Com consumo de etanol elevado durante o ano o setor chegou em um momento delicado, em que não há certeza se os estoques serão suficientes para aguentar até o fim da entressafra
Acompanhar o mercado sucroalcooleiro é uma tarefa bastante analítica e que demanda muita atenção aos movimentos do setor. Parte desse trabalho é realizado por consultorias especializadas que, com base em resultados anteriores e conhecimentos de seus analistas conseguem prever para onde os números irão caminhar.
Com consumo de etanol elevado durante o ano o setor chegou em um momento delicado, em que não há certeza se os estoques serão suficientes para aguentar até o fim da entressafra. O NovaCana conversou com especialistas da FGAgro e FCStone para entender como o mercado deve se desenvolver no quarto trimestre de 2015 e início do próximo ano.
Hoje, a situação do mercado de etanol é incomum se comparada a períodos anteriores...
Acompanhar o mercado sucroalcooleiro é uma tarefa bastante analítica e que demanda muita atenção aos movimentos do setor. Parte desse trabalho é realizado por consultorias especializadas que, com base em resultados anteriores e conhecimentos de seus analistas conseguem prever para onde os números irão caminhar.
Com consumo de etanol elevado durante o ano o setor chegou em um momento delicado, em que não há certeza se os estoques serão suficientes para aguentar até o fim da entressafra. O NovaCana conversou com especialistas para entender o que se pode esperar para o quarto trimestre de 2015 e início do próximo ano.
Hoje, a situação do mercado de etanol é incomum se comparada a períodos anteriores. As usinas construíram estoques menores durante a safra devido aos estímulos ao consumo do biocombustível, o que desencadeou uma nova conjuntura.
“Esses estímulos, culminados à situação financeira complicada da maioria das empresas fez com que não tivessem capital próprio para financiar a estocagem de etanol”, explica o analista de açúcar e etanol da FCStone, João Paulo Botelho. Para ele, a situação político-econômica do país dificultou o tempo de crédito para essa operação e as indústrias preferiram vender muito mais etanol no mercado spot, visto que oferece maior liquidez e pagamento mais rápido que o açúcar negociado no mercado internacional.
A solução, no entanto, foi apenas temporária: sem grandes estoques, a situação da entressafra se mostra mais frágil, visto que o mercado vem registrando aumentos consecutivos de consumo.
Para o analista da FGAgro, João Henrique Rissi, até março de 2016 existe disponibilidade para que sejam consumidos 1,2 bilhão de litros mensalmente. Hoje, o consumo gira em torno de 1,6 bilhão, e os últimos dados da Unica mostram que em outubro as usinas chegaram a vender 1,7 bilhão às distribuidoras nacionais. No entanto, a paridade é que vai guiar o consumo. As épocas de maiores demandas por etanol neste ano contavam com paridade favorável para o biocombustível na casa dos 62%.
Para a FGAgro, o consumo deve cair a partir do momento que o valor alcançar 70% – quando a gasolina é mais vantajosa. Na semana passada, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, os três maiores consumidores do ciclo Otto, passaram a ter uma paridade acima dos 70%. O impacto dessa nova faixa é difícil de prever, mas é certo que quanto menos cair o consumo de etanol, mais o preço na usina tende a subir.
“Caso a demanda pelo hidratado se mantivesse constante, seus estoques não durariam até o final da entressafra no Centro-Sul. Neste cenário hipotético, calculamos que seriam necessários pelo menos mais 790 milhões de litros do bicombustível para que os estoques alcançassem o final de março zerados”, imagina o consultor da FCStone.
Efeito psicológico
“As pessoas vão ver a gasolina mais cara, beirando R$ 4 em alguns locais, e colocar etanol sem fazer a conta”, diz Rissi, da FGAgro. Como exemplo, ele cita o caso da região Nordeste onde, de abril a setembro a paridade média foi de 78%. Ainda assim, no mesmo período, o consumo de etanol cresceu 95% por lá.
Segundo ele, há uma certa inércia que move a compra na bomba. Ao analisar safras anteriores, mesmo com paridades favoráveis ao etanol no centro-sul – variando de 65% a 66% – o consumo não era tão avantajado. “Precisou haver uma queda forte, para 63%, para o pessoal colocar. Agora, como as pessoas vêm colocando, talvez ocorra uma resistência mesmo sem vantagem”, pondera Rissi.
Botelho, da FCStone, também acredita que o efeito psicológico fará com que o consumo demore um pouco para cair. Ainda assim, não imagina que o mercado verá consumo de volumes tão grandes nesta reta final para a entressafra. “Com a reação – mesmo que demorada – à paridade pior, o ritmo vai vir mais baixo no último trimestre”, esclarece.
CIDE e preço do etanol
O aumento da Cide, tido como um dos maiores aliados ao consumo do etanol, continua sendo esperado pelos especialistas como uma possibilidade real. Ambos destacam que, com os entraves para a aprovação da CPMF, existem grandes chances de o imposto sobre a gasolina subir no ano que vem. Mas é preciso cautela.
A FCStone vê um aumento da CIDE como favorável à melhor paridade para o etanol e propulsor do consumo do hidratado. No entanto, a questão dos estoques vem à tona novamente. “Então, não demoraria tanto tempo até que as usinas voltassem a cobrar preços ainda maiores pelo produto”, analisa João Botelho.
Ele avalia que se o aumento for realizado em janeiro, mês em que a produção é pequena, o impacto seria ainda maior, tornando o mercado dependente de poucas usinas com estoques suficientes e que, em geral, estão em situação financeira melhor, possibilitando a cobrança de preços mais altos.
João Rissi aponta que a FGAgro trabalha com 60% a 70% de chances de o tributo vir para a casa dos R$ 0,20. Ele também menciona a possibilidade de ajustes adicionais. Assim sendo, seria possível oferecer etanol com paridade entre 63% e 64%, e a usina ser melhor remunerada.
Ainda assim, a paridade deve se manter desfavorável em praticamente todo o país durante a entressafra, retornando a preços menores a partir de março ou abril.
Botelho prevê que além dos aumentos, é necessário observar o desenvolvimento do mercado de açúcar, que remunera significativamente melhor que o etanol. “Mas, provavelmente, várias usinas continuarão preferindo o etanol por causa das questões financeiras, o que deve ajudar a ter uma paridade um pouco melhor no pico da safra”.
É preciso, porém, estar atento ao mercado de açúcar e condições do dólar, que são os fatores que seguram a remuneração da exportação da commodity acima da produção de etanol.
O fato observado pelos analistas é que a gasolina passou a refletir a realidade face ao mercado internacional e mesmo com paridades baixas, na casa dos 62%, era possível pagar um pouco acima do custo da usina. “Com esse último reajuste as margens melhoraram um pouco”, afirma Rissi.
Mais capacidade
O especialista da FGAgro defende que, da forma como o mercado segue atualmente, existe incentivo para aumento de capacidade. No entanto, isso ainda não foi concretizado pelo fato de que vários players estão em dificuldade.
A expectativa de moagem para o centro-sul é de cerca de 594 milhões de toneladas, mas existe uma margem potencial de 15 a 20 milhões de toneladas a mais na moagem até o fim da safra. Nesse horizonte, o que deve mudar é o mix da produção, que pode passar a ser mais alcooleiro em função da demanda interna.
A questão, segundo ele, é se há retorno em cenários de médio e longo prazo. Com preços melhores do etanol é natural que a capacidade volte a aumentar, mas o analista julga necessário avaliar o tempo que novas unidades levam para começar a funcionar. Ou seja: há espaço para crescer, mas esse aumento não deve ser visto tão cedo. “É questão de o investidor ter segurança dessa nova perspectiva de preço, passar a acreditar e investir em greenfield, brownfield. Mas incremento relevante de produção é para daqui duas safras, se os investidores tomarem risco e investirem”, indica Rissi.
Exportação
Com o cenário de dólar mais alto as possibilidades de exportação começam a melhorar, mas, considerando preços médios de mercado, para muitas usinas ainda não é compensador vender para o mercado externo, avalia Botelho da FCStone. Ele acredita que os números melhores em outubro desse ano são resultado de grandes traders de etanol que já possuem estrutura de exportação montada e, por isso, acabam tendo custos menores.
“Para a maioria do setor ainda não vale a pena. Acho que esses volumes de exportação vão continuar sendo mais um apoio à demanda do que um fator realmente decisivo na demanda por etanol”, reitera.
O aumento do câmbio foi o principal influenciador das exportações de etanol. Dados da FGAgro mostram que o volume exportado de anidro e hidratado deve chegar a 1,8 bilhão de litros nesta safra, 300 milhões de litros superior ao volume da safra passada.
João Rissi comenta que a consultoria estimava, inicialmente, redução das exportações sem o aumento do câmbio. “Com essa invertida tivemos de mudar a expectativa, com crescimento comparado a safra anterior”. O profissional lembra que nem todas as usinas estão habilitadas para exportar e, quem está, deve prestar atenção às questões logísticas para que não haja limitações.
Preocupações
Menos intervenções, consolidação do momento atual e tamanho da entressafra são as preocupações das usinas, de acordo com FCStone e FGAgro.
A maior parte das sucroalcooleiras deve estender a safra para traduzir o aumento de produtividade agrícola em produção de açúcar e etanol, visto que a grande quantidade de chuvas no centro-sul atrapalhou a quantidade e qualidade do ATR na cana. “O problema é se as chuvas vão deixar. Se chover demais, não vale a pena continuar a operar”, diz Botelho, da FCStone.
Com isso em mente, o centro-sul e, principalmente, o estado de São Paulo, devem deixar um volume considerável de cana bisada: as estimativas da FCStone apontam 38 milhões de toneladas para a região. Isso deve refletir em início adiantado da próxima safra. O resultado será uma entressafra mais curta, com algumas usinas indo até o começo de janeiro e outras até fevereiro ou março.
Avanço em ordem
A FGAgro tem uma análise um pouco mais política da situação e enxerga que é preciso deixar o setor caminhar por si só. “Oferta e demanda têm mostrado para a gente que é um ciclo construtivo de preço, dados os últimos anos ruins. É necessária uma consolidação desse momento para todo mundo encarar como uma nova fase”, espera o analista da consultoria.
Segundo ele, apenas com momento bem consolidado será possível fazer com que investidores de fora, mercado e financiadores apresentem estímulos para ampliações e novidades no setor.
“Se a política de preço do combustível seguir com está, a Petrobras passando preços reais para o mercado e os incentivos ao setor continuarem, está tudo em ordem. Do ponto de vista da demanda também. Só não pode surgir mais intervencionismo”, frisa Rissi.
Jorge Mariano – NovaCana