Com preços melhores e produção estável, os ganhos operacionais das usinas cresceram e a dívida diminuiu. Porém, os investimentos seguem abaixo do necessário como mostram os dados do Itaú BBA
Com preços melhores e produção estável, os ganhos operacionais das usinas cresceram e a dívida diminuiu. Porém, os investimentos seguem abaixo do necessário como mostram os dados do Itaú BBA.
Após o auge do endividamento do setor sucroenergético, na safra 2015/16, a estabilidade da produção e os preços favoráveis permitiram uma melhora nos resultados operacionais para as usinas. Com maior geração de caixa, as empresas, de maneira geral, conseguiram diminuir as dívidas e muitas delas apresentaram crescimento de indicadores como o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e liquidez.
Porém, isso não representou um aumento dos investimentos e muitas empresas seguem sem perspectiva de crescimento. Os dados são da maior amostragem sobre as usinas brasileiras e revelam um quadro geral da crise e recuperação do setor.
Saiba mais:
- Evolução dos investimentos e perspectivas
- Fatores que contribuem para a falta de investimentos
- Queda das dívidas e previsão para o próximo ano
- Empresas se destacam em cenário de crise e o distanciamento aumenta
Após o auge do endividamento do setor sucroenergético, na safra 2015/16, a estabilidade da produção e os preços favoráveis permitiram uma melhora nos resultados operacionais para as usinas. Com maior geração de caixa, as empresas, de maneira geral, conseguiram diminuir as dívidas e muitas delas apresentaram crescimento de indicadores como o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e liquidez.
Porém, isso não representou um aumento dos investimentos e muitas empresas seguem sem perspectiva de crescimento. Os dados são do Itaú BBA, banco privado que detém a maior carteira de clientes do setor sucroenergético.
As impressões são resultantes da análise de uma amostra de 67 empresas do Centro-Sul, que, na safra 2015/16, representavam 87% da produção da região (527 milhões de toneladas). O banco não considerou grupos que estão em recuperação judicial ou que buscam reestruturar suas dívidas.
Para o levantamento, as empresas foram divididas em quatro grupos, levando em consideração seus resultados e perspectivas.

Os grupos A e B representam empresas com boa situação financeira e possibilidade mais elevada de crescimento. O Grupo C envolve empresas em recuperação, mas ainda frágeis em relação aos concorrentes. E o Grupo D compreende empresas que não têm conseguido se recuperar após a crise.
Falta de vontade e condições para investir
O Itaú BBA apresenta duas hipóteses principais para o baixo nível de investimento em bens de capital: falta de possibilidade e falta de interesse.
Hoje, 36 empresas operam em recuperação judicial e outras 67 fecharam desde novembro de 2012, o que contribui para a queda de investimentos do setor. É nesse ponto que entra o que o banco chama de “falta de possibilidade”.
Por outro lado, empresas dos grupos A e B, que, em teoria, teriam as melhores condições para investir, não o tem feito pela falta de interesse e confiança no mercado de açúcar e etanol.
Na safra 2016/17, entre as empresas dos grupos A e B, apenas 16% realizaram investimentos e tiveram capex superior a 120% do valor da depreciação – ou seja, investiram o suficiente para crescer. A maioria (46%) investiu apenas 80% do valor da depreciação e 38% investiram entre 80% e 120% do valor da depreciação. Essas companhias terão, no máximo, uma estabilização das atividades.

Perda de confiança para os investimentos
De acordo com os dados apresentados, o investimento em áreas-chave para o crescimento e a redução de custos está, de certo modo, “esquecido” pelo setor. Isso acontece porque as empresas ficaram habituadas a utilizar eventuais melhoras em seus rendimentos operacionais para cobrir as dívidas e os juros crescentes.
Assim, mesmo com a perspectiva de recuperação econômica, os níveis de investimento, representados pelo capex, seguem em queda e estão abaixo do ideal desde a safra 2014/15.
O dado é preocupante, pois, para manter as atividades dentro da normalidade, as usinas precisam sustentar um patamar de investimentos, que varia caso a caso. “Você pode ter usinas que levam o canavial até sete anos, outras até cinco, outras até nove. Varia de caso para caso, nós fizemos uma generalização”, explica Guilherme Melo, analista sênior de agronegócios do Itaú BBA.
Para avaliar a evolução destes investimentos, o Itaú BBA elaborou o indicador de capex teórico, composto por três frentes: investimentos no canavial, na renovação industrial e na renovação do parque de máquinas e equipamentos relacionados a operações agrícolas.
Partindo de uma média entre as empresas da amostra, o Itaú BBA avaliou que o capex realizado – colocado em prática pelas empresas – tem apresentado quedas sucessivas e, na safra 2016/17, ficou cerca de 31% abaixo do Capex teórico.
Ou seja, as empresas investem, hoje, em média, 69% do valor que precisariam aplicar para operarem em condições normais.

Além disso, de acordo com Melo, as perspectivas não são positivas para o indicador. “O investimento, de maneira geral, é calcado em eficiências operacionais. Em 2017/18, o setor vai voltar a gerar caixa, mas, a despeito disso, como a confiança ainda não foi estabelecida, os investimentos tendem a ficar focados em melhoria de eficiência”, explica.
Endividamento deve seguir em queda
Conforme visto anteriormente, nas últimas safras, o setor utilizou o aumento dos ganhos para pagar os juros das dívidas, que também cresceram no período. Foi apenas em 2016/17 que uma parcela das empresas conseguiu reverter este quadro e diminuir a dívida – essencialmente, as empresas mais fortes, dos grupos A e B.
Já as empresas no “quadrante da morte”, seguem com dívidas crescentes e sem condições para investir.
“A despeito das quedas que vimos nos preços até agora, como parte das usinas entraram fixadas na safra 2017/18, a gente vê uma redução de dívida líquida para o ano que vem”, Guilherme Melo (Itaú BBA)
O endividamento, segundo a análise do Itaú BBA, chegou a 138% do capex teórico nesta última safra.
Ainda assim, de maneira geral, as perspectivas são de melhora nas dívidas segundo Melo. “Para a safra 2017/18, que acaba agora em março, nossa visão é que a dívida vai voltar a cair. Justamente porque o setor se beneficiou de preços bons em 2016 e [as usinas] acabaram entrando nessa safra razoavelmente fixadas”, explica.
Empresas fortes ganharam liquidez
A queda das dívidas, para muitas empresas, contribuiu para o aumento ou estabilidade da liquidez – medida pelos recursos que uma empresa possui para quitar suas obrigações com terceiros –, uma vez que muitas delas também registraram um Ebitda maior nas últimas safras.
Na comparação com a safra 2012/13, os dados de 2016/17 mostram que, no período, as empresas do grupo A e B mantiveram liquidez estável, obtiveram aumento do Ebitda e o grupo A teve uma leve queda da dívida.
Já as empresas do grupo C e D perderam liquidez, pois tiveram aumento na dívida sem crescimento significativo dos ganhos operacionais. Contudo, o grupo C apresentou leve aumento do Ebitda enquanto o Grupo D teve queda.

Essas empresas do Grupo D, que, mesmo diante de um cenário de preços favoráveis não conseguiram a recuperação necessária, parecem ter poucas perspectivas de melhora.
Já as empresas do Grupo C, que buscam diminuir a alavancagem e ganhar confiança no mercado, conseguiram uma pequena melhora na última safra, aumentando o Ebitda e acompanhando a tendência das mais fortes.
O grupo A, formado pelas empresas mais sólidas, melhorou em todos os sentidos no período. Por outro lado, o D piorou em todos os indicadores. Os resultados dissonantes entre as empresas mais “fortes” e “fracas” indica uma concentração cada vez maior do mercado nas mãos de empresas que conseguiram enfrentar o cenário adverso recente.
Perspectivas com o RenovaBio
Ainda segundo Melo, o RenovaBio, que recebeu sanção presidencial nos últimos dias de 2017, poderia vir a beneficiar o setor. Contudo, ele acredita que ainda é cedo para afirmar se a nova política vai contribuir para aumentar os investimentos – uma vez que o programa ainda vai passar por uma série de alterações e regulamentações antes de entrar em vigor.
“Dependendo de como [o RenovaBio] sair, ele acaba influenciando positivamente e estabelece confiança junto aos tomadores de decisão para voltarem a investir”, afirma o analista, enfatizando que é cedo para fazer uma previsão a respeito dos resultados.
Por hora, os investimentos abaixo do ideal comprometem, para algumas empresas, não apenas a manutenção dos resultados e crescimento, mas também a recuperação, após a alta do endividamento e a evolução a longo prazo, aproveitando o cenário recente, mais favorável.
E quem sofre mais são as empresas que já estão em uma situação financeira precária, pois, sem manutenção ou melhorias, acabam comprometendo ainda mais seus rendimentos operacionais e se distanciando dos grupos mais fortes.
Mariana Ohde – NovaCana