A indústria brasileira tem ampliado iniciativas com foco no uso de energias renováveis em seus processos produtivos e a principal estratégia adotada é participar como sócia em uma usina de energia no modelo de autoprodução.
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada no fim de 2024 e divulgada nesta quinta-feira, 5, aponta que 48% das empresas investem em ações ou projetos de uso de energia hídrica, eólica, solar, biomassa ou hidrogênio de baixo carbono.
O número é 14 pontos porcentuais acima dos 34% que indicaram adotar iniciativas voltadas à geração de energia limpa em 2023 e 9 p.p. superior aos 39% registrados em 2022.
Para o diretor de relações institucionais da CNI, Roberto Muniz, o aumento do interesse das indústrias em investir em fontes de energia renováveis reflete o compromisso crescente da indústria brasileira com a sustentabilidade. “O avanço reforça a conscientização do setor sobre seu papel no enfrentamento das mudanças climáticas” diz.
No entanto, investimentos em energias renováveis também são uma alternativa de redução e controle de custos por parte das indústrias. Ao se tornar autoprodutor, o consumidor fica isento de alguns encargos setoriais, garantindo um curto de megawatt-hora (MWh) menor do que o contrato de compra e venda padrão junto a uma grande geradora ou com distribuidora de energia.
Conforme a pesquisa, entre as indústrias que afirmaram investir em ações para o uso de fontes renováveis de energia, a autoprodução foi a principal estratégia (42%), seguida de contratação de energia no mercado livre na modalidade incentivada (32%) – que, no momento, garante benefícios financeiros ao comprador –, e geração distribuída (21%).
O levantamento indica que o principal motivo que leva as indústrias a tomarem decisão de aumentar o uso de fontes renováveis é a redução de custos, apontada por 50% dos entrevistados. Incentivos fiscais aparecem na sequência, com 15%. Na terceira colocação vem a redução de emissão de poluentes, com 11%.
No recorte por tamanho de empresa, 44% das indústrias de pequeno porte disseram investir em autoprodução, enquanto 28% adotam contratos de energia incentivada no mercado livre e 23% têm sistema de geração distribuída. Entre as indústrias de médio e grande porte, a estratégia de autoprodução foi sinalizada por 36%, enquanto 51% contratam energia incentivada e 9% possuem geração distribuída.
Por região geográfica, as indústrias do Nordeste lideram a adoção de fontes renováveis, com 60% das empresas da região tendo iniciativas de projetos de energia limpa. As companhias do Norte e do Centro-Oeste aparecem com 50%, enquanto o Sul tem 53%. O Sudeste, que concentra a maior parcela de carga do país, registra 39% das indústrias com projetos voltados ao uso de energia eólica, solar, biomassa ou hidrogênio de baixo carbono no processo produtivo.
O Nordeste possui grande potencial eólico e solar e tem liderado a expansão da capacidade instalada de geração renovável no país. No entanto, curiosamente, não é por lá que mais se adota a autoprodução. A pesquisa aponta que 42% das indústrias da região têm essa estratégia, porcentual abaixo daquele indicado no Centro-Oeste e no Sul, com 46% em ambos os casos. No Sudeste, apenas 38% das indústrias citam a autoprodução.
Questionada se as empresas possuem projeto ou ação voltado para o uso de energias renováveis de energia nos próximos dois anos, 48% indicaram que sim, dos quais 93% apontaram investimentos em energia solar. O número é menor que o citado nas pesquisas anteriores, quando mais de 50% indicavam ter ações para os anos sucessivos, sendo 91% em solar.
Vale destacar que a pesquisa foi realizada entre 24 de outubro e 25 de novembro de 2024, quando não havia tanta clareza sobre as medidas que seriam tomadas pelo governo e que poderiam afetar os benefícios hoje existentes para autoprodutores ou grandes consumidores que adquirem energia incentivada.
No mês passado, o governo federal publicou uma medida provisória ancorada em três pilares: ampliação da gratuidade da tarifa social para famílias de baixa renda, abertura do mercado livre de energia para consumidores atendidos em baixa tensão, como os residenciais, e reequilíbrio dos encargos setoriais.
Neste terceiro item, estabeleceu travas para acesso a autoprodução e determinou um período de transição para encerrar os descontos nas tarifas de fio para consumidores que compram energia incentivada.
Ao todo, a pesquisa entrevistou mil executivos de indústrias de pequeno, médio e grande porte de todos os estados brasileiros.
Luciana Collet