Preço do diesel, dos insumos e da matéria-prima de terceiros têm grande influência sobre o valor gasto pelas usinas
A pandemia de coronavírus está tendo diferentes efeitos para a sociedade e para diversos setores econômicos. No sucroenergético não seria diferente, com a safra 2020/21 sendo diretamente atingida pela queda na demanda e nos preços dos combustíveis. Como uma consequência deste cenário, diversos elos da cadeia estão se distanciando das expectativas vistas ao final da temporada anterior.
A equipe do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) vem lançando, nos últimos anos, um estudo dos custos de produção para os produtores independentes e para as usinas sucroenergéticas, analisando e associando produtividade, gastos e rendimentos.
Ao analisar a safra 2019/20, excluindo a entressafra, foi constatado que o resultado havia sido melhor do que o das duas temporadas anteriores, com uma queda de 6,2% nos custos totais – de R$ 8.391,59/ha para R$ 7.870,20/ha. Isso representa uma inversão do panorama. “A gente vinha de um histórico relativamente complicado”, explicou o professor João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do Pecege, durante a transmissão do Expedição Custos Cana, no início de junho.
De acordo com o instituto, um dos principais elementos para a queda foi a redução no preço dos insumos. Além disso, a elevação do rendimento dos canaviais em conjunto com o aumento da concentração de açúcares na cana viabilizou a diluição dos custos fixos agrícolas: “Dada a grande representatividade dos mesmos na composição do custo total, a elevação da produtividade foi fundamental na redução do custo médio da cana-de-açúcar, por meio da economia de escala”.
No texto completo (exclusivo para assinantes), saiba mais sobre a pesquisa do Pecege. A amostra envolve a participação de 50 grupos sucroenergéticos, com 88 usinas distribuídas em sete estados do Centro-Sul. Juntas, estas unidades foram responsáveis pelo processamento de, aproximadamente, 169 milhões de toneladas de cana-de-açúcar em 2019/20, o que equivale a cerca de 29% da moagem da região.
A pandemia de coronavírus está tendo diferentes efeitos para a sociedade e para diversos setores econômicos. No sucroenergético não seria diferente, com a safra 2020/21 sendo diretamente atingida pela queda na demanda e nos preços dos combustíveis. Como uma consequência deste cenário, diversos elos da cadeia estão se distanciando das expectativas vistas ao final da temporada anterior.
A equipe do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) vem lançando, nos últimos anos, um estudo dos custos de produção para os produtores independentes e para as usinas sucroenergéticas, analisando e associando produtividade, gastos e rendimentos.
Ao analisar a safra 2019/20, excluindo a entressafra, foi constatado que o resultado havia sido melhor do que o das duas temporadas anteriores, com uma queda de 6,2% nos custos totais – de R$ 8.391,59/ha para R$ 7.870,20/ha. Isso representa uma inversão do panorama. “A gente vinha de um histórico relativamente complicado”, explicou o professor João Rosa, que atua como gestor de novos projetos do Pecege, durante a transmissão do Expedição Custos Cana, no início de junho.
Porém, conforme o relatório lançado pelo instituto, o cenário adverso que se delineou no início da safra 2020/21 devido à pandemia “interrompeu o possível movimento de recuperação por parte das usinas brasileiras”.
“A queda relevante na demanda por etanol, derivada da redução dos preços do barril do petróleo e do isolamento social provocado pela covid-19, representou um golpe para as usinas que já vinham sofrendo com problemas de liquidez nas safras anteriores”, justifica o documento.
Desta forma, as perspectivas para a temporada vigente não são as melhores, mesmo que, conforme Rosa, a safra esteja “melhor do que a gente estava prevendo”. Por isso, o Pecege reitera que, mais do que nunca, o controle dos custos de produção é fundamental: “Neste sentido, a redução de perdas e a maximização da utilização da estrutura produtiva se tornam essenciais”.
O estudo dos custos divulgado pelo instituto cumpre também um papel na análise dos principais gastos para a produção de cana-de-açúcar, tanto da parte agrícola quanto da industrial, para que os produtores saibam onde é possível poupar e o que permite uma maior eficiência.
O caso da safra 2019/20 também demonstra como o cenário global influencia nos resultados – entre os principais exemplos disto estão os gastos da usina com insumos e combustíveis. Certas reduções nestes fatores tiveram reflexos nos custos totais e, na média, demonstraram que a temporada foi positiva.
De acordo com o Pecege, um dos principais elementos para a queda nos custos de produção em 2019/20, no período de abril a dezembro, foi justamente a redução no preço dos insumos. Quando somada ao aumento da produtividade agrícola, o resultado foi um gasto de R$ 102,16 por tonelada de cana, o que equivale a R$ 7.870,20 por hectare plantado.
No mesmo período de 2018/19, este valor chegou a R$ 111,30/t, ou R$ 8.391,59/ha. “A safra 2019/20 foi marcada por condições climáticas mais favoráveis, o que implicou em 2,4% de aumento na produtividade agrícola ante a anterior”, complementa o documento.
Segundo o Pecege, a produtividade média dos canaviais subiu de 75,12 t/ha em 2018/19 para 76,92 t/ha em 2019/20, um aumento de 2,4% que teve impacto positivo nos custos. Dentre as usinas pesquisadas, este valor variou entre 42 t/ha e 100 t/ha, indicando uma grande heterogeneidade nos resultados.
De acordo com o documento divulgado pelo instituto, as usinas que apresentaram maior produtividade foram as que investiram mais na formação do canavial e em irrigação ou fertirrigação.

Para os pesquisadores, a elevação do rendimento dos canaviais em conjunto com o aumento da concentração de açúcares na cana viabilizou a diluição dos custos fixos agrícolas: “Dada a grande representatividade dos mesmos na composição do custo total, a elevação da produtividade foi fundamental na redução do custo médio da cana-de-açúcar, por meio da economia de escala”.
Considerando este cenário, é importante lembrar que a pesquisa do Pecege é feita com uma amostra de 50 grupos sucroenergéticos, com 88 usinas distribuídas em sete estados do Centro-Sul. Juntas, estas unidades foram responsáveis pelo processamento de, aproximadamente, 169 milhões de toneladas de cana-de-açúcar em 2019/20, o que equivale a cerca de 29% da moagem da região.
Ou seja, para muitas usinas o cenário da última safra foi positivo devido ao aumento na produtividade, e a média também foi melhor. Ainda assim, Rosa afirma que é importante sempre ter em mente a disparidade apresentada pelo setor, especialmente em termos de produção.
Análise agrícola
Os custos agrícolas são compostos, de forma simples, por três fatores: custo operacional efetivo, custo operacional total e remuneração do capital fixo. Na comparação com o período de abril a dezembro de 2018, os dois primeiros tiveram quedas de 6,62% e 7,32%, respectivamente, enquanto a remuneração do capital fixo subiu 10,58% em 2019.
De acordo com o Pecege, foi a maior alavancagem operacional que permitiu que as usinas diluíssem seus custos de produção, mantendo-se as peculiaridades de cada unidade e entendendo que estes dados não podem ser generalizados.
Dentre as principais influências nas variações dos custos operacionais efetivos estão os insumos, que tiveram redução de 18,61% entre os dois períodos, especialmente graças ao preço dos fertilizantes. Conforme o relatório, este é, justamente, o insumo com a maior participação percentual na composição do custo da cana-de-açúcar.
“[O preço dos fertilizantes] experimentou um amplo fenômeno de redução, devido à queda dos preços internacionais dos principais componentes das formulações NPK. A mudança positiva de cenário deveu-se à combinação de uma demanda mundial atipicamente reduzida e do crescimento da oferta”, explica. A sigla NPK se refere aos compostos que usam os macronutrientes nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K).
Assim, como aproximadamente 23% de todo o valor desembolsado pelas usinas é com a compra de insumos, esta redução no preço contribuiu para amenizar a pressão sobre o custo dos insumos na safra 2019/20. “Isto favoreceu uma ligeira queda nos custos de produção da cana-de-açúcar”, completa o relatório.
O diesel também apresentou queda no mesmo comparativo, influenciando diretamente nas operações de corte, transporte e transbordo (CTT). Conforme o documento, esta etapa é a mais representativa na composição do custo total agrícola, com 25% na safra analisada.

Além da redução no valor do combustível, a maior produtividade e a diminuição do raio médio de colheita durante a safra fizeram com que os gastos com este item fossem menores em 2019/20.
Segundo o Pecege, com o aumento da produtividade, houve reduções de 13,27% nos custos de corte e de 37,4% nas operações de apoio. “A redução do raio médio, causada, principalmente, pela devolução de áreas arrendadas mais distantes, fez com que o custo de transporte reduzisse 6,9%. A queda real do preço do diesel reforçou esse movimento de minoração do CTT”, detalha.
Com a devolução das terras mais distantes, seria de que se esperar que custo com arrendamento – que corresponde a 21,8% do total – também caísse. Porém o relatório do Pecege explica que ele é composto por dois fatores: o preço do açúcar total recuperável (ATR) e o valor negociado em toneladas por hectare.
Enquanto o segundo caiu 7,44% justamente “pela devolução de terras mais onerosas pelas usinas e pela negociação dos contratos vigentes”, o acumulado do preço do ATR estabelecido pelo Consecana-SP foi 8,22% maior em 2019. Isso fez com que o ATR fosse mais impactante sobre o total, gerando o aumento de 14,49% nos custos de arrendamento em 2019/20.
O último destaque no âmbito agrícola trazido pelo relatório é o aumento de 56,09% na participação do plantio do Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente (meiosi), o que tem influências tanto altistas quanto baixistas nos custos de produção.
Com a meiosi, caem os custos com área de desdobra, com logística de mudas – como corte, carregamento e transporte – e com insumos. Ao mesmo tempo, a técnica faz aumentarem os gastos com investimentos em plantio e em tecnologia.
“No saldo líquido, a economia atrelada a esta forma de plantio supera os investimentos”, aponta o relatório. Ou seja, há uma redução de gastos nas áreas que utilizam meiosi, especialmente comparando com as modalidades de plantio convencional e mecanizada.
Além disso, o Pecege aponta que as usinas podem obter receitas adicionais com a rotação de culturas. Em geral, o setor opta pelo plantio de leguminosas, como soja e amendoim.
O impacto da matéria-prima
Em relação aos custos da indústria, a redução no comparativo de abril a dezembro de 2018 para o mesmo período de 2019 foi de 7,02%, passando de R$ 140,68 por tonelada para R$ 130,81/t. Deste montante, 75,1% foi composto pelos custos com a matéria-prima, que registrou queda de 6,64% no comparativo anual.
Os custos com a cana própria e a de terceiros compõem o valor atribuído à matéria-prima e, seguindo a tendência das safras passadas, a participação da cana própria no processamento total caiu. Conforme o professor João Rosa, gestor de novos projetos do Pecege, a queda na participação foi de 4% e também houve uma redução na área média de produção de cana própria.
Durante a Expedição Custos Cana do início de junho, o profissional reforçou que é difícil generalizar, pois a realidade de cada usina é diferente da outra. “Mas há uma tendência de a matéria-prima migrar da produção própria para a produção de produtores”, afirma. E, neste caso, ele acredita que os envolvidos devem ter cautela para não fechar contratos com “quantidades surreais de ATR”, que poderão não ser cumpridos.
Por outro lado, na safra 2019/20, uma tendência histórica foi quebrada: a temporada registrou a redução da diferença entre o custo de cana própria e o preço pago pela cana de fornecedores. “Tal constatação foi decorrente da elevação do preço do ATR e, em contraposição, da redução do custo de produção da cana pelas usinas”, explica o documento.

Assim, os custos com a cana própria tiveram uma redução de 16,28% na comparação anual, enquanto a cana de fornecedores teve aumento de 27,36%. Como os outros fatores que compõem os gastos com matéria-prima caíram – depreciações (-18,33%) e remuneração do capital fixo (-0,39%) –, o Pecege calculou uma queda de 6,64% no custo total.
Além disso, houve um aumento na quantidade de cana processada pelas usinas sem que a capacidade de processamento também crescesse. Isso significa que, na média, houve um aumento da utilização da capacidade instalada. Com isso, os custos fixos médios industriais também caíram. “É notória a redução nos custos unitários de manutenção industrial, despesas, depreciação e remuneração do capital fixo”, aponta o relatório.
Já os custos de processamento industrial apresentaram uma variação negativa de 14,47%. Dentro desta categoria, registraram aumentos apenas os insumos industriais – como energia elétrica, químicos, sacaria e embalagens, e combustíveis e lubrificantes – e a depreciação industrial, porém seus valores absolutos seguem baixos.
Por último, as despesas administrativas e com vendas gerais caiu em 2019/20, graças ao aumento da terceirização dos serviços administrativos e à elevação do mix de etanol, que reduziu significativamente os custos portuários e de embarque relacionados à exportação de açúcar.
Custos dos produtos
Em relação aos produtos da cana-de-açúcar vendidos entre abril e dezembro de 2019, o cenário foi melhor do que o observado no mesmo período do ano anterior. “De forma geral, a safra foi marcada por melhores preços de comercialização do etanol e do açúcar, o que implicou em margens econômicas positivas para todos os produtos”, observa o Pecege.
O instituto afirma que, na média, a comercialização dos produtos em 2019/20 atingiu o melhor índice das últimas cinco safras – resultado evidenciado por uma margem econômica calculada em 13,77%. “Em um primeiro momento, a safra em questão representou um importante ‘turning point’ para o setor, com a geração de um fluxo de caixa relevante e uma conjuntura indicada para a retomada dos investimentos no campo e no aumento da eficiência industrial”, aponta.
Especificamente sobre o adoçante, a redução na oferta internacional e a desvalorização cambial de 2019 foram benéficas para os preços de comercialização. Junto à queda nos custos de produção, o valor médio de venda do açúcar VHP em R$ 1.072,79/t fez com que as usinas registrassem uma margem econômica de 0,49%.

O açúcar cristal sofreu um movimento similar de alta, implicando em um valor de R$1.162,75/t. Desta forma, o Pecege calculou uma margem econômica de 6,17% para o produto.
E, assim como observado nas safras anteriores, o grupo composto pelos açúcares mascavo, demerara, orgânico e líquido foi o que apresentou a maior margem de lucro. “Na média, o prêmio pago por esse grupo em relação ao VHP foi de R$ 815/t, enquanto o custo foi R$ 20/t inferior. Essa configuração foi responsável pela apuração de uma margem econômica de 44,6% – a maior margem dentre os produtos comercializados pelas usinas sucroenergéticas”, explica o documento.
Em relação ao etanol hidratado, o custo de produção totalizou R$ 1.544,70/m³ de abril a dezembro de 2019, uma queda de 11,36% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Segundo o Pecege, esta redução foi influenciada pela diminuição dos custos agrícolas e pela economia de escala provocada pelo aumento da produção do combustível. “Este cenário de bons preços e custo diminuto implicaram em uma margem econômica da ordem de 15,85% – uma das maiores da última década”, completa.

Por sua vez, o etanol anidro apresentou um resultado similar, com margem de 17,54%. Já o grupo composto por etanóis utilizados para fins industriais e para produção de bebidas alcoólicas apresentou a maior margem, de 22,38%, invertendo completamente o cenário observado em 2018, quando o índice estava em -6,1%.
A bioeletricidade também é analisada pelo Pecege, que, conforme o instituto, registrou uma ligeira queda no preço de exportação em relação à safra anterior. Porém, o resultado foi compensado pelo aumento da produção e, consequentemente, do volume vendido.
Assim, a margem econômica ficou em 64%, ou R$ 6,42 por tonelada, valor menor que o observado em 2018/19, mas ainda positivo.

“As usinas que não contavam com um parque de cogeração próprio eficiente, na safra 2019/20, renunciaram um fluxo de caixa importante”, observa o documento. Um exemplo são as companhias que utilizam o parque de propriedade de terceiros, o que corresponde a 7,94% da amostra.
“A elevada rentabilidade da cogeração constituiu-se em uma forma de incremento da margem econômica apurada com a comercialização do açúcar e etanol”, conclui o relatório.
Detalhes da pesquisa
Na comparação entre abril a dezembro de 2018 e 2019, muitos indicadores apresentaram melhora, como o aumento de 2,4% na qualidade da cana e o de 4,9% na produtividade em toneladas de ATR por hectare.
Estes resultados ocorreram mesmo em um contexto com um aumento na idade média do canavial, o que seria prejudicial à produtividade. Segundo o Pecege, foi o início de safra chuvoso que compensou os números.

Com isso, a quantidade de cana processada foi maior na temporada, o que influenciou na produção e reduziu o tempo ocioso das usinas. O Pecege também relembra que, na média da safra 2019/20, o plantio mecanizado apresentou queda enquanto a meiosi aumentou, e a participação da cana própria também diminuiu.
Rafaella Coury – NovaCana