Uma das consequências possíveis do evento envolvem valores que fazem os olhos de qualquer usineiro brilhar
A 21ª Conferência do Clima (COP 21), que acontece em Paris, em dezembro próximo, pode ser um divisor de águas para o futuro do etanol na matriz energética. A expectativa é que o evento traga para o Brasil compromissos obrigatórios de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEEs).
Uma das consequências possíveis do evento envolvem valores que fazem os olhos de qualquer usineiro brilhar. No caso da criação de um mercado obrigatório de créditos de carbono, o benefício chegaria a R$ 87,2 bilhões para os próximos 15 anos, o que representa R$ 0,60 por litro de etanol adicional produzido (veja os detalhes deste cálculo abaixo).
No país, o etanol de cana-de-açúcar é o potencial principal aliado para a redução das emissões, considerando o benefício ambiental e social gerados pela cadeia sucroenergética, além do forte impacto do setor de transporte nas emissões, passível de ser mitigado pelo renovável.
“O novo acordo a ser adotado na COP 21 exigirá a construção de políticas públicas que permitam ao Brasil reduzir emissões e crescer”, aponta o diretor-geral da Agroícone, Rodrigo Lima. A questão é se a cana-de-açúcar fará parte dessa estratégia de desenvolvimento sustentável.
Veja a seguir o cenário traçado pelo instituto caso o setor canavieiro seja um protagonista da COP 21. E ainda as provocações sobre a ausência de uma visão mais definitiva de valorização dos atributos positivos do etanol.
A 21ª Conferência do Clima (COP 21), que acontece em Paris, em dezembro próximo, pode ser um divisor de águas para o futuro do etanol na matriz energética. A expectativa é que o evento traga para o Brasil compromissos obrigatórios de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEEs).
No país, o etanol de cana-de-açúcar é o potencial principal aliado para a redução das emissões, considerando o benefício ambiental e social gerados pela cadeia sucroenergética, além do forte impacto do setor de transporte nas emissões, passível de ser mitigado pelo renovável.
“O novo acordo a ser adotado na COP 21 exigirá a construção de políticas públicas que permitam ao Brasil reduzir emissões e crescer”, aponta o diretor-geral da Agroícone, Rodrigo Lima. A questão é se a cana-de-açúcar fará parte dessa estratégia de desenvolvimento sustentável, completa.
Em palestra "Cana-de-açúcar como ativo estratégico da agenda de mitigação de GEEs (Gases do Efeito Estufa)", apresentada recentemente em evento do setor, o diretor geral da Agroícone, apresentou dados sobre o potencial ambiental do etanol na mitigação de gases nocivos ao meio ambiente e fez algumas provocações sobre a ausência de uma visão mais definitiva, por parte do governo, da valorização dos atributos positivos do etanol.
“Há falta de planejamento estratégico de longo prazo”, afirma o executivo em entrevista ao NovaCana. "O Plano Decenal de Energia 2020 [lançado em 2011 pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE)] previa uma demanda de etanol na casa dos 63 bilhões de litros em 2020, e nenhuma política de incentivo foi criada para estimular a produção e o consumo, que em 2015 deverá chegar próximo de 25 bilhões de litros", aponta.
Sem ações governamentais para fomentar o crescimento da produção e a competitividade do biocombustível, nas edições posteriores do PDE, a EPE rebaixou suas previsões. A projeção mais recente estima que ao final do decênio, em 2023, a demanda por etanol fique em torno de 42,8 bilhões de litros. No entanto, a próxima edição do PDE deve incorporar os reflexos da crise brasileira e projetar uma demanda significativamente menor.
Rodrigo Lima reclama que ao invés de incentivar, a atuação do governo foi "pelo contrário”. Segundo ele, “os ‘desincentivos’ ao setor por meio da redução e posterior retirada da Contribuição para Intervenção no Domínio Econômico (Cide) na gasolina [retomada em janeiro deste ano], da redução da mistura do etanol anidro [na gasolina, para 20% em 2011] foram na contramão do objetivo de estimular o etanol em função de seus benefícios ambientais".
A mistura de etanol na gasolina foi restabelecida em 25%, em 2013, e desde março deste ano é de 27%.
Potencial mitigador do etanol de 2015 a 2030
Segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, enquanto a emissão por uso de terras e florestas despencou, entre 2005 e 2012, de 58% do total dos gases gerados para 15%, a responsabilidade da energia subiu de 16% para 37%, com crescimento da participação dos transportes.
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Em junho, Brasil e Estados Unidos fizeram um acordo em que se comprometem a aumentar para 20% a participação da energia renovável de fontes não hidrelétricas em suas matrizes energéticas até 2030. O anúncio foi feito no encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o chefe de estado norte-americano Barack Obama.
Olhando especificamente para o setor sucroenergético até 2030, a Agroícone traça dois cenários: um de estagnação, outro de expansão, que seria impulsionado no caso de um protagonismo do setor canavieiro no acordo da COP 21.
No melhor dos cenários, Rodrigo traçou uma perspectiva de que a cana-de-açúcar colabore para um índice de mitigação de 1,14 milhão de toneladas de CO2, que equivalem a cerca de seis anos de emissões no setor de transporte. Para isso, em 2030, a moagem precisará alcançar 1 bilhão de toneladas, com uma participação do etanol de segunda geração (E2G) de 5 bilhões de litros.
Já em um ambiente de estagnação do setor, a possibilidade de redução das emissões cai praticamente pela metade, para 569 milhões de toneladas de CO2. Neste caso, a moagem chegaria a meros 731 milhões de toneladas de cana, em 2030, com a produção do etanol 2G de apenas 200 milhões de litros e um recuo no consumo total do biocombustível, para 21,6 bilhões de litros, ante 24,7 bilhões registrados em 2014.
"Assumindo que o potencial de redução de emissões do etanol e da bioeletricidade pode chegar a 1,14 milhão de toneladas de CO2 equivalente em 2030, desde que existam políticas de incentivo claras, resta saber se a cana será usada como ativo estratégico pelo governo ou não", questiona.
Embora o consumo de etanol hidratado por veículos da frota flex tenha atingido níveis recordes para junho este ano, a escolha pelo biocombustível se dá muito mais por aspectos econômicos do que ambientais.
"O consumidor usa etanol quando o preço compensa. Caso contrário, opta pela gasolina", analisa Rodrigo. Para alterar essa realidade em que a escolha pelo etanol é altamente volátil, ele aponta a necessidade de políticas públicas que precifiquem o carbono ou incentivem a produção e o consumo as energias renováveis em detrimento das fósseis.
"A COP 21 deverá ser o berço de um novo acordo global para regular a agenda de mudanças do clima. E nesse contexto, o Brasil deve usar os biocombustíveis com outro enfoque, o que permitirá mudar a visão da população quanto às diferentes energias, incluindo o etanol", aposta.
Possibilidades de um mercado de carbono
Outro cálculo feito pelo especialista para exemplificar as vantagens do etanol na comparação com os combustíveis fósseis, ainda sob o guarda-chuva ambiental, se refere às possibilidades, dentro do mercado de emissões de crédito de carbono, para rentabilizar o etanol.
O Ministério da Fazenda estuda pelo menos desde 2012 a implantação de um mercado de carbono, que segundo especialistas deve ficar para o fim da década (embora já exista um mercado voluntário de carbono, com a participação de empresas de diversos setores).
Em um cenário hipotético, assumindo um preço de carbono de US$ 39 a tonelada durante este ano e até US$ 55 toneladas em 2030, o benefício adicional chegaria a R$ 87,2 bilhões para os próximos 15 anos, o que representa R$ 0,60 por litro de etanol adicional produzido.
“Agora, a caminho da COP 21, os estoques florestais resultantes da redução do desmatamento são ativos, o que exige que o Brasil reduza emissões preponderantemente nos setores de energia e agropecuária”, destaca Rodrigo.
Diante dessa perspectiva, o especialista acredita ser fundamental que se intensifique a discussão sobre mercado de carbono “como forma de motivar reduções eficientes de emissão, permitindo com que setores mais emissores consigam reduzir emissões e agregar tecnologias, e setores com um potencial de redução elevado como o etanol gerem créditos ou compensem as emissões de outros setores”.
Filipe Albuquerque – NovaCana