Carro elétrico

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Para CEO da Raízen, Brasil não tem necessidade de eletrificação rápida

Em evento promovido pela Folha de São Paulo, Ricardo Mussa afirma que transição energética brasileira passará pelos modelos de carros híbridos


NovaCana - Publicado: 19 Fev 2024 - 16:12

“A eletrificação terá uma série de estágios. Na nossa visão como empresa, cada país terá um processo diferente. No Brasil, vemos uma eletrificação que vai passar pelo híbrido. O governo brasileiro não tem a mesma necessidade de outros países, como norte da Europa, de ter uma eletrificação mais rápida, pois eles não têm uma alternativa, não têm o etanol. Aqui no Brasil, a mudança virá pelo consumidor. É uma transição”.

A declaração foi dada pelo CEO da Raízen, Ricardo Mussa, durante um seminário dedicado à transição energética no país, promovido pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira, 19. Segundo ele, o Brasil tem uma “condição muito única”, com uma matriz renovável e grande presença do etanol.

Por sua vez, o presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), Ricardo Bastos, detalhou que “em breve” alguma das suas empresas associadas deve anunciar um carro elétrico compacto com preço em torno de R$ 100 mil. Ele explica que reduzir o valor dos veículos à bateria é um desafio devido aos aumentos de impostos.

Ainda segundo ele, os carros estão ficando mais baratos e esta deve ser a tendência, especialmente por conta do ganho de escala. O movimento é mais claro na China, segundo Bastos. “O principal ingrediente que encarece o produto é a bateria, mas o custo dela está reduzindo, assim como o dos minerais. A tendência é o carro elétrico cair de preço e do carro à combustão subir, devido às normas de emissão”, detalha o presidente da ABVE.

“Temos um cenário no Brasil que, há oito anos, era impossível imaginar: o excesso de energia elétrica. Temos energia barata e renovável, só que não conseguimos exportá-la. Como aproveitar o momento de energia barata e fazer com que o Brasil exporte outros produtos renováveis e use essa energia barata aqui dentro?”, Ricardo Mussa (Raízen)

Outros caminhos para o etanol

Mussa detalha outras atribuições para o etanol, indo além do uso em veículos. “É uma cadeia carbônica renovável, que serve para fazer plástico, tinta, químicos, bebidas e hidrogênio”, afirma e completa: “Há cinco anos, 20% na nossa produção era de etanol industrial; hoje é 50%. O etanol para outros usos está crescendo muito, pois o mundo está descarbonizando e o biocombustível é uma fonte muito barata de carbono renovável”, acrescenta.

Com isso, ele não visualiza ameaças eminentes para o renovável, considerando até mesmo que há mercado de sobra: “Não vejo risco de demanda para o etanol, ao contrário. Enxergo um problema de abastecimento, pois tem muita demanda vindo”.

Entre as potencialidades, ele cita o Japão. “É um grande mercado para o etanol brasileiro. Conversei com um o ministro de energia do país e perguntei por que eles não faziam o mercado japonês ir para o etanol e eles disseram que ‘não tem biocombustível suficiente para isso’”, relata.

O CEO da Raízen também cita outro caminho para o etanol muito apontado pelas empresas e especialistas da área: a aviação. Mussa visualiza que tal mercado é “muito grande” e que o setor não vai eletrificar no curto prazo; além disso, é responsável por 3% a 4% das emissões globais. “[O setor] já tem mandatos claros e o etanol é uma fonte muito evidente”, considera.

“Marketing ruim”

Outra consideração de Mussa é a baixa confiabilidade do investidor externo no mercado brasileiro. “Não tenho dificuldade de falar sobre o benefício da transição energética, do potencial verde do país, mas sim de falar do Brasil. Produzimos cana a mais de 2 mil quilômetros da Amazônia, mas quando converso com o investidor, ele diz: ‘está perto da Amazônia’”, considera.

Ele ainda completa: “Fizemos um marketing muito ruim do país lá fora, a imagem é muito negativa e não é a correta. A insegurança jurídica também é um dos problemas”, diz.

O CEO da gigante sucroenergética ainda pontua que, se todos os países do mundo aproveitassem suas vantagens competitivas para combater a questão climática e o aumento da temperatura, funcionaria melhor. “Mas é difícil fazer isso. Eu coordeno, pela Raízen, um grupo que trabalha com diversos países do mundo para isso ocorrer e é muito difícil”, relata.

Para Mussa, o grande desafio é fazer políticas públicas para atender não somente um país, mas um “bem maior”. Ele segue: “Estamos em uma posição muito privilegiada. A questão é o que vamos priorizar, quais ações o país vai tomar para beneficiar o Brasil e o restante do mundo”.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana