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Combustível do Futuro tem viés ambiental e não de reduzir preços, diz ex-presidente do IBP

Segundo Eberaldo Almeida, governo não terá dificuldade para aprovar o projeto de lei que enviou ao Congresso na última quinta-feira com foco na criação da iniciativa


CNN Brasil - Publicado: 18 Set 2023 - 09:01

O programa Combustível do Futuro terá viés ambiental e não deve reduzir preços nos postos de combustíveis, afirmou à CNN Eberaldo Almeida, ex-presidente da Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP).

Na última quinta-feira, 14, o governo enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei que visa criar a iniciativa. Entre outros pontos, o texto trata da elevação do limite legal da mistura entre etanol e gasolina.

“No Brasil, o etanol praticamente acompanha o preço da gasolina. Então, em termos de redução de preços, não se espera nenhuma redução. A questão, pelo que o governo falou, é mais pelo viés ambiental”, disse Almeida.

Em evento no Planalto também na quinta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu celeridade do Congresso para aprovar o PL que cria o programa, o que, segundo Almeida, deve ocorrer de fato, já que o Legislativo costuma receber bem propostas relacionadas aos biocombustíveis.

“Acho que não há resistências [para aprovação no Congresso Nacional]. A questão ambiental e de combustíveis, principalmente de biocombustíveis, o Congresso, de maneira geral, recebe de maneira muito boa essas propostas. Então, não vejo que haverá dificuldade do governo, tendo uma boa proposta”, afirma.

Outros países já adotam a medida que permite elevação da mistura de combustíveis, sendo o Brasil um dos países com melhores resultados, segundo Almeida, já que mais de 90% da frota de veículos leves do país já são de carros flex.

Questão ambiental

Almeida explicou que, ao queimar o etanol como combustível, os veículos também produzem gases poluentes, como o gás carbônico, mas que existe um “efeito cíclico” que poderia reduzir o impacto, já que o etanol no Brasil vem de plantações da cana-de-açúcar.

“Com a plantação, a própria planta absorve gás carbônico da atmosfera, depois produz e absorve de novo. Ou seja, é uma coisa circular. No caso dos [combustíveis] fósseis, são produtos que estão no subsolo há milhões de anos e que são trazidos para a superfície, para a atmosfera, então há [somente] um acréscimo de um CO2”, afirma.

“A grande vantagem dos biocombustíveis é exatamente isso, que a questão é circular. Tem um saldo líquido próximo de zero”, pontuou o especialista.

Setores que impactam mais o meio ambiente

Apesar da importância da medida para a questão ambiental, Almeida diz que, no caso específico do Brasil, é importante focar também em outras áreas que, segundo ele, acumulam responsabilidade proporcionalmente maior na emissão de gases poluentes que o setor de energia e combustíveis.

O Brasil tem uma situação muito diferenciada em relação ao mundo: das emissões brasileiras, 75% vem de agricultura, pecuária e uso da terra, desmatamento e coisas do tipo, enquanto no mundo isso é 15%. No mundo 76% das emissões vêm do setor de energia e, no Brasil é 18%”, relatou.

“Os biocombustíveis são uma grande saída. E é importante trabalhar em todas as frentes, mas o Brasil não pode negligenciar a grande fonte de emissões”, finalizou.

Pontos de atraso

O projeto de lei do Programa Combustível do Futuro tem mérito, mas já nasce com pontos deficitário, segundo avaliação do coordenador de energia do Instituto Clima e Sociedade, Roberto Kishinami.

À CNN Rádio, Kishinami afirmou que o problema das mudanças do clima global é urgente e, para revertê-lo, é necessário “reduzir emissões de gás carbônico para a atmosfera”. “Isso significa substituir o diesel, gasolina, gás natural e carvão”, completou.

Diante disso, o especialista vê o conjunto apresentado no PL como “importante para reconhecer este momento, de que devemos trabalhar isso, este é o maior mérito”.

Por outro lado, Kishinami aponta que o problema do texto é que há elementos nele que “não são do futuro”. “A maior parte dos pontos diz respeito a coisas que já praticamos e precisamos superar, é o caso de aumentar a mistura do etanol”, disse. Isso porque “continuaremos tendo 70% de gasolina”.

Outro exemplo é que “não há nenhuma referência ao processo de eletrificação da mobilidade, é algo que precisaria ser discutido no Congresso”.

Pedro Jordão e Amanda Garcia
Com produção de Ana Beatriz Dias e Isabel Campos