No setor, há empresários que admitem incertezas em relação a um eventual governo do filho de Jair Bolsonaro, mas temem que uma nova gestão Lula amplie gastos
O candidato Flávio Bolsonaro ganhou com folga do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno das eleições em municípios com forte presença do agronegócio e teve apoio declarado da bancada ruralista no Congresso.
Ainda assim, empresários e profissionais ligados ao setor, com os quais o Globo Rural conversou nos últimos dias, admitem incertezas em relação a um eventual governo Flávio Bolsonaro. No entanto, dizem temer que uma reeleição de Lula agrave a situação fiscal e mantenha os juros elevados, o que dificulta a situação dos produtores endividados.
“Com um novo governo Lula, vejo um aprofundamento do problema fiscal e juros de dois dígitos por mais uns anos, o que vai tornar os problemas do agro, em termos de endividamento, maiores”, afirma o economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Antonio da Luz. O agro do estado é um dos mais afetados pelo endividamento, após sucessivas quebras de safra.
Luz diz não ver perspectiva de que um novo governo do petista avance em infraestrutura para escoar as safras nem em projetos para explorar minérios para fertilizantes no país. Porém, isso não significa que ele veja firmeza na candidatura de Flávio Bolsonaro. “Não vejo o Flávio, nas suas falas, defender isso desse jeito. Mas tenho mais esperança de que ele faça essas coisas”, afirma.
Um grande produtor de cana-de-açúcar, que pediu anonimato, afirma esperar juros menores, preços mais baixos e menos burocracia em um eventual governo do filho de Jair Bolsonaro. Já com Lula, ele teme a alta dos juros e, também, uma celeridade na implementação da escala de trabalho 5x2 no país.
Para o advogado da TN Advogados e especialista em reestruturação no agronegócio, Ruy Toledo Piza, um novo governo Lula representaria um “ritmo muito maior de expansão de gastos”.
Ele avalia, porém, que Flávio Bolsonaro também não terá muito espaço para realizar cortes profundos. “Ainda que prometa um ‘tesouraço’, não sei o quanto vai conseguir, tendo que manter governabilidade para ter quórum com o centrão e relações estáveis”, diz.
O posicionamento do Brasil em um governo Flávio Bolsonaro em um ambiente geopolítico conflagrado é motivo de preocupação.
“O Flávio deve fazer um alinhamento automático com os EUA, e mais que isso, ao [governo Donald] Trump. Seria um alinhamento a uma das potências que estão disputando a hegemonia mundial”, afirma o advogado Frederico Favacho, sócio de agronegócios do Santos Neto Advogados.
Para ele, isso “colocaria em risco o relacionamento com nosso principal cliente [a China], antes de termos limitado a dependência da China”.
O ex-secretário de Comércio Exterior, sócio da BMJ e do escritório Barral Parente Pinheiro, Welber Barral, argumenta que um possível alinhamento a Trump não mudaria as exportações aos Estados Unidos, sendo remota a possibilidade de avanço em um acordo de livre comércio entre os países. “Não vejo mudança do perfil das exportações aos EUA”, diz.
Algumas declarações de Jair Bolsonaro causaram constrangimentos ao agro, recorda-se o empresário Carlos Ernesto Augustín, ex-assessor especial do Ministério da Agricultura na gestão Carlos Fávaro.
“Quando a Tereza Cristina era ministra, a cada semana ela tinha que apagar um incêndio, como quando o Bolsonaro falou de ‘varchina’”, diz, em referência ao termo usado pelo ex-presidente para falar do imunizante Coronavac. Também ainda está na memória de alguns produtores a passagem de Ernesto Araújo, hostil à China, no Itamaraty sob Bolsonaro.
Barral observa ainda que investimentos chineses e a compra de soja brasileira por Pequim tiveram problemas no governo de Bolsonaro. “O grande risco é arrumar confusão com a China e com países da Ásia, que são os grandes compradores hoje”, avalia. De lá para cá, a geopolítica mudou: “A China agora está mais poderosa ainda”.
Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, caso Flávio Bolsonaro vença, a posição mais importante para o agronegócio será a do ministro das Relações Exteriores. “Qualquer posição radical a favor dos EUA pode ter consequências sérias para o agro”, afirma.
Segundo ele, o risco é maior agora porque, recentemente, Pequim aprovou regulações que lhe permitem aplicar mecanismos de reciprocidade se o parceiro comercial tomar medidas contra a China.
Uma liderança ruralista e dois grandes produtores afirmaram, sob anonimato, que a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos “irritou o agro” ao respaldar as tarifas de Trump ao Brasil. A possibilidade de uma influência dele é objeto de preocupação até entre aliados ruralistas, apurou o Globo Rural.
A eventual inclusão do Brasil no Escudo das Américas, coalizão criada por Trump sob o argumento de combater o narcotráfico no continente, é outro temor entre lideranças de setores exportadores. A avaliação é que isso afetaria as relações com os chineses.
Na proclamação de Trump que criou a coalizão, os EUA determinam que Washington e seus aliados “devem manter ameaças externas sob controle, incluindo influências estrangeiras malignas fora do Hemisfério Ocidental”.
Um possível alinhamento a Trump gera ainda mais incertezas, considerando que o americano fez, em janeiro, exigências ao Brasil, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo. Uma delas é a eliminação das tarifas de 18% sobre a importação de etanol. Exigiu ainda que o Brasil discuta uma “estabilidade do comércio agrícola mundial” – em carta anterior, Trump fora explícito ao tratar do “comércio mundial de soja”.
Larissa Waccholz, que ficou à frente do Núcleo China, criado pela ex-ministra Tereza Cristina, entre 2019 e 2021, defende que o próximo governo precisa “evitar ruídos” na relação com a China e agir de forma pragmática.
Procuradas, as campanhas dos dois candidatos não responderam a pedidos de comentários.
Camila Souza Ramos e Rafael Walendorff