A Cosan e a Shell estão em negociações avançadas para injetar novo capital na Raízen, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram à Bloomberg News. O objetivo é apresentar um plano aos principais credores e detentores de títulos de dívida da empresa brasileira de açúcar e etanol antes de finalizar esse plano.
A proposta em discussão inclui investimentos de fundos de private equity administrados pelo BTG Pactual, que adquiririam uma participação significativa no negócio de distribuição de combustíveis da Raízen por cerca de R$ 5,5 bilhões, disseram as pessoas, que pediram para não serem identificadas por estarem discutindo informações confidenciais.
As partes ainda discutem qual percentual da dívida da Raízen seria convertido em capital, e as conversas estão focadas em cerca de 35%, disseram as pessoas.
A Raízen precisa de novo aporte financeiro após ser pressionada por altas taxas de juros, safras abaixo do esperado e uma série de investimentos ambiciosos que ainda não geraram retornos significativos.
Sua classificação de risco de crédito foi rebaixada e seus títulos despencaram com a deterioração de sua situação financeira.
O plano em discussão inclui um aumento de capital de R$ 3 bilhões a R$ 5 bilhões dos atuais acionistas da Raízen, disseram as pessoas.
A Shell contribuiria com R$ 1,5 bilhão a R$ 3,5 bilhões, dependendo das futuras demandas de royalties da empresa, disseram as pessoas.
A Cosan, com sede em São Paulo, poderia injetar R$ 1 bilhão. Rubens Ometto, seu fundador bilionário, contribuiria com outros R$ 500 milhões, disseram as pessoas. Ometto busca um empréstimo para financiar a transação, disseram as pessoas.
O plano inclui uma reorganização societária, separando a Raízen Energia, empresa focada na produção de açúcar e etanol, da distribuidora de combustíveis na qual os fundos do BTG Pactual investiriam.
A Raízen Energia transferiria então parte de sua dívida para a distribuidora de combustíveis, separando o fluxo de caixa das duas empresas e alocando parte da dívida para o negócio que gera mais caixa.
O acordo incluiria ofertas de ações para proporcionar uma saída para credores e detentores de títulos. A proposta também inclui a venda de ativos, disseram as pessoas.
Os números finais e muitos detalhes ainda precisam ser definidos e um acordo, que depende da opinião de credores e detentores de títulos de dívida, pode acabar não sendo alcançado, segundo as fontes consultadas.
Uma reunião com credores e detentores de títulos está prevista para esta semana, de acordo com as pessoas.
Um porta-voz da Shell afirmou que a “prioridade da companhia é garantir que a Raízen identifique e busque soluções que sejam sustentáveis para a joint venture, para os acionistas e para os demais stakeholders da empresa”, e reforçou que a Shell está engajada de forma construtiva para um acordo viável.
Cosan, Raízen, BTG Pactual e Ometto não quiseram comentar.
O BTG Pactual Holding SA, veículo de investimento dos sócios do banco, investiu R$ 4,5 bilhões na Cosan em um aumento de capital no ano passado.
Embora Ometto mantenha o controle dos direitos de voto, com uma participação de 50,01% por meio da Aguassanta, os sócios do BTG Pactual se tornaram os maiores acionistas totais após o acordo, com quase 25%.
Enquanto as partes discutem os termos do acordo, a Cosan também trabalha em outras formas de captar recursos.
A companhia informou na segunda-feira, 23, que avalia a possibilidade de realizar uma oferta pública inicial de ações da Compass, segundo comunicado. A Raízen também está vendendo ativos.
A empresa de comercialização de energia Mercuria está perto de adquirir uma refinaria e centenas de postos de gasolina na Argentina da Raízen por cerca de US$ 1 bilhão, disseram pessoas familiarizadas com o assunto à Bloomberg News no início deste mês.
A empresa precisa de um aporte de capital de R$ 20 bilhões a 25 bilhões, segundo o banco de investimentos UBS BB, no final do ano passado. As negociações para garantir a capitalização se arrastam há meses, impulsionando uma onda de vendas de títulos da empresa.
A Raízen e seus assessores discutiram possíveis cenários, incluindo aplicar um deságio na dívida como parte de uma reestruturação, informou a Bloomberg News no início deste ano.
Rachel Gamarski e Cristiane Lucchesi