A Cosan precisou antecipar a divulgação da compra de uma fatia da Vale, segundo o vice-presidente de estratégia da empresa, Marcelo Martins. A operação bilionária era para ser divulgada neste final de semana, mas acabou tendo que ser revelada ao mercado no meio da tarde de sexta-feira.
“Um possível vazamento acabou ocorrendo e tivemos que antecipar o fato relevante”, disse em teleconferência na noite da sexta-feira, 7.
Segundo ele, o objetivo era fazer o anúncio “com calma” no final de semana, mas o suposto vazamento mudou os planos.
O executivo disse que a conclusão da transação ocorreu na própria sexta-feira. “Acreditamos que o ponto de entrada da Vale é agora. Não achamos que devemos esperar a venda de ativos da Cosan para isso”, disse na teleconferência.
O mercado recebeu com reservas a divulgação da operação e as ações da Cosan fecharam em queda de quase 9%, por conta do temor de aumento das dívidas do grupo. Por isso, esse foi um dos principais tópicos que os executivos da Cosan tentaram explicar na disputada teleconferência, que teve lotação máxima.
“A Vale é um ativo único e irreplicável, posicionado em um setor onde o Brasil tem grande vantagem competitiva e comparativa com exposição a moedas fortes”, afirmou Martins, que seguiu: “A operação não compromete a saúde financeira do grupo”.
Se isso ocorrer, ele afirma que a operação pode ser desfeita, nas partes ou no todo. Ou seja, a Cosan pode chegar a 6,5% da Vale mas também por vir, em um caso extremo, a ter zero, caso entenda no futuro que a estratégia compromete sua saúde financeira.
Fora do negócio de açúcar e etanol, a compra da Esso, em 2008, foi a primeira aposta do grupo, contou Martins. Naquele momento, muito se questionou sobre a capacidade do grupo de apostar em um novo negócio, fora de sua área principal de atuação, o que em seguida se mostrou uma estratégia acertada. “Temos a reputação de ser player disciplinado e investidor que agrega valor. Isso não muda”, afirma.
Ao comprar uma participação minoritária na Vale, que pode chegar a R$ 22 bilhões ao todo, a Cosan dá um novo passo em sua estratégia de alocação de capital e diversificação do portfólio, apostando em setores onde o Brasil tem claras vantagens competitivas e comparativas, comentou o diretor financeiro da Cosan, Ricardo Lewin, em teleconferência.
O financiamento da operação, via empréstimo bancário e derivativos, mantêm a alavancagem do grupo “em níveis adequados”, e a estratégia não compromete a saúde financeira do grupo e não afeta investimentos das empresas controladas, afirmou o comando da Cosan.
Na teleconferência, Lewin mostrou uma apresentação em que detalha a operação, que foi uma compra minoritária de ações ordinárias (ON) da Vale, por meio de uma combinação de compra direta de ações no mercado e uma estrutura de derivativos. “Com essa participação, a Cosan pretende se tornar um acionista relevante da empresa e contribuir para criação de valor”, afirmou.
A transação foi financiada por um empréstimo-ponte de longo prazo de R$ 8 bilhões com Itaú e Bradesco e uma estrutura de derivativos de 5 anos com JPMorgan e Citi de R$ 13 bilhões – o chamado collar financing. “A estrutura de financiamento limita os riscos”, afirmou Lewin.
Pela estrutura, a Cosan comprou o equivalente a 1,5% em ações da Vale de forma direta no mercado e 3,5% via instrumentos financeiros derivativos com proteção para queda do preço das ações da Vale.
A Cosan pode ainda comprar mais 1,6%, em posição feita com estrutura de derivativos também com proteção de queda do preço das ações da Vale. Nesse caso, a operação de derivativos poderá ser convertida em uma estrutura com direito a voto, após aprovação da operação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Com isso, o grupo criado pelo empresário Rubens Ometto pode chegar a 6,5% da mineradora, uma posição avaliada em R$ 22 bilhões.
O empréstimo-ponte será refinanciado por uma operação de ‘equity’, com ações preferenciais de Raízen e Compass que não afetam o endividamento da Cosan, afirmou seu diretor financeiro. “É importante destacar que a Cosan não precisará emitir ações para financiar o pagamento do colar financing derivativo”, disse Martins.
Sobre potenciais formas de pagar o financiamento da operação, os executivos explicaram que a Cosan tem “diversas alternativas”, incluindo a venda de participações minoritárias dos ativos nos próximos anos. O grupo também pode usar dividendos de suas empresas e da Vale para o pagamento.
Além disso, a estrutura de derivativos permite o desmonte da operação através da venda das ações para os bancos, sem risco de crédito para a Cosan. “Podemos também refinanciar a estrutura, alongando o prazo ou fazer o pagamento do collar financing, desfazendo da operação de derivativos e ficando expostos à ação da Vale”, afirmou o diretor.
A diretoria da Cosan explicou que a entrada do grupo na Vale se dá em um momento favorável para a criação de valor para o portfólio da Cosan. “Ela é um ativo cujos principais produtos são essenciais na economia e relevantes para a transição energética”, afirmou Lewin.