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Mesmo considerada estável, Biosev tem alerta de inadimplência elevado pela Fitch

biosev usina 260815Se por um lado, a Fitch tem sinalizado perspectivas mais favoráveis em relação ao setor, parece que, por outro, nem todas as empresas sucroenergéticas têm condições para se beneficiar

NovaCana 8 min de leitura

Se por um lado, a agência de classificação de risco Fitch tem sinalizado as perspectivas mais favoráveis, de curto a médio prazo, em relação ao volátil setor brasileiro de açúcar e etanol, parece que, por outro, nem todas as empresas sucroenergéticas têm as condições para se beneficiar imediatamente dessa possível nova fase sinalizada pela agência.

Enquanto a Jalles Machado conquistou uma estabilização dos ratings e uma manutenção de suas notas junto a Fitch, a Biosev, embora já classificada como estável, viu suas notas serem diminuídas. Os novos ratings ligaram o alerta para a probabilidade de inadimplência da companhia.

A avaliação traz duas nuances do cenário financeiro da Biosev. A companhia, assim como muitas empresas do setor, vive uma situação de endividamento delicada devido ao risco cambial, uma vez que grande parte de seus débitos está vinculada ao dólar. A justificativa do atual rebaixamento de rating incluiu análises do fluxo de caixa da companhia, das perspectivas de produção e também de parcerias comerciais.

Nos primeiros meses de 2016, os olhos do setor sucroenergético voltaram-se para as decisões tomadas pela Biosev, considerada a segunda maior processadora de cana-de-açúcar do mundo. A companhia começou o período se diferenciando de alguns de seus principais concorrentes em suas estratégias de comercialização de açúcar e, além disso, já iniciou uma discussão com credores para renegociar e tentar alongar os R$ 3,035 bilhões em dívidas com vencimento em 2017 e 2018.

Com isso, recebeu bons olhos das agências do setor. Ainda no ano passado a agência de classificação de risco Fitch elogiou a estratégia adotada pela companhia com relação à armazenagem de produtos para a entressafra e uma consequente redução das dívidas de curto prazo. Na ocasião, de um total de seis companhias, a Biosev era a segunda empresa com melhor rating (BB -) do setor sucroalcooleiro na avaliação da Fitch.

Mas, a Biosev, assim como muitas empresas do setor, vive uma situação de endividamento delicada devido ao risco cambial, uma vez que grande parte de seus débitos está vinculada ao dólar.

A companhia era classificada como tendo uma perspectiva de ratings negativa, o que já indicava a possibilidade de um rebaixamento. Assim, agora a Fitch diminuiu a nota que indica a probabilidade de inadimplência da Biosev, que caiu de BB- para B+, enquanto o rating nacional da companhia foi de A+ para A-. Um ponto positivo é que a agência de classificação de risco passou a considerar a perspectiva de estabilidade, indicando – mas não garantindo – que não devem ocorrer novos rebaixamentos em breve.

O rating, segundo a Fitch, indica que um significativo risco de inadimplência está presente, porém, uma limitada margem de segurança ainda existe. Os compromissos financeiros estão sendo honrados, mas a capacidade de continuar efetuando pagamentos está vulnerável à deterioração nos ambientes de negócios e econômico. Com a mudança, a empresa saiu da classificação "especulativa" para "altamente especulativa".

"A combinação dos significativos investimentos agrícolas e industriais da companhia, necessários para melhorar a produção agrícola e reduzir a capacidade ociosa de suas usinas, com elevadas taxas de juros e cambiais, deverá retardar as melhoras esperadas em seus índices de FCF e de alavancagem", afirma Fitch. Segundo a agência, além de precisar manter sob controle a dívida líquida, qualquer demonstração de diminuição do suporte do Grupo LD, principal parceiro comercial da Biosev, pode levar a um novo rebaixamento, o que, consequentemente, significa um aumento do risco de inadimplência.

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O rebaixamento indica que nem todas as empresas sucroenergéticas têm as condições para beneficiar imediatamente da nova fase esperada pela agência. Segundo avaliação realizada pela própria Fitch, há uma perspectiva de uma possível recuperação ao longo de 2016. Um dos reflexos que sinalizam as perspectivas mais favoráveis foi a avaliação da Jalles Machado que, embora não tenha tido sua nota diminuída, conquistou uma estabilização dos ratings.

Segundo a Fitch, essa redução das notas da Biosev foi motivada por indicadores como o fluxo de caixa livre (FCF) e a alavancagem da companhia. “Embora o cenário do açúcar e etanol tenha melhorado recentemente e seja esperado um aumento dos volumes moídos na safra da Biosev atualmente em curso, a combinação dos significativos investimentos agrícolas e industriais da companhia, necessários para melhorar a produção agrícola e reduzir a capacidade ociosa de suas usinas, com elevadas taxas de juros e cambiais, deverá retardar as melhoras esperadas”, justifica o documento.

Apesar dessa compreensão da agência, a companhia já divulgou uma moagem de 31 milhões de toneladas na safra 2015/16, considerada a maior das últimas cinco safras. Também foi observado um aumento de produtividade agrícola de 14%.

“Os ratings continuam refletindo a grande capacidade de moagem e armazenagem da Biosev, aliada ao modelo de negócios diferenciado, baseado em clusters”, pondera a Fitch.

Fluxo de caixa livre será negativo até 2017/18

Apesar disso, a Fitch diz acreditar que a Biosev terá FCF negativo nas safras 2016/17 e 2017/18 devido aos investimentos necessários para melhorar a produtividade de seus canaviais e à utilização da capacidade de suas usinas. Mesmo que a companhia seja beneficiada pelo aumento dos preços de açúcar e etanol e pelo aumento dos volumes moídos, a agência projeta um fluxo de caixa negativo em torno de R$ 300 milhões para o exercício terminado em 31 de março de 2016. Já em 2017, o FCF deve ficar negativo em R$ 200 milhões.  

Uma consequência dessa geração de fluxo de caixa negativo, ainda mais quando aliada à desvalorização do real perante o dólar, é um aumento no índice de alavancagem da Biosev. Para a Fitch, a capacidade da companhia em reduzir a alavancagem dependerá de sua habilidade em combinar um aumento da produção e da utilização da capacidade em suas usinas com a manutenção de preços favoráveis do açúcar e etanol.

Atualmente, a dívida da Biosev em dólar corresponde a 75% de sua dívida total ajustada. No período de nove meses encerrado em 31 de dezembro de 2015, a companhia reportou perdas cambiais líquidas de R$ 700 milhões.

Produzir mais não é garantia de lucro

Para suas previsões, a Fitch trabalhou com uma perspectiva de aumento de 6% nos volumes moídos pela Biosev para a safra 2016/17 e de 2% para a safra 2017/18 e subsequentes. Ainda assim, a larga escala ainda não beneficiou os indicadores operacionais da companhia. “A agência espera que a companhia ainda opere com relevante capacidade ociosa em comparação com os pares de porte semelhante”, observa.

Também é válido observar que a Fitch considerou apenas o crescimento orgânico da produção, desconsiderando a realização de aquisições a curto e médio prazos. A expectativa é que a Biosev melhore a rentabilidade dos atuais ativos antes de mudar para oportunidades de crescimento inorgânico.

Mas a empresa possui uma grande vantagem em relação aos concorrentes: sua capacidade de manter grandes volumes em estoque. “A agência considera a estratégia de rentabilidade, no momento atual, positiva e favorável aos atuais ratings”, complementa.

Comprador fiel, Grupo LD diminui riscos

A agência de classificação de risco ainda classificou como positiva a associação da Biosev com o Grupo LD, um dos principais clientes do açúcar produzido pela empresa. “A associação (...) proporciona à Biosev acesso à ampla gama de dados e informações sobre a situação atual dos mercados globais de açúcar e etanol, níveis de estoques e de demanda dos dois produtos, tendências dos preços e desempenho das moedas estrangeiras em todo o mundo, dentre outros pontos”, alega o relatório.

Segundo o documento, o suporte do LD também ocorre em forma de adiantamentos recebidos do grupo para futuras entregas de açúcar VHP. “Estes adiantamentos são utilizados no financiamento das necessidades de capital de giro da Biosev”, declara a Fitch. Além disso, esta dívida apresenta menor risco de refinanciamento, quando comparada a dívidas bancárias normais, justamente por entre companhias.

De acordo com a Fitch, normalmente, as vendas intragrupo totalizam uma faixa de 700 mil a 900 mil toneladas de açúcar VHP por ano. “A adoção de eficientes práticas de administração de risco tem se refletido positivamente no atrativo patamar de preços com hedge do açúcar e também tem ajudado a diminuir o impacto da recente volatilidade cambial”, completa.

ATUALIZAÇÃO (27/04): O texto foi alterado para informar que, em seu relatório anterior, a Fitch considerava a perspectiva de ratings da Biosev como negativa e não estável, como foi informado anteriormente.

Renata Bossle – NovaCana

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