Operação envolve ações avaliadas em cerca de R$ 7 bilhões e ocorre em meio à estratégia de redução do endividamento da holding
A Cosan aprovou a transferência de 20,33% das ações da Rumo para o Maglev Fundo de Investimento em Participações (FIP), que terá gestão do BTG Pactual. A decisão foi tomada pelo conselho de administração da holding em 6 de outubro e divulgada na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na última sexta-feira, 16.
Como única cotista do fundo, a Cosan continuará detendo indiretamente as ações transferidas. Assim, a operação não é uma venda dos papéis nem gera entrada de recursos no caixa da companhia.
Considerando a cotação de R$ 18,58 por ação da Rumo no fechamento de sexta-feira, o lote de 377,8 milhões de ações ordinárias teria valor de mercado estimado em R$ 7,02 bilhões. O montante é uma referência, não o preço de uma eventual transação.
A estrutura pode facilitar uma futura negociação da participação, permitir a entrada de investidores no fundo ou viabilizar operações financeiras envolvendo as ações. No documento, a Cosan não informou os objetivos específicos da transferência.
O movimento ocorre depois de a holding contratar, em junho, o BTG Pactual como assessor financeiro para avaliar alternativas sobre sua participação na Rumo. Em agosto, a Cosan confirmou o recebimento de propostas vinculantes de interessados na aquisição de parte de sua participação na operadora ferroviária.
Na ocasião, informações de mercado apontavam negociações de aproximadamente 15% da Rumo, por cerca de R$ 5 bilhões. Entre os potenciais compradores mencionados estavam o Grupo México e a chinesa Cofco, em associação com a Bunge.
O percentual de 20,33% destinado ao FIP supera os cerca de 15% que estariam em negociação em agosto. A Cosan não informou se as duas operações estão relacionadas.
Desalavancagem
A eventual venda de ações da Rumo é considerada mais um passo no processo de desalavancagem, apontada pela holding como prioridade de sua estratégia financeira especialmente a partir de 2025.
Em análise divulgada em agosto, o Citi estimou que uma alienação de R$ 5 bilhões para pagamento de dívidas poderia reduzir as despesas financeiras anuais da Cosan em aproximadamente R$ 800 milhões.
A estratégia de desinvestimentos ganhou força após a expansão do grupo nos anos anteriores, financiada parcialmente por endividamento. O aumento das despesas financeiras em um ambiente de juros elevados derreteu os resultados da companhia.
Um dos negócios mais relevantes foi a aquisição de uma participação de quase 5% na Vale em 2022. Em janeiro de 2025, a Cosan desfez-se de 4,05% do capital da mineradora por cerca de R$ 9 bilhões. A companhia já havia vendido outra parcela da participação em abril de 2024.
A reciclagem de ativos também alcançou o agronegócio. Em 2024, a Radar vendeu nove propriedades rurais, operação que contribuiu para elevar sua receita líquida de R$ 743 milhões para R$ 1,4 bilhão naquele ano.
Em maio de 2026, a Cosan levantou cerca de R$ 2,3 bilhões líquidos com a oferta pública inicial de ações (IPO) da Compass, sua controlada de distribuição de gás natural. A operação reduziu sua participação na empresa para 76,18%.
Em julho, a Cosan confirmou acordos para a venda de 41,2 mil hectares do portfólio da Radar, em Mato Grosso, por R$ 1,85 bilhão. Desse valor, aproximadamente R$ 586 milhões correspondiam à holding.
Os imóveis, equivalentes a 12% do portfólio da Radar, foram negociados com os arrendatários SLC Agrícola, Bom Futuro e Alexandre Jacques Bottan. A conclusão da operação está prevista para até 30 de outubro.
A companhia também formalizou, em agosto, uma carta de intenções para vender sua participação no Porto São Luís, no Maranhão, por R$ 300 milhões. A operação ainda dependia da conclusão das negociações.
A pressão financeira sobre o grupo também foi agravada pela crise da Raízen, joint venture com a Shell que entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026. O plano, homologado pela Justiça em julho, prevê a reestruturação de mais de R$ 60 bilhões em dívidas financeiras.
Ao final do segundo trimestre, a dívida líquida expandida da Cosan Corporate somava R$ 9,22 bilhões, queda de aproximadamente 20% em relação ao trimestre anterior. A holding registrou prejuízo líquido de R$ 320 milhões no período.
Dando Rumo?
No caso da Rumo, o desafio envolve conciliar o potencial de crescimento da operação ferroviária, especialmente no transporte de grãos, com a necessidade de geração de caixa da controladora. A empresa opera uma malha de mais de 14 mil quilômetros de ferrovias, com presença em importantes corredores de escoamento da produção agrícola brasileira.
Seu ciclo de investimentos limita a distribuição de dividendos no curto prazo, o que pode reforçar o interesse da Cosan em monetizar parte de sua participação na companhia.
Pela estrutura aprovada, o FIP Maglev será considerado subsidiária relevante da holding e ficará submetido ao acordo de acionistas firmado em novembro de 2025. Os conselheiros vinculados ao BTG se abstiveram da votação sobre a contratação das empresas do banco, diante de potencial conflito de interesses.
O documento não estabelece prazo para eventual venda das ações nem informa se o fundo será utilizado para receber novos investidores.
Daniel Azevedo Duarte