Por Carlos Murilo Barros de Mello*
As chuvas registradas em maio e junho no Centro-Sul do Brasil recolocaram o clima no centro das atenções do mercado sucroenergético. Depois de um início de safra marcado por boas expectativas de produção, o aumento das precipitações reduziu o ritmo da colheita e da moagem em diversas regiões produtoras, ampliando as dúvidas sobre os efeitos imediatos para a oferta de açúcar e etanol.
Apesar da desaceleração recente, uma leitura mais ampla indica que o efeito das chuvas muda conforme o horizonte de análise. No curto prazo, elas dificultam o avanço da colheita. Ao longo da temporada, porém, favorecem o desenvolvimento dos canaviais que serão colhidos na segunda metade da safra.
Esse paradoxo ajuda a explicar por que o mercado segue projetando uma safra robusta para o Centro-Sul, mesmo com as interrupções recentes na moagem.
Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apontaram queda de aproximadamente 13% na moagem na segunda quinzena de maio em relação ao mesmo período do ano passado, reflexo principalmente das dificuldades operacionais provocadas pelas chuvas.
Com os canaviais úmidos por vários dias consecutivos, o acesso das máquinas fica mais difícil, o tempo de colheita aumenta e a capacidade diária de processamento das usinas diminui um impacto conhecido pelo setor, sobretudo em anos de maior precipitação no início da safra.
Ainda assim, o desempenho acumulado da safra permanece positivo. Até o momento, o Centro-Sul registra um crescimento de aproximadamente 16%, segundo a Unica, sinal de que o atraso recente ainda não comprometeu o desempenho geral.
Historicamente, períodos de chuva durante a safra provocam reações imediatas no mercado por interromperem a colheita. Mas seus efeitos não devem ser avaliados apenas pela ótica operacional de curto prazo.
Na cana-de-açúcar, a disponibilidade de água em fases relevantes do desenvolvimento da planta influencia diretamente a produtividade agrícola. Parte importante dos canaviais previstos para colheita entre agosto e novembro ainda se beneficia das condições climáticas atuais, acumulando biomassa e potencial produtivo para os próximos meses.
Os dados da Unica reforçam essa percepção: a produtividade acumulada já alcança 84,7 toneladas de cana por hectare, patamar significativamente superior ao registrado na safra passada e acima das projeções iniciais para a temporada.
Esse desempenho abre espaço para revisões positivas nas estimativas de produtividade, caso as condições climáticas permaneçam favoráveis ao longo dos próximos meses.
Assim, embora as chuvas tenham reduzido temporariamente o ritmo da moagem, elas também fortalecem o potencial produtivo da cana que será colhida na segunda metade da safra. A tendência é que o mercado passe a olhar menos para a velocidade pontual da colheita e mais para a capacidade efetiva de produção do Centro-Sul.
Atualmente, a Hedgepoint estima uma moagem próxima de 635 milhões de toneladas de cana para a safra 2026/27. Caso o desempenho agrícola continue evoluindo, há espaço para revisões positivas dessa estimativa ao longo da temporada.
Uma safra maior amplia a disponibilidade de matéria-prima para a produção de açúcar e etanol, fator que tende a manter os fundamentos do mercado relativamente confortáveis durante a segunda metade do ano.
Esse cenário ajuda a explicar por que, mesmo com as interrupções causadas pelas chuvas, os preços internacionais do açúcar encontram dificuldade para sustentar movimentos mais consistentes de alta.
Embora a expectativa de uma produção robusta no Centro-Sul do Brasil continue pressionando o mercado no curto prazo, a intensificação do El Niño prevista para o segundo semestre levou à revisão para baixo da disponibilidade de açúcar no Hemisfério Norte.
Esse cenário aumenta as preocupações com a oferta global a partir do final de 2026 e início de 2027, período em que o mercado passa a depender mais da produção dos países do Hemisfério Norte durante a entressafra brasileira. Como resultado, os contratos com vencimento no próximo ano tendem a refletir esse maior aperto na oferta, trazendo um viés de sustentação para os preços.
Ao mesmo tempo, a maior disponibilidade de cana pode favorecer a oferta de etanol nos próximos meses. Embora as chuvas tenham sustentado momentaneamente alguns preços no mercado doméstico ao reduzir o ritmo da moagem, a recuperação da colheita tende a ampliar novamente a disponibilidade do biocombustível conforme a safra avança.
Se o início da safra mostrou que o excesso de chuva pode provocar atrasos operacionais relevantes, os próximos meses deverão indicar o verdadeiro impacto climático sobre a temporada.
O comportamento das precipitações em julho e agosto será decisivo para confirmar se o elevado potencial produtivo observado até agora será convertido em maior moagem e maior oferta de açúcar e etanol.
Mais do que acompanhar apenas os volumes processados a cada quinzena, o mercado deverá monitorar indicadores agrícolas, como produtividade por hectare e desenvolvimento dos canaviais, hoje essenciais para avaliar o desempenho esperado no restante da safra.
Em síntese, a chuva interrompe a moagem por alguns dias, mas também pode sustentar uma safra mais produtiva nos meses seguintes. Em um mercado cada vez mais sensível ao clima, compreender essa diferença é essencial para interpretar corretamente os fundamentos da temporada.
* Carlos Murilo Barros de Mello é economista e, atualmente, é chefe de açúcar para as Américas na Hedgepoint Global Markets
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