles sobre uma das demandas históricas do setor. O representante do MME reconheceu que o país precisa precificar os benefícios ambientais do etanol. “Está na hora de colocarmos isso no preço, isto tem que ser reconhecido”, afirmou, citando como exemplo o trabalho do médico Paulo Saldiva, que contribuiu para a mensuração desses benefícios.
A iniciativa, na visão de Dornelles, viria na forma de um “imposto ambiental” e, portanto, invariavelmente envolveria “uma discussão no Congresso”.
Plano A ou B? ANP se prepara para importação
Com ou sem uma política de preços que dê segurança para as usinas, o desequilíbrio entre oferta e demanda pode ser mais perigoso do que se imagina. A incógnita mais importante está relacionada ao consumo de combustíveis do ciclo Otto para os próximos dez anos.
Segundo o diretor de combustíveis e regulação do Sindicom, o crescimento a taxas mais altas do consumo dos combustíveis não pode sair do radar. Ele alerta que o momento econômico atual não pode basear as projeções futuras de crescimento.
“Precisamos estar preparados para a volta de períodos de aumento de demanda de 7%, como já tivemos, o que implica ampliação da capacidade estrutural de receber gasolina importada”, avaliou Libório.
Para desconforto da indústria sucroenergética, esse foco na infraestrutura de importação tem recebido atenção da ANP. O diretor de abastecimento da agência reguladora, Aurélio Amaral, está em fase de conclusão uma nota técnica sobre a infraestrutura de recebimento de combustíveis.
De acordo com ele, o governo já promoveu encontros e visitas a portos, especialmente no Nordeste, para atrair investimentos em logística e infraestrutura. “Há grupos nacionais e estrangeiros interessados nessa área”, disse.
A Unica acredita que o gargalo é tão grande que mesmo que as usinas consigam expandir sua produção de etanol, a opção fóssil ainda será necessária. “Vamos ter de buscar mais gasolina importada”, admitiu o diretor técnico da entidade.
Aumentando a produção
Jaime Finguerut, do Centro de Tecnologia Canavieira, apontou que as possibilidades de ganhos em produção, com mais açúcar e biomassa sendo geradas nas mesmas áreas cultivadas, serão fundamentais para alavancar a indústria. “Já estamos conseguindo produzir duas vezes mais cana-de-açúcar e uma vez mais ATR”, disse.
Outro ponto é o rendimento maior dos motores. De acordo com uma projeção da ANP, se os motores atingissem com etanol hidratado 80% do rendimento obtido com a gasolina, o consumo do biocombustível só não compensaria em quatro estados do Brasil – Espírito Santo, Maranhão, Piauí e Roraima.
Vale lembrar que a diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, quando divulgou sua projeção de déficit do ciclo Otto no mês passado, afirmou com ressalvas que o gap no ciclo Otto significava um nicho de oportunidade para o etanol hidratado. Mas deixou uma pergunta que incomoda e preocupa tanto o governo quanto as usinas: “o que essa indústria pode, de fato, nos ofertar em um cenário de dez anos?"
Nesse sentido, Padua colocou panos quentes sobre o ímpeto do setor. Ele ponderou que as mudanças ocorrerão paulatinamente e devem ser perseguidas de olho em prazos maiores. “Não adianta pensar que vamos resolver tudo agora. Precisamos nos preparar para os próximos cinco a dez anos”, alertou, em referência ao prazo médio de cinco anos de maturação dos projetos do setor sucroalcooleiro.
Felipe Vanini Bruning – NovaCana