A Coamo Agroindustrial, maior cooperativa de agricultores do Brasil, avalia que a comercialização de seus elevados estoques de grãos pode compensar parte do impacto negativo da queda na safra 2023/24 e dos preços baixos para seus resultados neste ano.
A cooperativa entrou em 2024 com estoques 50% maiores de grãos do que em 2023, após uma safra recorde no ciclo passado e lentas vendas dos cooperados devido a cotações pouco interessantes para negócios dos agricultores, disseram à Reuters representantes da Coamo nesta quinta-feira, 15, quando os resultados da instituição de 2023 foram aprovados pelos associados.
Se as vendas dos estoques de soja, milho e trigo podem amenizar uma possível queda no faturamento em 2024 para a Coamo, de outro lado sinaliza para o mercado que a cooperativa com sede em Campo Mourão (PR) e atuação em Mato Grosso do Sul e Santa Catarina dispõe de volumes para fazer frente à quebra da colheita de soja neste ano, que pode chegar a cair cerca de 20% após um clima desfavorável.
“Tendo volume menor de produção, isso leva a crer uma queda de faturamento. Só que tem um componente do estoque. Com a velocidade mais lenta de fixação por parte do produtor, cresceu na Coamo em 50% o estoque de passagem. Se o produtor vier a comercializar isso este ano, então, pode ser que haja uma compensação da queda de safra”, disse o presidente-executivo da cooperativa, Airton Galinari, à Reuters.
“Mas isso (a fixação da venda) é decisão do produtor, vai da necessidade de caixa”, disse Galinari, lembrando que o cooperado pode deixar o produto armazenado na Coamo por um ano sem custos extras.
Ele disse que a Coamo passou de 2023 para 2024 com 3,66 milhões de toneladas de grãos em estoques, volume que representa mais de 36% do total de 10 milhões de toneladas recebido pela cooperativa no ano passado.
Para 2024, inicialmente havia expectativa de a cooperativa receber volumes semelhantes de soja em relação ao ano passado, algo em torno de 6 milhões de toneladas, mas os problemas climáticos trouxeram as perspectivas de recebimento do principal grão da Coamo mais próximas de 4,8 milhões a 5,1 milhões de toneladas. “Estamos com uma expectativa de 20% a menos do que o planejado de soja”, afirmou.
Galinari estima que, em geral, o produtor tenha travado vendas de menos de 10% da sua safra nova de soja por meio de contratos a termo, um percentual que já chegou a variar entre 30% e 40% em anos anteriores, quando o mercado estava mais favorável.
Além dos estoques da safra passada, a cooperativa está lidando com recebimentos de uma colheita antecipada de soja, que já atingiram mais de 30% do que a cooperativa espera receber.
As negociações podem ganhar força quando começarem a vencer as principais parcelas de empréstimos, entre abril e maio, admitiu o executivo, lembrando que no ano passado esse movimento gerou uma pressão de preços. “Temos preocupação grande, começamos o ano com preços bem mais baixos”, disse, lembrando que as cotações despencaram ao longo do ano passado.
Ele afirmou que é prematuro falar em projeções para o milho segunda safra, que está sendo plantado, mas disse que uma expectativa inicial indica que o recebimento de milho da segunda safra pode girar em torno de 3,3 milhões de toneladas, praticamente o mesmo número de 2023.
O executivo comentou ainda que a antecipação do ciclo da soja melhorou a janela para produtores de milho, que deverá ser preferido em relação ao trigo, cujos preços “não fecham a conta”.
Os preços de produtos agrícolas estão refletindo uma maior oferta mundial, apesar de uma quebra de safra no Brasil, que deve ser compensada por um aumento da produção de soja e milho na Argentina.
O presidente do conselho de administração da Coamo, José Aroldo Gallassini, foi reconduzido ao cargo em assembleia de cooperados nesta quinta-feira, disse que o produtor está perdendo o “fôlego” desde 2023, e destacou que o setor tem procurado o governo para obter prorrogação de parcelas de empréstimos.
“Já tivemos contatos com o governo para um possível plano para favorecer o custeio e o investimento, mas por enquanto está muito em conversa”, disse, citando que em função da queda de preços alguns produtores não estão conseguindo pagar contas de insumos e máquinas, o que gera inadimplência.
Na assembleia desta quinta-feira, a Coamo aprovou resultados de 2023 que incluíram a distribuição de R$ 850 milhões em “sobras” aos mais de 31 mil cooperados. Isso após dedução estatutária da sobra líquida no montante de R$ 2,324 bilhões, com alta de 2,9% ante 2022.
Os dados da assembleia também confirmaram dados preliminares que indicaram que a receita global da Coamo somou mais de R$ 30 bilhões em 2023, com um crescimento de 7,6%.
Roberto Samora