NovaCana

Prestes a obter classificação inédita Granbio revela aposta no mercado californiano

granbio cana 180914Pelo menos metade de toda produção da usina da Granbio parece ter destino certo: o estado da Califórnia nos EUA

NovaCana 8 min de leitura

A estratégia da Granbio para vender sua produção de etanol começa a ficar mais clara. O Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb), órgão que regula a entrada de combustíveis no estado norte-americano, está prestes a aprovar o etanol celulósico da GranBio que será produzido em São Miguel dos Campos, interior de Alagoas.

A avaliação indica que o biocombustível 2G fabricado da palha da cana é dez vezes mais “limpo” do que o etanol de cana convencional produzido no Brasil e proporcionará uma vantagem competitiva significativa para a empresa.

A unidade ainda não entrou em operação comercial, mas documento indica que a GranBio pretende exportar pelo menos metade de sua produção ao cobiçado mercado californiano, que além de ser o maior estado consumidor de combustíveis do EUA valoriza os combustíveis menos poluentes.

O portal NovaCana apresenta a seguir os detalhes do trâmite na Califórnia (hoje é o último dia para que outras empresas possam enviar comentários), a perspectiva da Granbio para entrar no mercado e os diferenciais que podem dar esta classificação inédita.

O Conselho já analisou a solicitação enviada e recomenda que seja aprovada a classificação com uma intensidade de carbono que, se efetivada, será a menor já atribuída pelo Carb entre todos os tipos de etanol.

A primeira usina de etanol de segunda geração (2G) do Brasil está prestes a obter a certificação do governo da Califórnia (EUA) para o biocombustível feito da palha de cana-de-açúcar. A BioFlex Agroindustrial, unidade da GranBio em Alagoas, ainda não iniciou a operação, mas já está com um processo adiantado para que possa exportar sua futura produção ao estado da costa oeste norte-americana.

O Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês), órgão regulador do mercado local de combustíveis, recomendou que o etanol de palha da BioFlex receba uma classificação dez vezes mais vantajosa ambientalmente que o etanol de cana convencional produzido no Brasil.

Com base no Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS), uma legislação ainda mais rigorosa que o Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS) de alcance nacional nos Estados Unidos, o Carb avalia a ‘pegada de carbono’ emitida pelo biocombustível desde a extração da matéria-prima, passando pela transformação, até à entrega do produto em um porto californiano.

Atualmente, o etanol brasileiro de primeira geração recebe classificações com intensidades de carbono (CI) que variam de 58,40 a 78,94 gramas de carbono por unidade de energia (CO2e/MJ), enquanto o CI do etanol da GranBio é avaliado em apenas 6,98 CO2e/MJ. Na Califórnia, quanto mais limpo um combustível, mais ele é valorizado.

O CI solicitado pela GranBio ganhou a recomendação do Conselho e foi submetido à consulta pública em 9 de setembro, período que encerra nesta quinta-feira (18), sem que nenhum comentário tenha sido enviado. O formulário em que a GranBio requer a aprovação do seu etanol data de 31 de janeiro desse ano.

Se a avaliação proposta for certificada pelo Carb, será a menor intensidade de carbono já atribuída ao etanol, considerando os produtores de diversos países cadastrados e os vários tipos de matérias-primas que utilizam. Até o momento, o etanol mais “limpo” já aprovado na Califórnia é produzido pela Nicaragua Sugar Estates Limited a partir do melaço residual da fabricação de açúcar, com CI de 21,47.

A classificação para o etanol de melaço causou polêmica quando a Raízen também fez o pedido. A gigante brasileira tentou enquadrar a produção da unidade Costa Pinto, em Piracicaba (SP), justificando que nesta usina o etanol seria feito a partir do melaço. No entanto, após receber diversas críticas durante o período de comentários, a proposta foi revista pelo Conselho e acabou sendo rebaixada para uma posição muito similar às já atribuídas ao etanol de cana convencional brasileiro.

Caso a GranBio receba o aval definitivo, será também o primeiro etanol produzido a partir de biomassa a ser aprovado conforme as regras do LCFS. Com a iniciativa, a empresa largou na frente, inclusive, das usinas de etanol celulósico dos EUA que já iniciaram a produção, como a usina da Poet/DSM e a da Quad County Processors, ambas localizadas no estado de Iowa e inauguradas em setembro.

Apesar da BioFlex ter condições de usar tanto a palha quanto o bagaço de cana como matéria-prima, a classificação pleiteada junto ao Carb abrange somente o uso da palha obtida dos canaviais vizinhos à planta localizada em São Miguel dos Campos (AL).

Alvo da produção

Os documentos disponibilizados pelo órgão regulador durante o período de consulta pública revelam que a GranBio pretende enviar, pelo menos, metade de sua produção para a Califórnia. A empresa já havia anunciado o direcionamento de seu etanol para o exterior, onde o produto, por ser ambientalmente melhor, pode receber incentivos, mas ainda não se conhecia o mercado alvo e nem a importância que as exportações teriam.

Documento enviado ao Carb revelou que GranBio pretende enviar para a Califórnia de 11 a 22,5 milhões de galões por ano, ou seja, de 43,5 a 85 milhões de litros. O tamanho das exportações deve variar de acordo com o preço que será oferecido pelos compradores do estado.

O menor volume a ser direcionado ao estado é pouco superior à metade da capacidade instalada, de 82 milhões de litros ao ano, e o volume máximo superaria o potencial das instalações da BioFlex.

Nos documentos submetidos à consulta pública a empresa afirma que a operação da unidade deve iniciar no quatro trimestre de 2014.

Questionado pelo portal NovaCana sobre quando pretende remeter as primeiras cargas ao estado norte-americano, a GranBio respondeu que “não pode revelar por questões contratuais” e reforçou que “sobre a quantidade de etanol a ser exportada, esse índice dependerá das condições de mercado”.

Relevância da cogeração

Para chegar a uma intensidade de carbono tão baixa, além do diferencial da matéria-prima — a palha, um rejeito até então deixado no campo, neutra em emissões —, teve um papel crucial a cogeração de eletricidade com a venda do excedente. Enquanto todas as demais etapas de produção acumulam algum número de emissões, a venda da energia excedente obtida pela queima da biomassa da cana, gera créditos.

Caso não contasse com a comercialização de energia, o etanol de palha ganharia um CI de 27,27 gCO2e/MJ, quatro vezes maior do que o valor de 6,98 gCO2e/MJ recomendado pelo Carb e um pouco superior aos CIs mais baixos já aprovado pelo Carb entre todos os tipos de etanol.

Ao Conselho, a GranBio explica que a cogeração de energia elétrica da BioFlex usará a lignina restante do processo de produção do etanol celulósico. A lignina é parcela mais resistente da biomassa das plantas e possui alto poder calorífico para a queima. Até então, a informação era de que a caldeira seria alimentada com o bagaço de cana proveniente da moagem da Caeté, usina de primeira geração vizinha e parceira da BioFlex.

A unidade de cogeração que abastecerá a BioFlex será compartilhada com o grupo alagoano Carlos Lyra através da Companhia Energética São Miguel dos Campos, uma sociedade entre as duas empresas. A UTE Bioflex Caeté tem 30,7 MW de potência instalada e recebeu no início do mês autorização para iniciar sua operação em teste.

Originalmente, o projeto de bioeletricidade previa gerar somente para o consumo das usinas, mas foi modificado, com ampliação da potência, a fim de oferecer excedente para a comercialização. Essa mudança nos planos teria atrasado o início da produção de etanol da unidade, incialmente prevista para o primeiro trimestre de 2014. O portal NovaCana revelou em primeira mão a ampliação da sociedade estratégica entre as duas empresas.

Conforme comunicado ao governo da Califórnia, a unidade produzirá 2,89 quilowatts-hora de eletricidade excedente a cada galão de etanol produzido. Este excedente seria exportado para a rede elétrica brasileira, deslocamento que gera um crédito de carbono de 21,09 gCO2e/MJ para o coproduto.

Apesar da produção de energia excedente ter contribuído substancialmente para a classificação defendida junto ao Conselho, a GranBio afirma que a mudança no projeto não está relacionada ao plano de enviar pelo menos metade de sua produção de etanol ao estado norte-americano.

"A alteração do projeto de cogeração de energia não tem relação com a solicitação feita ao Carb. A expansão tem outra motivação, de atender às duas usinas e gerar energia elétrica para o grid. O fato de recebermos créditos na avaliação foi uma consequência", respondeu a companhia.

Para conseguir a classificação, há algumas condições a partir do início da partida da planta. A primeira é um teste de desempenho de emissões da caldeira de biomassa. Esta deve ter o resultado comunicado ao Conselho em até seis meses após o início da operação comercial ou antes da exportação de etanol para a Califórnia.

Nesse teste a eficiência térmica deve ser verificada e a operação auditada por uma certificadora independente que irá verificar o desempenho de emissões. Além disso, o Carb exige que apenas vapor e eletricidade gerados a partir da combustão da lignina sejam utilizados na BioFlex.

Confidencial

A solicitação da GranBio é apoiada por inúmeras informações de caráter confidencial, mas os dados públicos foram disponibilizados para comentários e estão disponíveis aqui.

Para saber mais detalhes sobre a importância do mercado californiano acesse: O seleto grupo das 29 usinas brasileiras que enviam etanol para a Califórnia.

As polêmicas e detalhes sobre o mercado Californiano estão acessíveis aqui.

NovaCana

Compartilhar: