Destruição mecânica muito bem feita das soqueiras na renovação dos canaviais no período seco, seguida de vazio sanitário de pelo menos seis meses, o que não significa necessariamente pousio da área e sim rotação de culturas que não sejam hospedeiras, como a soja, amendoim ou crotalária.
Essas práticas antes de novo plantio de cana-de-açúcar visam reduzir a população do Sphenophorus levis, conhecido como o bicudo da cana, praga de solo que vem desafiando produtores, usinas e pesquisadores do setor, desde sua detecção em 1977, quando a matéria-prima do açúcar e etanol ainda era queimada.
O manejo do bicudo tem que ser acompanhado pelo plantio de mudas comprovadamente sadias e menos sensíveis à praga e pela integração de manejo biológico e químico com rotação de moléculas, sem dependência de apenas uma ferramenta. Tudo isso precedido de monitoramento constante e muito planejamento.
O combate ao Sphenophorus foi o tema de palestras e debates de pesquisadores, consultores, usinas, fornecedores e especialistas do setor sucroenergético no evento Nexfera, promovido pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) na quinta-feira, 18, em Ribeirão Preto (SP). Ao final do encontro, o CTC lançou um manual de boas práticas e a rede colaborativa de experimentação.
O guia consolida o conhecimento mais atual disponível sobre monitoramento e controle da praga e reúne experiências de campo, resultados de pesquisas e recomendações de especialistas para apoiar decisões mais assertivas no manejo.
A rede reúne empresas e instituições e tem uma estrutura padronizada para testar hipóteses, validar estratégias de manejo e gerar evidências que apoiem a tomada de decisão no campo.
Segundo estudos apresentados no evento, as infestações variadas nos canaviais da região Centro-Sul causam perdas na produção agrícola de 25 a 30 toneladas por hectare por ano e demandam um gasto de R$ 700 milhões por ano.
Diferentemente da broca e da cigarrinha, o Sphenophorus ainda guarda muitos segredos. Por exemplo: os pesquisadores descobriram apenas há três anos que o inseto tem capacidade de voar, com alcance de até 3,5 mil metros.
“Não existe uma bala de prata para o controle do Sphenophorus, problema generalizado nos canaviais paulistas”, disse o coordenador de desenvolvimento de produto do CTC, Jardécio Carvalho.
Para o assistente técnico em entomologia do CTC, Fernando Pattaro, o segredo da batalha contra o bicudo é a aplicação do conhecimento visando evitar o aumento da população adulta, que se esconde embaixo da terra, o que dificulta sua eliminação total mesmo com o uso dos defensivos químicos e biológicos.
Pattaro recomenda fortemente o manejo da palha porque a técnica aumenta a temperatura do solo e desfavorece a taxa de postura da fêmea do Sphenophorus, que gosta de uma temperatura de 22°C. “Pesquisas mostram uma redução de dois a quatro pontos percentuais na infestação com o manejo da palha, que inibe a presença do adulto na base da touceira”, explica.
Segundo a agrônoma Leila Luci Dinardo Miranda, pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC), os inseticidas matam apenas de 35% a 45% da população dos bicudos adultos, fator-chave para a multiplicação do inseto. Ela diz que a aplicação nos sulcos de plantio não resolve, mas ajuda. Já a aplicação em área total não é recomendada.

Pesquisas mostram que um casal de bicudos ao final de quatro anos gera 37,5 mil larvas. A amostragem para identificar a infestação, diz Leila, deve ser feita no primeiro corte e no penúltimo.
O número de pontos recomendados de amostragem por hectare depende da infestação. Quando a cana está mais afetada, um ou dois pontos bastam. Se tiver pouca infestação, é recomendável fazer até seis amostragens. Uma pesquisa setorial, no entanto, apontou que a maioria das usinas (55%) fazem amostragem em apenas um ponto por hectare.
O uso de grades, em vez do equipamento mecânico para arrancar as soqueiras, segundo a pesquisadora, pode ser uma alternativa, mas vai necessitar de três ou quatro gradagens, seguida do vazio sanitário.
O recomendado é a renovação com soja, amendoim ou crotalária, que não são hospedeiros do inseto, ou seja, ele vai viver uns meses escondido nas plantas, mas vai morrer de fome. Já as culturas do milho, milheto, sorgo e braquiária mantêm o inseto vivo.
A renovação dos canaviais por meiosi (técnica que produz as mudas na própria área de reforma) foi fortemente rejeitada pelos pesquisadores porque mantém o bicudo adulto no solo. “Quem tem bicudo no canavial não deve nem pensar em meiosi porque não se faz vazio sanitário”, destacou a cientista do IAC.
Daniel Gualtieri, gerente técnico agrícola da Cocal, grupo que tem quatro unidades com área total de 257 mil hectares, disse no Nexfera que o bicudo está presente em 97% da área das usinas do grupo e em 78% dos talhões. Na safra 2025/26, a empresa investiu R$ 20,659 milhões no controle da praga, mas, apesar dos investimentos crescentes ano a ano, os resultados são pífios.
Ele ressaltou que há problema com escassez e qualidade de mão-de-obra para o monitoramento da praga e muito pouca informação nas usinas sobre o comportamento do inseto e os fatores que levam ao seu aumento.
“O inseto mostra uma capacidade incrível de sobreviver na cana e também na mata e em outros lugares. Neste ano, em abril, identificamos uma infestação de 5,74% na cana, ante os 13,07% do mesmo período do ano passado e não sabemos o que mudou porque o manejo foi o mesmo. Ou o inseto mudou seu comportamento, ou foi influência do clima”, disse.
Mario Tittoto Neto, gerente do grupo Ipiranga Agroindustrial, que tem quatro unidades e 125 mil hectares de cana, disse que a infestação é bem diferente nas quatro unidades. A mais afetada é a de Descalvado, com 18% de infestação no ano passado e 12% neste ano. “Também não sabemos o que mudou, porque o manejo foi o mesmo”, afirma.
Na unidade de Passos (MG), a infestação chegou a cair para zero porque houve 100% de renovação, mas já voltou aos níveis de 10%. Em Mococa (SP) houve uma grande geada e incêndio em 2021 e outro incêndio em 2024, que reduziram a infestação, que já voltou a subir.
O gerente contou que o grupo segue as boas práticas para redução do Sphenophorus, com dessecação, eliminação mecânica das soqueiras, aplicação de inseticida nos sulcos e vazio sanitário, mas não consegue eliminar o inseto, porque é impossível renovar 100% das áreas.
O evento teve ainda a participação do consultor Evaldo Takizawa, conhecido por sua atuação em estratégias de manejo do bicudo do algodão em Mato Grosso. Ele compartilhou aprendizados sobre comportamento da praga, monitoramento e construção de programas de manejo de longo prazo.
“O bicudo do algodoeiro é uma escola de aprendizado em manejo de pragas. Há 1,5 milhão de hectares infestados com a praga em Mato Grosso. A questão não é ensinar a matar o inseto, mas aprender a interpretar a paisagem agrícola onde ele se multiplica”, disse.
Segundo Takizawa, são feitas cerca de 30 aplicações de inseticidas por safra e há um sincronismo entre o ciclo do inseto e a fenologia da cultura. “Ano bom de bicudo é ano bom de algodão, desde que se consiga monitorar a praga. 2026 é um ano bom”, disse.
Eliane Silva