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No lugar das cinzas surgiu a palha: impactos e resultados das quatro safras do Projeto Sucre

palha cana 010318Resultados demonstram implicação dos resíduos da cana no campo; Grupo Zilor já adotou mudanças estratégicas

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Com a adoção da mecanização da colheita, as queimadas dos canaviais praticamente chegaram ao fim em diversas regiões do Brasil.

No lugar das cinzas, surgiu a palha. Composta por folhas secas, folhas verdes e ponteiros, ela fica no campo e cabe a cada empresa definir como aproveitar o novo produto.

A princípio, a palha pode ser utilizada para a produção de etanol de segunda geração e, mais comumente, na cogeração de energia, com a queima da biomassa. Sendo assim, sua retirada parecia adequada – mas surgiu a dúvida sobre a influência que essa remoção poderia ter na qualidade do solo e no cultivo da cana-de-açúcar.

O pesquisador do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e líder da equipe que realiza os estudos agronômicos do Projeto Sucre (Sugarcane Renewable Electricity), João Luis Nunes Carvalho, realizou um estudo com a intenção de responder a essas dúvidas. Na opinião dele, a remoção de palha deve avaliada com cautela, pois em diversas condições esta prática talvez não seja a melhor alternativa para as usinas.

A equipe liderada por Carvalho está realizando experimentos desde 2013 e já acompanhou o resultado de quatro colheitas. Atualmente, são conduzidos 26 estudos entre São Paulo e Goiás. Além disso, a análise é feita em locais sem palha e em áreas com diferentes quantidades do resíduo, sendo que os resultados são acompanhados ano a ano.

A nível nacional há aproximadamente 251 milhões de toneladas de residuos culturais espalhados nas plantações, sendo que, deste total, 80 milhões de toneladas são relacionadas à palha de cana-de-açúcar. Assim, o questionamento sobre o manejo mais adequado atinge todo o país.

Em uma apresentação de resultados feita por Carvalho, ele traz suas conclusões referentes à influência da palha no solo, no controle de pragas e nos impactos ao meio ambiente, considerando diferentes condições de produtividade. Além disso, o Grupo Zilor também compartilhou sua relação estratégica com a opção por retirada ou manutenção da palha no campo.

Com a adoção da mecanização da colheita, as queimadas dos canaviais praticamente chegaram ao fim em diversas regiões do Brasil.

No lugar das cinzas, surgiu a palha. Composta por folhas secas, folhas verdes e ponteiros, a palha fica no campo e cabe a cada empresa definir como lidar com o resíduo.

A princípio, a palha pode ser utilizada para a produção de etanol de segunda geração e, mais comumente, na cogeração de energia, com a queima da biomassa. Sendo assim, sua retirada parecia adequada – mas surgiu a dúvida sobre a influência que essa remoção poderia ter na qualidade do solo e no cultivo da cana-de-açúcar.

O pesquisador do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e líder da equipe que realiza os estudos agronômicos do Projeto Sucre (Sugarcane Renewable Electricity), João Luis Nunes Carvalho, apresentou, em dezembro de 2017, a palestra “Impactos agronômicos e ambientais da remoção de palha” com a intenção de responder a essas dúvidas. Na opinião dele, a remoção de palha deve avaliada com cautela, pois em diversas condições esta prática talvez não seja a melhor alternativa para as usinas.

A nível nacional, de acordo com o Boletim do CTBE, há aproximadamente 251 milhões de toneladas de resíduos culturais espalhados nas plantações, sendo que, deste total, 80 milhões de toneladas são relacionadas à palha de cana-de-açúcar. Assim, o questionamento sobre o manejo mais adequado atinge todo o país.

A equipe liderada por Carvalho está realizando experimentos desde 2013 e já acompanhou o resultado de quatro colheitas. Atualmente, são conduzidos 26 estudos entre São Paulo e Goiás. Além disso, a análise é feita em locais sem palha e em áreas com diferentes quantidades do resíduo, sendo que os resultados são acompanhados ano a ano.

Para obter dados mais precisos, são feitas várias avaliações: qualidade do solo, da água, perdas de solo e de água, aspectos relacionados à produtividade da cana e aspectos relacionados à análise de impactos ambientais da remoção do resíduo.

Influência no solo

Em termos de perda de solo, os testes conduzidos pelo Projeto Sucre demonstram que sete toneladas de palha por hectare são suficientes para proteger o solo de erosão, independente da declividade do terreno. A ausência ou a pequena quantidade de resíduos causaram grandes perdas, enquanto quantidades maiores diminuíram o nível de erosão.

sucre 1 solo 20180209

Em relação à perda de água, a palha não influencia muito no escoamento, mas ela provoca uma diferença no que a água carrega. Se há pouca palha, “a água também escoa o solo, fertilizantes, nutrientes e até um pouco de argila, levando tudo o que havia de bom naquela área”, explica Carvalho. Além disso, manter os resíduos também ajuda a manter a umidade do solo.

sucre 2 água 20180209

Já sobre a quantidade de matéria orgânica no solo, que depende do sequestro de carbono e garante mais qualidade para a plantação, os resultados mostram que a palha é essencial. “Quando a palha era queimada, a quantidade de matéria orgânica estava diminuindo drasticamente. Hoje, a maioria do carbono que entra no sistema é pela palha”, explica Carvalho. Mesmo em experimentos curtos, é possível perceber que a remoção do resíduo deixa o solo exposto e a matéria orgânica vai sendo perdida.

Os experimentos também comprovaram que a palha influencia apenas o perfilhamento inicial da cultura e não no número final de colmos industrializáveis no período da colheita. Quando há acúmulo de resíduos, independente da quantidade, há um retardamento – e não uma redução – na brotação, o que mantém o número de perfilhos mais constante durante o desenvolvimento da planta.

Impacto ambiental

Em relação à emissão de gases de efeito estufa, entretanto, não há uma conclusão definitiva. “Alguns estudos demonstram que a emissão aumenta onde tem palha, enquanto outros demonstram que diminui nas mesmas situações. É incerto”, afirma Carvalho. São poucos os estudos realizados até o momento e as discrepâncias nos resultados são imensas.

De qualquer modo, os experimentos realizados pelo Sucre mostraram que onde tinha maior concentração de palha havia maior emissão de N2O. Entretanto, os pesquisadores argumentam que ainda não é possível fazer essa afirmação com confiança.

Palha x pragas

Por outro lado, os testes concluíram que a palha da cana-de-açúcar pode agir como um herbicida natural, auxiliando no controle de plantas daninhas, dependendo da espessura da camada de resíduo e das espécies das ervas.

Em relação às pragas da cana-de-açúcar, a ausência de fogo e o aumento do acúmulo de resíduos na superfície do solo aumentaram a população de algumas delas, como a cigarrinha, uma das maiores pragas da cana, que têm efeito na qualidade da produção e até nos processos industriais.

Isso acontece porque a concentração da palha no solo ajuda os insetos a se protegerem de épocas mais frias, aumentando sua população. Assim, a remoção da palha, em geral, diminuiria drasticamente a incidência dessa praga.

sucre 7 recolhimento 20180209

Condições de produtividade

Todos esses experimentos demonstram a influência da palha no solo em relação à qualidade, preservação e até no desenvolvimento da cana. Mas também foram conduzidos estudos de caso em usinas de Goiás para analisar o impacto da palha na produtividade.

Os resultados demonstram que a palha pode melhorar a produtividade do canavial dependendo das condições da cultura. Em locais com altas temperaturas e estresse hídrico, a camada de resíduos mantém o solo úmido e aumenta a produtividade. Porém, em solos que acumulam água – sejam eles hidromórficos ou em áreas irrigadas – o excesso de palha é negativo e a recomendação é que o resíduo seja removido.

sucre 5 produtividade 20180209

Já no oeste de São Paulo, o estudo de caso foi feito em solos arenosos e foram observados resultados em diferentes momentos do crescimento do canavial. No início da safra, que tem alto déficit hídrico, a palha mantém a umidade e o resultado é significativo. Já no meio da safra, com o solo seco, a palha não tem como manter a umidade e os ganhos são mínimos. No fim da safra, por sua vez, há um menor déficit hídrico e os ganhos também são menores. O resultado médio, ainda assim, é positivo.

sucre corrigido 010318

Remover ou não remover?

Mesmo com todos esses dados, Carvalho é categórico ao afirmar que não se deve fazer uma média dos resultados para definir a destinação da palha. O ideal é observar caso a caso e fazer o melhor manejo para cada situação. De acordo com ele, não é possível recomendar uma taxa fixa de remoção, pois essa não é uma estratégia de manejo e a chance de erro é muito grande.

Conforme Carvalho, 13% da produtividade agrícola depende da variedade de cana, 34% depende do clima, 26% depende do manejo e 27% depende do solo. Como não é possível modificar o clima e a base do solo, é preciso investir no manejo, aumentando sua influência na produtividade. Com um manejo bem-feito, é possível diminuir as influências de clima e solo e ter bons resultados. O trabalho com a palha pode ser um caminho.

A experiência e os testes do Grupo Zilor com a palha da cana

O Grupo Zilor foi um dos pioneiros na remoção da palha para a produção de energia elétrica. Com uma alta demanda energética em suas usinas termelétricas, a companhia percebeu que, para suprir a necessidade de biomassa, era preciso utilizar não apenas o bagaço, mas também a palha da cana. As tentativas de recolher o resíduo do campo e levar para a usina começaram em 2003 nas três unidades do grupo: São José, Barra Grande e Quatá.

Por ser pioneiro, o grupo testou diferentes formas de fazer o recolhimento, alternando tecnologias e investimentos. Os meios iniciais prejudicavam o campo, como explica o especialista da área de Parcerias e Agrícola da Zilor, Tedson Azevedo: “O nosso negócio é cana-de-açúcar, a sua produção é o nosso produto inicial. E o nosso desafio é ter biomassa para suprir todas as nossas necessidades. Então, o novo negócio tem que incrementar e não comprometer o negócio anterior”.

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Depois de diversas tentativas, algumas perdas e muito investimento, em 2013 foi definido que a palha seria recolhida à granel, modelo utilizado até hoje na Unidade Quatá e que tem o menor custo. Para isso, foram priorizadas as áreas mais próximas da usina a fim de danificar menos o campo no transporte, ter maior controle de tráfego e tomar maior cuidado com impurezas minerais.

Com base nos estudos do projeto Sucre, o Grupo Zilor pode mudar a forma de agir em relação à palha no solo. Com alguns testes, eles notaram que sua manutenção, por exemplo, auxiliou a diminuir a erosão, que é um problema frequente da região de Quatá, em São Paulo. Além disso, ficou clara a resposta do canavial com a maior concentração de carbono no solo. A palha também gerou economia, pois torna desnecessária a utilização de herbicidas.

Mas o fator mais importante percebido após três safras de estudos é que a quantidade de palha no solo influencia diretamente na quantidade de cana produzida – ou seja, há mais bagaço e, consequentemente, mais biomassa.

Assim, em 2017, a companhia decidiu não recolher mais palha na Unidade Quatá. Caso o cenário mude e haja a necessidade de recolher, a empresa afirma que fará uma análise da melhor área para isso e da quantidade correta. Azevedo conclui: “Hoje é assim: colhemos a cana, a palha fica no campo, a soqueira brota e a produtividade acontece”.

Rafaella Coury – NovaCana

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