Apesar de um avanço recente na geração de energia renovável, Cuba continua enfrentando apagões em larga escala que expõem as limitações estruturais do sistema elétrico da ilha.
O país, que recebe financiamento da China para expandir a energia solar, viu essa fonte crescer rapidamente nos últimos anos, mas ainda insuficiente para compensar a escassez de combustível e o envelhecimento da rede.
A expansão das renováveis é visível. Mais de 50 parques solares foram instalados com apoio chinês, elevando a participação dessas fontes de cerca de 3% para quase 10% da eletricidade gerada entre 2024 e 2025. O movimento insere Cuba em uma tendência global, mas ocorre em um contexto particular: crise energética crônica, limitações financeiras e isolamento internacional.
A aposta chinesa vai além da lógica econômica. Segundo analistas, os investimentos fazem parte de uma estratégia mais ampla de Pequim para ampliar influência em países em desenvolvimento, especialmente em economias com dificuldades de financiamento.
A iniciativa se repete em regiões como a África e busca consolidar presença política de longo prazo, ao mesmo tempo em que projeta a imagem de parceiro confiável em infraestrutura e desenvolvimento.
Apesar do crescimento da energia solar, os efeitos no dia a dia da população são limitados. Recentemente, um apagão atingiu cerca de 65% do país ao mesmo tempo, evidenciando a fragilidade do sistema. O governo cubano reconhece que a crise vai além da falta de petróleo, agravada pelo embargo norte-americano e pela redução do fornecimento venezuelano.
O principal gargalo está na distribuição. Grande parte das linhas de transmissão tem mais de três décadas sem modernização significativa, o que compromete o escoamento da eletricidade produzida. Na prática, mesmo quando há geração suficiente em determinado momento, a energia não consegue chegar de forma eficiente aos consumidores.
Esse descompasso ajuda a explicar por que o avanço das renováveis é percebido de forma quase imperceptível pela população. A expansão da capacidade instalada não se traduz automaticamente em fornecimento estável, já que depende de uma infraestrutura que permanece obsoleta.
O cenário coloca em xeque metas ambiciosas do governo cubano, como a intenção de migrar para uma matriz predominantemente renovável até 2050. Avaliações independentes indicam que esse objetivo já era considerado difícil antes mesmo das atuais restrições. Hoje, parece ainda mais distante.
Entre as fontes previstas, a energia solar desponta como a única com possibilidade real de expansão relevante no curto e médio prazo. Alternativas como energia eólica, biomassa e substituição de combustíveis fósseis por gás natural liquefeito, enfrentam obstáculos técnicos, financeiros e logísticos que tornam sua implementação improvável nas condições atuais.
Além das limitações tecnológicas, o desafio é financeiro. Projetos de transição energética exigem investimentos elevados, que a economia cubana não tem condições de sustentar sozinha.
Estimativas indicam que seriam necessários cerca de US$ 8 bilhões para que energias renováveis respondessem por aproximadamente 93% da eletricidade no país. Para alcançar um sistema totalmente baseado em fontes limpas, o custo poderia chegar a US$ 19 bilhões.
Diante desse quadro, a dependência de financiamento externo tende a persistir. A parceria com a China aparece, nesse sentido, como uma alternativa relevante, mas não suficiente para resolver o problema estrutural. Sem investimentos pesados em transmissão e distribuição, o aumento da geração renovável continuará tendo impacto limitado.
A crise energética cubana, portanto, revela um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o país avança em fontes limpas, impulsionado por apoio internacional, permanece preso a um sistema elétrico fragilizado, incapaz de garantir abastecimento regular.
A combinação de falta de recursos, restrições externas e infraestrutura defasada mantém a população exposta a cortes frequentes de energia – e torna incerto o caminho para uma transição energética efetiva.