Com a crescente preocupação global diante das mudanças climáticas, a aviação busca alternativas sustentáveis para abastecer aeronaves e reduzir o uso do querosene.
Nesse contexto, o chamado “combustível verde” surge como uma das principais apostas para a descarbonização do setor.
Comparado ao derivado do petróleo, o bioquerosene da aviação é capaz de reduzir cerca de 80% das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO).
O combustível sustentável para aviação é conhecido como SAF (Sustainable Aviation Fuel). Ele é produzido a partir de resíduos orgânicos, como óleo de cozinha e gordura animal descartados, ou por meio de fontes renováveis como a cana-de-açúcar, produzida em larga escala no Brasil.
Como parte de uma meta global de zerar emissões de poluentes até 2050, seu uso se tornará ainda mais essencial a partir de 2027, quando os aviões não poderão decolar para destinos internacionais sem compensar o carbono produzido nas operações.
Essa compensação poderá ser feita por meio da compra de créditos de carbono ou pelo abastecimento com uma mistura de SAF.
Segundo a ICAO, existem em todo o mundo mais de 30 iniciativas sendo adotadas ou em desenvolvimento para ampliar a produção de SAF, além de mais de 120 países, incluindo o Brasil, que voluntariamente aderiram a um arranjo de compensação e redução de carbono para aviação internacional, o Corsia.
Estima-se que o combustível verde deve ter uma demanda de 20 milhões de metros cúbicos por ano em todo o planeta em 2030, de acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA).
Além de o combustível reduzir emissões de gases de efeito estufa, o SAF não produz enxofre, o que reduz a emissão de óxidos de enxofre e material particulado, contribuindo para uma melhoria significativa na qualidade do ar.
Quanto à segurança, o SAF é compatível com as especificações das aeronaves modernas e pode ser utilizado sem necessidade de modificações estruturais significativas.
Ainda que em uma porcentagem inicial, sua mistura com o querosene de aviação tradicional (JET) já é uma realidade.
“Com o comprometimento contínuo da indústria aeronáutica e o avanço da tecnologia, o uso seguro e eficiente do combustível verde nas aeronaves será garantido, abrindo caminho para um futuro mais sustentável e consciente na aviação global”, destaca o diretor de novos negócios em trading da Raízen, Raphael Nascimento.
Entre as fontes disponíveis, a cana-de-açúcar é uma solução escalável para a descarbonização da aviação, avalia Nascimento. O caminho é a utilização do etanol de segunda geração (E2G), produzido a partir do bagaço da cana.
“Como maior produtora global de etanol da cana-de-açúcar e a única empresa a produzir o etanol de segunda geração (E2G) com resíduos da produção em escala comercial, a Raízen vê o etanol de cana como uma solução escalável que pode ser muito eficiente para a descarbonização de setores como a aviação. O etanol da cana-de-açúcar é o carro-chefe da Raízen e a nossa maior aposta para a transição de baixo carbono”, afirma.
Em meio às diferentes formas de produção do biocombustível de aviação, a cana deve ser um dos protagonistas, segundo Nascimento. “Acreditamos que 25% deste total seja produzido a partir de etanol de cana-de-açúcar, uma demanda adicional de 9 milhões de metros cúbicos do biocombustível ao ano”, diz.
A expectativa é que a adesão ao combustível verde aumente à medida que ocorra o avanço da tecnologia, da regulamentação do setor e, principalmente, da disponibilidade do produto, que ainda não está disponível em grande escala.
“No mercado global já há uma grande procura, mas a demanda ainda é maior do que a oferta no momento”, ressalta o diretor da Raízen.
Apesar do potencial promissor do SAF, ainda existem desafios para a produção em larga escala. A disponibilidade de insumos é um dos principais obstáculos, devido à alta demanda por combustível no transporte aéreo e outros segmentos. Garantir um fornecimento estável e previsível de matéria-prima é essencial para atender as demandas do mercado da aviação.
De acordo com Raphael Nascimento, atualmente a demanda é maior do que se pode atender. “Por isso, o foco é investir cada vez mais no aumento da produtividade agrícola para aproveitar o máximo do potencial energético da cana e assim conseguir acompanhar a busca crescente da indústria pela descarbonização”, diz.
Ainda de acordo com ele, existem dificuldades como em todas as outras tecnologias inovadoras. “Os desafios que envolvem o ecossistema de produção de SAF dependem fortemente de mecanismos de suporte, políticas públicas apropriadas e iniciativas privadas e investimentos para a sua evolução e implementação em larga escala”, explica.
A união de esforços entre as esferas pública e privada é fundamental para acelerar a transição para o uso de combustível verde na aviação. “Para que o combustível sustentável de aviação avance é preciso de pesquisa, desenvolvimento, inovação, investimentos, estímulos governamentais e também de parcerias estratégicas na esfera privada”, enfatiza Nascimento.
Juliana Moratto