Financeiro

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Para companhias globais, proteger-se da volatilidade do dólar ficou mais caro

A alta do custo dos empréstimos em dólar ressalta as turbulências nos mercados em meio a políticas divergentes de bancos centrais e o colapso dos preços das commodities


Wall Street Journal - Publicado: 21 Mar 2016 - 10:22

Uma procura desenfreada por dólares nos mercados globais está elevando os custos que empresas e instituições financeiras de fora dos Estados Unidos têm que pagar para se protegerem contra oscilações cambiais.

Empresas japonesas com dívidas de cinco anos em dólar, por exemplo, estão pagando um prêmio de até 1,05 ponto percentual ao ano acima dos juros atuais, o mais alto registrado desde 2008, segundo dados da Thomson Reuters sobre os chamados “cross-currency swaps (CCS), também conhecidos como swaps de divisas ou de moedas, um derivativo bastante usado como hedge contra variações cambiais. Empresas da Europa estão pagando até 0,58 ponto percentual neste mês, um nível visto pela última vez em 2012.

A alta do custo dos empréstimos em dólar ressalta as turbulências nos mercados em meio a políticas divergentes de bancos centrais e o colapso dos preços das commodities. O Índice Dólar do The Wall Street Journal caiu 3,6% neste ano, mas muitos analistas e investidores acreditam que ele vai subir até 15% com as iniciativas do banco central dos Estados Unidos (Fed) para elevar os juros de curto prazo no país.

Nos últimos 12 meses, a alta do dólar se tornou um dos maiores fatores de risco para a economia mundial. A valorização da moeda americana tende a intensificar a volatilidade dos mercados ao enfraquecer ainda mais os produtores de commodities e sabotar os esforços do Fed para elevar a inflação nos EUA.

“Isso tem sido extremamente importante para os mercados de ações e de renda fixa”, diz David Donabedian, diretor de investimentos da Atlantic Trust Private Wealth Management, gestora americana com uma carteira de US$ 27 bilhões em ativos até fevereiro. “Acredito que, durante o ano, provavelmente passaremos para um ambiente de dólar mais forte”.

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Até agora, porém, as ofensivas dos Banco do Japão, Banco Central Europeu e outros BCs de economias desenvolvidas para debilitar suas moedas em relação ao dólar não estão surtindo efeito, o que gera dúvidas sobre sua capacidade de controlar os mercados. Apesar dos esforços do Banco do Japão, o iene acumula alta de 7,5% ante o dólar neste ano. Na Europa, o BCE enfrenta desafios semelhantes para conter a força do euro. Essas dificuldades ressaltam que o prolongado período de juros baixíssimos, desde a crise de 2008, gerou distorções no mercado que os BCs hoje têm dificuldade em corrigir.

A situação pode injetar mais volatilidade nos mercados. Embora investidores costumem prever com acerto as medidas dos bancos centrais, é mais complexo antecipar as reações do mercado, o que pode deflagrar uma debandada dos ativos de maior risco, como commodities e papéis de mercados emergentes.

Em um swap de divisas, parceiros comerciais — normalmente instituições financeiras atuando em nome de clientes ou por conta própria — concordam em trocar os pagamentos periódicos de juros atrelados a certos instrumentos em moedas distintas. A diferença entre os juros que cada um paga representa o custo líquido do swap para uma das partes. A meta desses swaps é tentar reduzir a exposição a grandes oscilações cambiais. Como um swap envolve uma troca de fluxos de caixa, a demanda por dólares geralmente é refletida no custo adicional do hedge, em vez de na taxa de câmbio.

A alta nos custos de hedge já começa a afetar as negociações de dívida soberana de países desenvolvidos, o epicentro dos mercados financeiros, dizem analistas.

Investidores japoneses, como fundos de pensão e seguradoras, há muito são grandes compradores, em todo o mundo, de títulos considerados mais seguros, principalmente notas do Tesouro dos EUA. Essas instituições geralmente fazem hedge com swaps de juros, diz Dominic Konstam, chefe de pesquisa de juros no banco alemão Deutsche Bank AG.

Mas, com o aumento dos custos de hedge, os investidores japoneses foram vendedores líquidos de US$ 70 bilhões em notas do Tesouro americano no segundo semestre de 2015, um recorde, afirma o banco.

Analistas dizem que a mesma dinâmica pode vigorar na Europa, onde o maior uso de juros negativos pelo Banco Central Europeu está pressionando para baixo o rendimento dos títulos globais. Mais de US$ 8 trilhões em títulos de dívida globais possuem hoje juros negativos, segundo estimativa recente do banco americano J.P. Morgan.

A corrida por dólares ocorre numa hora crucial para os investidores. A demanda está crescendo entre aqueles que tentam tirar vantagem dos rendimentos mais elevados dos títulos nos EUA, enquanto a oferta está diminuindo porque o Tesouro americano precisa captar menos dinheiro para financiar um déficit comercial cada vez menor. O déficit em conta corrente dos EUA em 2015 foi de 2,7% do PIB, acima de 2014, mas ainda muito menor que durante a crise financeira.

“A oferta de dólares no mundo deve cair e provavelmente continuar apertada até que o déficit em conta corrente cresça de forma significativa”, diz Krishna Memani, diretora de investimentos da Oppenheimer Funds Inc.

Embora hedges cambiais não necessariamente afetem a cotação do dólar em outras moedas, eles são um fator subestimado nas grandes diferenças de rendimento entre bônus soberanos de países ricos, dizem analistas.

As notas de dez anos do Tesouro dos EUA rendiam 1,87% ao ano na sexta-feira, ante 0,21% de bônus equivalentes na Alemanha e menos de 0,1% no Japão. Mas “se você olha os níveis atuais quando se faz uma conversão cambial, as notas do Tesouro dos EUA parecem caras comparadas” com as de outros países, diz Jonathan Rick, estrategista de derivativos de juros do banco francês Crédit Agricole.

Nos últimos anos, o dólar se valorizou significativamente contra o euro e o iene, à medida que crescia a busca pelos papéis de maior retorno dos EUA, mas neste ano a moeda americana acumula queda de 3,6% ante o euro e de 7,3% em relação ao iene. Analistas do banco americano Goldman Sachs Group Inc. previram recentemente que o dólar pode subir outros 10% ou 15%.

Ben Eisen