Para muitos, Monte Alegre (cercanias de Piracicaba–SP), no coração da região canavieira do centro-sul do Brasil, fornece uma imagem simbólica do que é o setor. Cortadores de cana perambulam pelas ruas quase desertas do vilarejo, pavimentadas com paralelepípedos do século 19. Antenas retransmissoras de sinal de celular inexistem.
Enquanto isso, a meros cinco minutos dali, a realidade é bem diferente. Caminhando a passos firmes pelo piso de mármore do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), maior biorrefinaria de cana-de-açúcar do mundo, William Burnquist mostra as fileiras de incubadoras que chegam a produzir até 1 bilhão de plantas por mês. Do lado de fora, numa área isolada por cordões pelo governo federal, ele aponta um canavial cujas plantas tiveram o DNA gerado por computador – uma tecnologia que no futuro poderá aumentar a produtividade do setor em até 50%.
"Não estamos interessados em ganhos incrementais. Estamos tentando alcançar algo de significativo aqui", diz Burnquist, diretor de ciências vegetais do CTC.
Além de usar seleção artificial para cultivar cana com alto rendimento e maior resistência, o centro também faz experimentos com variedades geneticamente modificadas – a primeira das quais poderá estar disponíveis já daqui a quatro anos.
É uma parte da indústria canavieira do Brasil ainda pouco conhecida, mas com potencial para revolucionar a produção no país, que responde por metade das exportações globais de açúcar, e ajudar a recuperar a lucratividade do setor.
Apesar de abençoados com um mercado interno onde quase 90% dos carros novos saem de fábrica prontos para rodar com etanol de cana, os produtores brasileiros de açúcar vêm lutando para não ficar no vermelho – em grande parte porque o etanol por eles produzido não consegue competir com os preços fortemente subsidiados da gasolina.
O governo elevou os preços do combustível recentemente e deu incentivos fiscais para os produtores de etanol, mas as usinas da região centro-sul, responsáveis por 18% da produção de açúcar do país, continuam a enfrentar a bancarrota, segundo o banco Itaú BBA.
"Mas eu não sou dessa gente que reclama do governo e não faz nada", diz Burnquist, para quem a característica mais inovadora do CTC é o fato de não ser um órgão estatal.
Fundado em 1969 por um grupo de usinas da região de Piracicaba, o CTC virou sociedade anônima em 2011 e agora conta com a Raízen, joint-venture da anglo-holandesa Shell com a brasileira Cosan, como uma de suas principais acionistas.
O centro firmou parcerias com empresas como a Basf e a Bayer, e possui contratos com cerca de 200 usinas, que adquirem as variedades de cana do CTC por meio de um esquema de pagamento de royalties.
"A pesquisa com cana-de-açúcar é normalmente financiada pelo governo em outros países, mas isso cria um sistema de 'pesquisa de subsistência': faz-se apenas o mínimo necessário e é difícil alcançar grandes avanços", diz Burnquist.
Desde 2004, o CTC já criou 28 variedades novas de cana, com até 15% mais açúcar e maior resistência a doenças e a condições climáticas adversas. Esta última característica torna-se cada vez mais popular, conforme os produtores de açúcar e etanol deslocam-se para a região semiárida ao norte em busca de terras mais baratas.
Para os cientistas do CTC, contudo, o melhoramento genético não será suficiente para cumprir a meta da empresa, de dobrar a produção de açúcar e etanol por hectare até 2030. Além de estar desenvolvendo etanol de segunda geração – feito do bagaço e das folhas da cana –, o centro também está contando com as plantas geneticamente modificadas que pretende colocar no mercado.
A entidade começou a trabalhar com cana transgênica em 1994, recorrendo a DNA sintético e também de bactérias e outras plantas, sendo logo seguida por outros centros de pesquisa de países como África do Sul, Austrália, Índia e China.
No entanto, embora a soja e o milho transgênicos sejam comuns, a cana transgênica ainda não é disponibilizada comercialmente.
O problema está na complexidade do DNA da cana e no fato de que a cultura precisa ser projetada sob medida para adequar-se a cada ambiente, o que torna a pesquisa na área menos recompensadora financeiramente para grandes empresas de sementes, como a Monsanto.
O CTC espera ganhar aprovação para sua primeira variedade manipulada geneticamente dentro de mais ou menos quatro anos. É provável que o primeiro produto ofereça aprimoramentos modestos – tais como maior resistência a alguma doença específica –, mas ao longo dos anos a entidade planeja criar variedades com um teor de açúcar drasticamente mais alto.
"Em se tratando de biotecnologia, não faz sentido tentar conseguir 10% ou 15% mais açúcar, porque isso você consegue com o melhoramento convencional", afirma Burnquist. "Estamos pensando fora da caixinha: 30% mais açúcar, talvez até 50% mais."
Tamanho incremento no teor de açúcar da planta seria uma tábua de salvação para os produtores de açúcar e etanol, permitindo-lhes diluir os custos fixos de forma significativa.
Contudo, essa tábua de salvação talvez não venha a tempo: resultados assim excepcionais ainda vão demorar vários anos, na avaliação de Burnquist.
Com as usinas brasileiras diante de preços declinantes do açúcar em meio a um excesso de oferta global, que acreditam os analistas pode durar até 2014, muitas terão de fechar as portas – como pode ser o caso das usinas de Monte Alegre – antes mesmo de verem os resultados da pesquisa do CTC.
"Os preços elevados do açúcar estão pelo menos pagando as contas até agora", diz Giovana Araújo, analista de agribusiness do Itaú. "Mas o ano que vem vai ser um dos mais difíceis que já enfrentamos."
Por
Samantha Pearson