A Colombo Agroindústria está sob um novo comando. Desde 5 de julho, o CEO da companhia, Anderson Roberto Travagini, está afastado do cargo a pedido do conselho de administração enquanto aguarda uma investigação após denúncias de irregularidades. A informação foi confirmada pela acionista do grupo, Aline Colombo Badan.
De acordo com um funcionário da usina, que pediu para não ser identificado, um aviso informal foi feito à equipe na quarta-feira, 10, após feriado estadual. O nome do executivo também foi retirado do site da companhia nesta segunda-feira, 15; na sequência, os dados pessoais dos demais diretores também foram removidos. Entretanto, não há nenhum comunicado oficial na página de relações com investidores.
Em um áudio gravado durante reunião com o presidente do conselho de administração da companhia, Sergio Colombo, e disponibilizado ao NovaCana, Aline Colombo é orientada a não dar publicidade à questão para “proteger a firma”.
“É extraoficial ainda. (...) Nós erramos. A equipe em quem nós confiamos estava fazendo um trabalho de administração, operacional, de resultados espetaculares. Eu confiei e fiquei do lado dele [Travagini]. Tinha uma confiança muito grande. (...) Mas ele extrapolou os limites e, agora, estamos descobrindo tudo”, afirma o presidente do conselho, no áudio.
Mas um segundo funcionário da Colombo – que também solicitou anonimato – ressalta que seria necessário divulgar publicamente o afastamento e a investigação. “A ordem é não dar informação ao mercado, o que não é certo. Tem papel no mercado financeiro, CRA e debênture”, afirma e completa: “Se tiver alguma coisa [irregular], vão ter que reapresentar balanço, mudar o conselho e mostrar que estão sendo feitas melhorias dentro do padrão de governança da companhia”.
Aline Colombo também relata que ela e o irmão, Eloy Colombo, levantavam dúvidas em relação à administração da companhia há, pelo menos, quatro anos. “Sempre éramos impedidos de obter informação. Se você tentava falar algo ou não tinha resposta ou falavam que iam fazer um pedido ou pediam para oficializar por e-mail. Mas o e-mail de resposta nunca chegava”, conta.
Ainda de acordo com ela, algumas provas físicas já foram levantadas, mas ainda haveria questões a averiguar – e, em diversos casos, a obtenção dos documentos dependeria do aval de Sergio Colombo. “Temos um dossiê com muita coisa já exposta. O mínimo que o conselho deveria fazer é ler esse dossiê e começar a chamar os encarregados, pedir os documentos. Alguns estão sendo pedidos, porém, apenas mediante pressão”, detalha.
Graduado em ciências da computação e com MBA em gestão financeira, controladoria e auditoria pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Travagini ingressou na Colombo em 1998, ocupando diferentes cargos ao longo de sua trajetória. Ele se tornou CEO em 2022, após atuar como diretor de operações (COO) durante quatro anos.
O NovaCana entrou em contato com representantes da Colombo Agroindústria e com Anderson Travagini, mas não obteve retorno até o momento da publicação dessa reportagem. O espaço segue aberto.
Uma das principais denúncias contra Anderson Travagini é a utilização de cartões de crédito da companhia para gastos pessoais. Uma pessoa envolvida com a companhia, que também solicitou que seu nome não fosse revelado, informou que o executivo utilizou o cartão corporativo para a aquisição de móveis de luxo e roupas de grife, além de fazer diversas refeições em restaurantes de alto padrão, entre outros gastos.
Um dos funcionários ouvidos confirmou essas informações. O NovaCana também teve acesso às cópias de algumas faturas. Em um dos documentos mais recentes, com vencimento em junho deste ano, o valor a ser pago totaliza R$ 83,88 mil e inclui a primeira de cinco parcelas de uma compra realizada em uma loja de material de construção, no valor de R$ 26,85 mil.
“O que já foi pago deve ser, mais ou menos, entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões. Só que ainda tem fatura para vencer porque ele parcelou um monte de compra”, aponta um dos funcionários ouvidos pela reportagem.
Ainda segundo ele, os cartões corporativos utilizados pelo CEO não foram corretamente declarados pela companhia. Por conta disso, ele acredita que também podem ter ocorrido irregularidades na auditoria dos resultados financeiros da Colombo, realizada pela KPMG.
Para esclarecer a questão, o NovaCana também entrou em contato com a KPMG. Em nota, a companhia informou que, por motivos de cláusulas de sigilo e regras da profissão, está impedida de se manifestar sobre casos envolvendo clientes ou ex-clientes.
Além disso, outra denúncia aponta que o executivo teria realizado transferências de recursos da Colombo para duas empresas que possuem como sócios o próprio Anderson Roberto Travagini e sua esposa, Cleomara de Faria Travagini.
Uma dessas empresa, chamada Focus Consulting Apoio Administrativo, teria recebido em torno de R$ 600 mil entre abril e junho deste ano. Já as transferências para a Manga Consulting Apoio Administrativo, ocorridas de novembro de 2023 a junho de 2024, somariam quase R$ 1,32 milhão. Estes valores não puderam ser confirmados pela reportagem.
De acordo com um dos funcionários ouvidos pelo NovaCana, a presença destas empresas nas finanças da Colombo também deveria ter sido observada pela KPMG.
Além disso, ele destaca outras contratações que considera dignas de averiguação. Uma delas envolve uma empresa terceirizada de transporte de cana que, segundo o colaborador, não seria necessária devido à menor moagem que vem sendo observada pela companhia na safra 2024/25.
“No ano passado, a Colombo moeu 12 milhões de toneladas de cana. Esse ano, vai moer 10 milhões de toneladas, talvez. Mas contrataram uma empresa de transporte e a frota da usina está encostada no pátio. Por que motivo? Essa contratação não passou pelo conselho. Quem assinou?”, questiona.
Aline Colombo ainda denunciou mais uma possível irregularidade. De acordo com a acionista, foram abertas contas no banco Superdigital em nome de vários sócios da Colombo, com emissão de cartões de débito. Ela acredita que essas contas possam ter recebido depósitos feitos pela equipe da própria usina e afirma que há indícios de que os cartões foram utilizados.
“Ele [Travagini] emitiu cartões de débito nos nomes de tios meus. E ele emitiu no CPF do acionista mesmo, como se fosse uma conta particular”, relata e segue: “Chegou até mim que acharam sete cartões. Alguém do setor de financeiro mandava dinheiro para lá e ele sacava”.
O tema também consta na conversa que Aline Colombo gravou com o presidente do conselho, Sergio Colombo. No áudio, um dos presentes na reunião menciona dois nomes de possíveis vítimas do golpe.
Neste caso, nenhuma das fontes consultadas pelo NovaCana soube estimar o volume financeiro que teria sido movimentado.
Renata Bossle – NovaCana